108 MIL DOENTES COM PULSEIRA AMARELA ABANDONARAM O HOSPITAL SEM ALTA MÉDICA
2026-05-22 21:08:53

No Hospital Amadora-Sintra, os casos de pessoas com pulseira amarela que saíram sem ter alta médica quase duplicaram em dois anos e este é também o hospital onde os tempos de espera para os casos urgentes são mais elevados. Garcia de Orta, em Almada, e Beatriz Ângelo, em Loures, lideram este ranking dos piores desempenhos O ator Alfredo Brito quis contar a experiência com o pai, de 95 anos, no serviço de urgência do Hospital Fernando Fonseca, também conhecido como Amadora-Sintra. Segundo ele, o seu pai deu entrada às 15h43 do dia 31 de março, uma terça-feira, com sangue na urina, e esteve mais de 24 horas para ser observado pela primeira vez por um médico, apesar de lhe ter sido atribuída uma pulseira amarela, a cor que no sistema de triagem de Manchester é destinada a casos urgentes, para os quais é recomendado um tempo máximo de espera de 60 minutos. “Uma das coisas que mais me impressionou e que não me sai da memória foi chegar à enfermaria, por ter sido chamado, e não encontrar o meu pai. Na verdade, todos me pareciam o meu pai. Rostos pálidos, cansados.” Casos como este estão a refletir-se nas estatísticas, de acordo com uma análise de informação feita pelo Expresso a partir de dados em bruto disponibilizados no portal do Serviço Nacional de Saúde (SNS). O tempo médio de espera para pulseiras amarelas no Amadora-Sintra duplicou de 2023 para 2025, de 112 para 238 minutos, de menos de duas horas para quase quatro. A par disso, quase duplicou a percentagem de utentes classificados como urgentes na triagem e que abandonaram o hospital sem que nenhum médico lhes tivesse dado alta. A taxa desses abandonos passou de 7,5% em 2023, quando houve 4870 casos, para 12,9% em 2025 (7243 casos), sendo que nos primeiros quatro meses de 2026 (dados recolhidos até ao dia 25 de abril) o valor foi de 14,8%, com 1629 pessoas triadas com pulseira amarela a saírem antes do tempo por sua própria iniciativa. Isso significa que no serviço de urgência geral do Amadora-Sintra mais de um em cada sete doentes urgentes se vai embora antes de ser visto por um médico, de fazer análises e exames ou de completar um tratamento. A proporção de abandonos entre os pacientes urgentes neste hospital é quatro vezes a média nacional. E o tempo médio de espera é cinco vezes maior. Ao todo, em 2025 foram triadas 108 mil pessoas nos serviços de urgência do SNS em Portugal com pulseiras amarelas, que abandonaram os hospitais antes de terem alta. A realidade à escala nacional tem-se mantido estável nos últimos três anos, representando 3,9% do volume global de 2,8 milhões de atendimentos de casos urgentes registados quer em 2023, quer em 2025. O tempo médio de espera reduziu-se, inclusive, de 55 para 50 minutos nesse período, segundo os registos oficiais. No entanto, os números mostram que, para os mesmos indicadores e para um universo de 12 hospitais de referência analisados pelo Expresso, de norte a sul do país, as piores performances concentram-se nas ULS da Grande Lisboa. Média nacional de altas por abandono de utentes com pulseira amarela Casos urgentes TOP 5 dos hospitais com mais altas por abandonoUtentes com pulseira amarela em 2025 Horas de espera Um estudo da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) sobre o acesso às urgências no SNS, publicado em novembro de 2025, dava conta de que entre janeiro de 2022 e o primeiro semestre de 2024, e tendo em conta o todo nacional, as taxas de cumprimento dos tempos-alvo foram piores para os doentes muito urgentes (pulseira vermelha, 44,4%) e urgentes (amarela, 66,5%), em comparação com os pouco urgentes (verde, 78%) e não urgentes (85,2%). Na amostra analisada pelo Expresso, o Hospital Beatriz Ângelo tem o segundo pior resultado no tempo médio de espera de pacientes com pulseira amarela em 2025, com 222 minutos, um agravamento de 21% face a 2023. E embora a taxa de altas por abandono na ULS de Loures-Odivelas tenha reduzido ligeiramente de 2024 para o ano passado, mantinha-se elevada, nos 10%. Na Margem Sul do Tejo o Garcia de Orta tinha a segunda pior taxa de altas por abandono em 2025, depois do Amadora-Sintra, com 11%, embora o tempo médio fosse significativamente mais baixo do que nos outros casos críticos: 144 minutos. A administração do Amadora-Sintra justifica a degradação das suas urgências com o facto de ter perdido 11 médicos - metade da equipa -, “verificando-se, simultaneamente, um aumento da complexidade clínica dos doentes observados”, além de um contexto geográfico difícil, enquanto ULS com a maior população residente do país, 600 mil habitantes. “Trata-se de um território com elevada densidade populacional e significativa complexidade sociodemográfica, marcado igualmente pela existência de quase 200 mil utentes sem médico de família atribuído, realidade que corresponde a cerca de 12% do total nacional de utentes sem médico de família e que exerce uma pressão particularmente exigente sobre os serviços de urgência.” Tempo médio de espera com pulseira amarela em Portugal Em minutos Top 5 dos hospitais com mais tempo de espera Utentes com pulseira amarela em 2025 Um indicador fundamental? A nova equipa de gestão do hospital, que está em funções desde fevereiro, espera que a situação consiga regredir com uma “melhoria da articulação com os cuidados de saúde primários e com o SNS24” e com o novo concurso para a contratação de pessoal médico lançado pela ministra da Saúde este mês e que prevê 90 médicos para a área da ULS de Amadora-Sintra, incluindo 20 médicos de Medicina Interna para o serviço de urgência do hospital. Mas, num contexto de falta generalizada de médicos e de condições salariais pouco atrativas, é preciso que as vagas sejam preenchidas. Quanto às outras unidades problemáticas da Grande Lisboa, o Hospital Garcia de Orta esclarece, numa resposta escrita, que “os doentes triados com cor amarela correspondem a situações urgentes, mas não emergentes, não apresentando risco imediato de vida”, e que isso “contribui para que este grupo seja mais propenso ao abandono, comparativamente com os doentes classificados com prioridades mais elevadas (laranja e vermelho)”. Além disso, o hospital verificou que “a maioria dos doentes com pulseira amarela que abandonaram o serviço (6590 em 6902) já tinha tido contacto com um médico e, em muitos casos, iniciado um plano terapêutico, sendo plausível que o abandono tenha ocorrido na sequência de melhoria da condição clínica ou alívio dos sintomas”. O pai de Alfredo Brito foi triado com pulseira amarela e esteve mais de 24 horas à espera de ser visto por um médico Já em relação ao Hospital Beatriz Ângelo, a ULS Loures-Odivelas ressalta que tem havido “alterações operacionais e constrangimentos técnicos que condicionam a leitura direta dos indicadores”, incluindo problemas nos sistemas de informação e nos registos de dados, nos últimos quatro meses de 2025. De qualquer forma, quanto às altas por abandono, “os utentes são informados dos riscos associados à saída antes da observação médica e podem, sempre que necessário, voltar a recorrer às linhas de referenciação adequadas”, diz o gabinete de comunicação daquela unidade de saúde. Mas o que significa, afinal, uma alta por abandono? A literatura internacional distingue habitualmente três tipos de abandono nas urgências. O LWBS (Left Without Being Seen) refere-se ao doente que abandona a sala de espera após a triagem, mas antes da primeira observação médica - a categoria associada ao maior risco clínico. O LAMA (Left Against Medical Advice) é o que deixa o hospital após observação, contra o parecer médico. E há ainda “o elopement”, quando a saída ocorre durante o tratamento. Os dados brutos do portal do SNS não fazem essa distinção. No Hospital de São João, uma das ULS onde a taxa de abandono e o tempo médio de espera têm vindo a descer de uma forma global, mas também para os casos urgentes (com uma taxa de abandono de 5% e um tempo médio de espera de 70 minutos em 2025), a administração admite que não conseguiu confirmar os dados constantes do portal do SNS relativos a alguns dos valores com que foi confrontada (sobre pulseiras vermelhas), sublinhando que, de qualquer forma, “os episódios classificados administrativamente como abandono incluem situações clínicas muito heterogéneas: doentes que abandonam antes da observação médica, doentes observados que saem antes da conclusão do processo de diagnóstico ou terapêutico, situações equiparadas a alta contra parecer médico (que não foram formalizadas com impresso assinado) ou saídas não formalizadas”. Para a administração do Hospital de Santo António, que regista o tempo médio de espera mais baixo para pulseiras amarelas (55 minutos) entre as 12 unidades analisadas pelo Expresso, “a monitorização da taxa de abandono no Serviço de Urgência (SU) hospitalar é considerada um indicador clínico de qualidade e de gestão de risco fundamental”. Há vários motivos para tal, mas o principal é este: “Doentes que abandonam o SU podem ter condições graves não diagnosticadas. Estudos indicam que estes doentes têm um risco aumentado de readmissão e, em casos extremos, de morte nos 30 dias seguintes ao abandono” Redução dos tempos de espera Ministra prefere olhar para números globais Confrontado com a perfomance dos serviços de urgência dos hospitais Amadora-Sintra, Beatriz Ângelo e Garcia de Orta quanto às taxas de abandono e tempos médios de espera para pulseiras amarelas, o gabinete da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, prefere olhar para as estatísticas nacionais, relativas ao universo total das 39 ULS que existem no país. “Tem-se verificado uma redução sustentada nos últimos anos: em 2025 registou-se menos 18% face a 2023 e menos 17% em comparação com 2024. Esta tendência manteve-se no primeiro trimestre de 2026, com uma redução adicional de 12% face a 2025”, diz o gabinete, numa resposta escrita. Em relação aos tempos médios de espera entre a triagem e a primeira observação médica, o gabinete salienta que houve também um progresso, comparando os últimos invernos (em vez de anos civis). “Comparando o inverno de 2025-2026 com o de 2024-2025, estes tempos diminuíram 4%.” A equipa de Ana Paula Martins sublinha a importância do sistema de triagem de Manchester (com cores) - “um instrumento seguro e eficiente” -, mas relativiza a gravidade que possa estar associada à pulseira amarela. “Exatamente por privilegiar a segurança e ter por base a queixa apresentada pelo doente, a escala de prioridades de Manchester garante que existe um número generoso de indicadores, que podem levar à suspeita de quadros clínicos urgentes, a ser triados de amarelo. O que, por vezes, por diferentes razões, não corresponde a quadros efetivamente muito urgentes.” Micael Pereira Grande repórter Micael Pereira