OPINIÃO - DE OLHOS NA ESTRADA
2026-05-23 21:09:14

O mês de maio regressou com a cor da advertência. Em Portugal, liderada pela Prevenção Rodoviária Portuguesa, a campanha "Maio Amarelo" assume extrema urgência perante uma realidade que dilacera famílias. O mote deste ano desafia-nos a circular com os olhos bem abertos e postos na estrada, antecipando os riscos e salvando vidas, premissa alinhada com a mensagem central de estar atento e ver o outro no espaço público. Este movimento não se cinge a estatísticas frias, mas é um manifesto pela vida, surgindo num momento crítico em que os trágicos balanços das operações festivas demonstram que a estrada continua a ser palco de perdas evitáveis e traumas profundos que urge estancar coletivamente. Para além de alertar para o flagelo dos acidentes, a campanha foca-se na mudança cultural. A segurança transcende o cumprimento do Código da Estrada; reside em compreender que a via pública é um ecossistema interdependente. Um dos aspetos fulcrais é a proteção dos utilizadores vulneráveis, peões, ciclistas e motociclistas, cuja integridade depende do civismo dos restantes condutores. Adicionalmente, importa debater o impacto socioeconómico devastador desta realidade, desde a sobrecarga do Serviço Nacional de Saúde até às sequelas psicológicas permanentes que afetam as vítimas e as suas famílias. A análise técnica dos sinistros continua a apontar o fator humano como a variável predominante. O excesso de velocidade, a condução sob o efeito do álcool e a distração provocada pelo telemóvel formam o tríptico da negligência nas estradas portuguesas. É imperioso reconhecer que a velocidade excessiva não só reduz o tempo de reação, como aumenta de forma geométrica a energia cinética libertada num impacto, exacerbando a gravidade das lesões. Da mesma forma, o consumo de álcool compromete as funções psicomotoras e oblitera a capacidade de antecipar o perigo. Numa era de hiperconectividade, desviar a atenção por breves segundos para ler uma mensagem equivale a conduzir dezenas de metros às cegas, um risco incomportável que desrespeita a vida alheia. Inverter esta tendência exige a tradução do civismo em gestos práticos. Salvar vidas na estrada começa antes de rodar a chave na ignição, através do planeamento das rotas e da verificação das condições do veículo, como a pressão dos pneus e eficácia dos travões. Durante a viagem, a prudência dita que se cumpram os limites de velocidade e se mantenha uma distância de segurança adequada. A tolerância zero ao álcool e o silenciamento de telemóveis são regras inegociáveis. O uso correto do cinto de segurança e de cadeiras infantis continua a ser a barreira mais eficaz contra a morte. Em viagens longas, o respeito pelo descanso e a realização de pausas a cada duas horas salvaguardam o condutor da fadiga. O Maio Amarelo não pode ser um evento efémero, mas sim o catalisador para uma cidadania rodoviária perene. A Prevenção Rodoviária Portuguesa recorda-nos de que a estrada é um espaço de convivência, onde a nossa liberdade termina onde começa a segurança do próximo. Conduzir com empatia, mantendo o foco absoluto na via e assumindo a responsabilidade partilhada por cada trajetória, é o único caminho viável para mitigar a dor da sinistralidade. Que este mês nos convoque a todos a olhar mais além, a proteger o outro e a garantir que cada viagem tenha sempre um regresso seguro. n NÉLIO OLIM