ENTREVISTA A VASCO CONCEIÇÃO - O CONSUMER HEALTH TEM UM PESO CADA VEZ MAIS RELEVANTE NO RETALHO DE SAÚDE EM PORTUGAL
2026-05-22 21:08:52

fotografia D.R. O mercado de consumer health em Portugal está a atravessar uma fase de transformação sustentada, marcada por um crescimento consistente, maior sofisticação da procura e uma progressiva deslocação para soluções de prevenção e bem-estar.com um valor global que ultrapassa já os dois mil milhões de euros, entre farmácia e parafarmácia, este segmento afirma-se como um dos principais motores do retalho de saúde, beneficiando de consumidores mais informados, de um envelhecimento demográfico acelerado e de novas dinâmicas de canal, onde o digital começa a ganhar tração. Em entrevista, Vasco Conceição, consumer health business unit director Spain & Portugal da IQVIA, uma das principais empresas globais de análise de dados, tecnologia e consultoria aplicada ao sector da saúde, analisa a evolução do mercado, as tendências que estão a moldar o consumo e as oportunidades, e desafios, que se colocam aos diferentes players num sector cada vez mais competitivo e estratégico. Qual é a dimensão atual do mercado de consumer health em Portugal e a projeção de crescimento para os próximos três a cinco anos? O mercado de consumer health , que inclui medicamentos não sujeitos a receita médica (MNSRM), suplementos alimentares, higiene oral, dispositivos médicos e dermocosmética , tem um peso cada vez mais relevante no retalho de saúde em Portugal. Mais do que um complemento, a área de consumer health é atualmente um dos principais motores de crescimento. Olhando para os números, em farmácia (físicas e online), o mercado situou-se em 1,6 mil milhões de euros em 2025, com um crescimento, face a 2024, de cerca de 6% em valor e 3% em volume. Na parafarmácia, falamos de um mercado na ordem dos 554 milhões de euros, a crescer cerca de 8% face a 2024, tanto em valor como em volume. A IQVIA antecipa que estes segmentos apresentem um crescimento anual médio entre 5% e 7%, nos próximos três a cinco anos. Importa ainda referir que estes valores poderão ser conservadores, uma vez que players mistos , como perfumarias e outros retalhistas , têm vindo a reforçar de forma consistente a sua oferta de produtos de parafarmácia. Quais são os principais segmentos de produtos? A IQVIA organiza o mercado de consumer health em quatro grandes segmentos, com diferentes pesos e dinâmicas de crescimento. Os de maior dimensão continuam a dar escala ao mercado, mas o crescimento está a deslocar-se progressivamente para áreas mais funcionais e especializadas. Em 2025, o maior segmento continuou a ser o de MNSRM e suplementos, que representa cerca de 53% do mercado, seguido da dermocosmética, com 25%. São segmentos muito maduros, o que se reflete em crescimentos mais moderados, que em 2025 rondaram os 2%. O ponto mais interessante está nos segmentos de menor dimensão. Os dispositivos médicos, que pesam cerca de 18%, e a nutrição, com 4%, foram precisamente os que mais cresceram em 2025, com taxas de 10% e 7%, respetivamente. Trata-se de uma nova tendência face aos últimos anos, em que eram os grandes segmentos que concentravam simultaneamente o peso e o crescimento. Como se distribuem atualmente as vendas de consumer health por canal? Há diferenças significativas na dinâmica de crescimento? Mesmo num contexto de maior concorrência, a farmácia mantém-se como o principal ponto de referência para o consumidor em saúde. Cerca de 76% das vendas continuam a realizar-se neste canal. Essa preferência é ainda mais clara nos dispositivos médicos e nos MNSRM e suplementos, onde a farmácia representa 86% e 83% das vendas, respetivamente. Aqui combinam-se dois fatores: por um lado, a exclusividade de alguns produtos; por outro, a confiança histórica que o consumidor deposita na farmácia. Já na dermocosmética e na nutrição observa-se uma crescente preferência pela parafarmácia, com 57% e 62% das vendas, respetivamente. 145 Grande Consumo Vasco Conceição Relativamente ao e-commerce, o seu peso continua ainda limitado, representando cerca de 3% na farmácia e 8% na parafarmácia, embora com uma trajetória de crescimento consistente. Quando analisamos o peso do e-commerce face ao número de pontos de vendas por habitante, verificamos que Portugal está muito abaixo do que seria esperado ao nível do e-commerce, significando que estes valores ainda estão muito longe do seu potencial máximo. Que tendências observam na evolução do canal digital para produtos de consumer health em Portugal? Há um aspeto que salta à vista quando analisamos o e-commerce em saúde: tal como tinha referido antes, existe espaço de crescimento, o que pode mudar se players internacionais significativos entrarem no mercado, conferindo maior dinamismo. Do mercado atualmente existente, o que verificamos é que o negócio está fortemente concentrado em poucos operadores. Por exemplo, no caso das e-farmácias, apesar de existir cerca de uma centena de websites de farmácias com loja online, a realidade é que uma pequena parte concentra a maioria do tráfego e das vendas. Para dar uma noção, cerca de 10% desses sites agregam mais de metade do tráfego total. Esta lógica de concentração acaba depois por se repetir noutros modelos digitais, seja na parafarmácia online ou em e-retailers especializados. Que tendências de consumo estão a impactar o mercado português atualmente? Portugal acompanha de perto as grandes tendências globais. A prevenção e o bem-estar deixaram de ser uma tendência para se consolidarem como comportamentos estruturais de consumo. Quais são as oportunidades de crescimento para os retalhistas neste segmento? Serviços de saúde integrados na loja, produtos digitais, subscrições? A farmácia e, cada vez mais, a parafarmácia possuem dois ativos difíceis de replicar: capilaridade e confiança. O grande desafio (mas também a grande oportunidade) passa por transformar esses ativos em propostas de valor diferenciadas. Faz cada vez mais sentido pensar numa lógica de online meets ofÒine, usando o digital, não como um fim em si mesmo, mas como uma forma de levar o consumidor até à loja física. Em paralelo, e tal como referido, as limitações crescentes do sistema de saúde criam a oportunidade de transformar estes retalhistas em verdadeiros espaços de saúde, com maior integração de cuidados, seja através de serviços próprios, seja em parceria com outros prestadores, seja através de parcerias estratégias, alianças ou apenas referenciação entre prestadores. Vejo também uma oportunidade clara para estes espaços se afirmarem na prevenção e no diagnóstico precoce, indo além da simples recomendação de produto e ajudando a identificar situações que, quando detetadas atempadamente, evitam problemas mais graves no futuro; e que poderão, de alguma forma, ser serviços de valor acrescentado para além da componente transacional com o consumidor, principalmente se trouxerem benefícios mensuráveis e relevantes para o Serviço Nacional de Saúde. Quais são os perfis de consumidores que estão a impulsionar o crescimento de consumer health em Portugal? O crescimento do mercado resulta da conjugação de diferentes perfis. Por um lado, consumidores mais informados e proativos; por outro, e atendendo ao envelhecimento demográfico, uma população sénior cada vez mais focada no autocuidado. Embora distintos, estes grupos convergem na procura por soluções de prevenção, monitorização e melhoria da qualidade de vida, sustentando o crescimento do consumer health. Identificam mudanças recentes nos padrões de compra que possam indicar novas prioridades ou preferências dos consumidores portugueses? De um modo geral, o comportamento do consumidor português tem sido bastante estável nos últimos três anos. Não se registou uma rutura clara nas prioridades, mas algumas categorias destacam-se claramente como motores de crescimento. Em particular, três áreas representam, em conjunto, mais de 30% do peso do crescimento do mercado: produtos de beleza unissexo, impulsionados sobretudo por solares, produtos anti seborreicos e anti-aging; suplementos de vitaminas e minerais e produtos para o sistema digestivo. Que barreiras ou desafios regulatórios impactam a expansão de produtos ou serviços de consumer health no retalho em Portugal? Em termos europeus, Portugal é um mercado relativamente liberal no consumer health. É possível vender MNSRM em parafarmácias e através de e-commerce, algo que não é assim tão comum noutros países. Ainda assim, existem algumas barreiras relevantes. Destaca-se o enquadramento regulatório que equipara a promoção de dispositivos médicos à dos medicamentos. Uma maior flexibilização, sobretudo para dispositivos equiparáveis a produtos de bem-estar ou suplementos, poderia trazer um dinamismo adicional ao mercado ao criar formas de atrair o consumidor para estes retalhistas. Como se compara o desenvolvimento do mercado português com os principais mercados europeus em termos de crescimento, estrutura de segmentos ou dinâmica de canal? O mercado português evolui, em termos gerais, de forma alinhada com os principais mercados europeus. As diferenças surgem mais ao nível da estrutura do mercado do que no comportamento do consumidor. A liberalização ao nível do produto dá mais espaço a canais fora da farmácia, enquanto o e-commerce transfronteiriço, apesar de existir, ainda não está verdadeiramente massificado. Por outro lado, o facto de o mercado da farmácia não ser liberalizado, com regras muito apertadas sobre propriedade e expansão, faz com que não existam cadeias de grande dimensão, que noutros países desempenham um papel muito relevante no desenvolvimento do consumer health. Esta combinação de fatores paradoxais de liberalização e proteção fazem de Portugal um dos países mais interessantes na Europa para se trabalhar esta área. Que impacto das variáveis macroeconómicas observam na evolução das vendas em Portugal, especialmente comparando com a Zona Euro? As variáveis macroeconómicas representam simultaneamente riscos e oportunidades. O que poderia ser visto como consumo opcional revelou-se, na prática, bastante resiliente. Uma contração do poder de compra pode afetar o consumo, mas o que se tem observado é que a indústria e os retalhistas conseguiram, em muitos casos, crescer acima da inflação, mantendo o consumo relativamente estável. Mais importante ainda, o que no passado poderia ser considerado consumo opcional, associado ao wellness, revela hoje uma elevada resiliência e maturidade. Farmácias e parafarmácias têm demonstrado capacidade de adaptação e reinvenção, sustentando o dinamismo do mercado de consumer health em Portugal. “Mesmo num contexto de maior concorrência, a farmácia mantém-se como o principal ponto de referência para o consumidor em saúde. Cerca de 76% das vendas continuam a realizar-se neste canal” BÁRBARA SOUSA