MAIS DE 108 MIL DOENTES URGENTES ABANDONARAM HOSPITAIS DO SNS SEM ALTA
2026-05-22 21:08:56

Ouça este artigo Clique para reproduzir Mais de 108 mil utentes classificados como casos urgentes abandonaram os serviços de urgência dos hospitais públicos portugueses em 2025 antes de receberem alta médica, revelam dados oficiais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). O fenómeno atinge sobretudo hospitais da Grande Lisboa, onde os tempos de espera continuam a aumentar e milhares de doentes acabam por desistir antes de serem observados, realizarem exames ou concluírem tratamentos. Segundo uma análise do Expresso (edição impressa) com base em dados disponibilizados no portal do SNS, o Hospital Fernando Fonseca, conhecido como Amadora-Sintra, apresenta os piores indicadores entre 12 grandes unidades hospitalares analisadas. Os tempos médios de espera para doentes com pulseira amarela - atribuída a situações urgentes que deveriam ser atendidas em até 60 minutos - passaram de 112 minutos em 2023 para 238 minutos em 2025, aproximando-se das quatro horas. A degradação dos serviços reflete-se também no aumento dos abandonos. No Amadora-Sintra, a percentagem de doentes urgentes que saíram sem alta médica subiu de 7,5% em 2023 para 12,9% em 2025. Nos primeiros quatro meses de 2026, a taxa agravou-se ainda mais, atingindo 14,8%. Na prática, mais de um em cada sete utentes classificados como urgentes acaba por abandonar o hospital antes de concluir o atendimento clínico. A situação foi ilustrada pelo testemunho do ator Alfredo Brito, que denunciou a experiência vivida pelo pai, de 95 anos, que terá esperado mais de 24 horas para ser observado no serviço de urgência daquele hospital, apesar de ter sido triado com pulseira amarela. Os dados nacionais mostram, contudo, uma realidade desigual no território. Embora o número global de abandonos se tenha mantido relativamente estável nos últimos anos - representando cerca de 3,9% dos 2,8 milhões de atendimentos urgentes registados em 2025 -, os hospitais da Área Metropolitana de Lisboa concentram os piores desempenhos. Além do Amadora-Sintra, destacam-se o Hospital Garcia de Orta, em Almada, com uma taxa de abandono de 11%, e o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, onde os tempos médios de espera para pulseiras amarelas atingiram os 222 minutos em 2025. As administrações hospitalares justificam os constrangimentos com a falta de profissionais e a crescente pressão sobre os serviços. O Amadora-Sintra refere ter perdido metade da equipa médica da urgência, num contexto particularmente exigente devido à elevada densidade populacional da área servida e aos quase 200 mil utentes sem médico de família. Já o Garcia de Orta sustenta que muitos doentes abandonam o hospital após já terem sido observados ou após melhoria clínica, enquanto o Beatriz Ângelo aponta dificuldades nos sistemas informáticos e problemas operacionais nos registos dos indicadores. Continue a ler após a publicidade Os especialistas distinguem diferentes tipos de abandono nas urgências hospitalares. O mais preocupante é o denominado Left Without Being Seen (LWBS), quando o doente abandona o hospital antes da primeira observação médica. Estudos internacionais citados pelas administrações hospitalares alertam que estes casos podem representar riscos graves para os pacientes, incluindo maior probabilidade de readmissão hospitalar ou até mortalidade nos 30 dias seguintes. O Hospital de Santo António, no Porto - que apresenta um dos melhores desempenhos do país, com 55 minutos de espera média para pulseiras amarelas - considera mesmo a monitorização das taxas de abandono um “indicador clínico de qualidade e de gestão de risco fundamental”. Confrontado com os números, o Ministério da Saúde prefere destacar a evolução nacional dos indicadores. O gabinete da ministra Ana Paula Martins afirma que houve uma redução de 18% nos tempos de espera face a 2023 e sublinha que o sistema de triagem de Manchester continua a ser “um instrumento seguro e eficiente”. Ainda assim, os dados revelam que milhares de doentes urgentes continuam a abandonar diariamente os hospitais portugueses sem conclusão do atendimento médico, numa realidade que continua a pressionar o SNS e a levantar preocupações sobre segurança clínica e capacidade de resposta das urgências. Revista de Imprensa