MANUTENÇÃO E PEÇAS DO EUROFIGHTER PODEM VIR A SER FEITAS EM PORTUGAL SE O PAÍS OPTAR PELO CAÇA DA AIRBUS
2026-05-22 19:57:07

A Airbus está desde abril de 2025 a trabalhar com potenciais fornecedores portugueses e a manutenção e fabrico de peças são agumas das hipóteses de cooperação em aberto. Mecachrome, Critical Software,Tekever estão entre as empresas com quem a equipa liderada por Ivan Gonzalez Exposito tem reunido Há mais de um ano a promover ativamente os caças do grupo Airbus em Portugal, Ivan Gonzalez Exposito, diretor de vendas do Eurofighter tem estado a visitar mensalmente os fornecedores portugueses da gigante europeia e empresas do sector aeronáutico para discutir que papel podem vir a ter caso venham a ser os escolhidos pela Força Aérea Portuguesa (FAP) para substituir os norte-americanos F16. Os dois motores do avião de combate Eurofigther Typhoon são apontados pelo responsável da Airbus como um dos trunfos do caça pan-europeu para operar num país da costa atlântica como Portugal. Argumentos a que se junta a maturidade de um produto europeu com quase três décadas e a garantia de soberania nacional e da partilha de tecnologia, valores maiores num mundo em forte mudança geoestratégica. "Visitamos parceiros e instituições e viajamos um pouco pelo país, de norte a sul: Porto, Lisboa, Évora e por muitos outros sítios", explica Ivan González Exposito, em conversa com a imprensa portuguesa, à margem da primeira grande conferência de defesa da Airbus, que se realizou terça e quarta-feira, em Manching, na Alemanha, um evento que serviu para a gigante europeia demonstrar as competências dos seus equipamentos de defesa. Foi mostrada uma operação conjunta de drones de vigilância e helicópteros para a captura de alvos indesejados, e o caça Eurofigther Typhoon rasgou os ceús, revelando parte dos atributos dos seus atributos, a agilidade e rapidez. "Começamos as conversas que as autoridades portuguesas em abril do ano passado", esclarece Ivan González Exposito, explicando que a Airbus decidiu avançar após as mensagens políticas, nomeadamente do ministro da Defesa, Nuno Melo, dizendo que Portugal tinha de procurar alternativas ao F-35, da norte-americana Lockeed Martin. Momento que coincidiu com o acordar da Europa para a necessidade de procurar mais soluções europeias para grandes aquisições de defesa, empurrada pela nova política da administração Trump em relação à NATO. A Airbus já estabeleceu nesta campanha de promoção do Eurofighter mais de uma dezena de acordos de confidencialidade com empresas e instituições portuguesas e está a fazer avaliações industriais com empresas como a Aernnova, EEA, CEiiA, Mecachrome, Critical Software, Tekever, ETI, OGMA, Lauak e Orion Technik, explica Ivan Gonzalez Exposito. A equipa que lidera e aterra em Portugal regularmente está a reunir-se com uma empresa por mês, conta. "Temos condições para fabricar algumas peças do Eurofighter em Portugal. É possível, já estamos a discutir isso com as empresas portuguesas, a fim de identificar o que seria necessário fazer para as poderem fabricar", assegura. E não é só fabrico de peças. "Há também oportunidades para a manutenção do caça, manutenção do motor ou a reparação do equipamento", esclarece. Sem entrar em detalhes, exemplifica ainda. “Estamos a falar de empresas como a Orion Technik, que poderia realizar manutenção do equipamento ou de empresas que poderiam dar formação e disponibilizar simuladores para o Eurofighter em Portugal, como a ETI”. Airbus tem em Portugal 1700 trabalhadores O investimento em Portugal já está a acontecer, nota. "O Eurofighter será uma espécie de catalisador, um acelerador deste processo [de investimento], mas este processo já está a decorrer. A Airbus investe todos os anos em Portugal e está a aumentar a força de trabalho. Já são 1700 trabalhadores, mais ou menos 1000 na sede em Lisboa, cerca de 200 em Coimbra e mais de 400 [na fábrica de peças para o A330 e A350] em Santo Tirso. Na semana passada foi inaugurada a extensão da unidade de produção [na Airbus Air Atlantic] em Santo Tirso", detalha. A Airbus compra a fornecedores em Portugal cerca de 90 milhões de euros por ano. Os trunfos do Eurofighter Exposito menciona o que diz serem as vantagens do Eurofighter, o caça europeu que surgiu, na sua fundação, da união entre a Alemanha, Espanha, Itália e Reino Unido. "O Eurofighter tem muitos pontos positivos para oferecer a Portugal. É um produto europeu e é maduro. Tem dois motores e não apenas um, como alguns dos concorrentes. Para um país que está muito exposto a operações marítimas no Atlântico, [como é o caso de Portugal], é um fator de segurança de voo adicional ter dois motores em vez de um", explica Ivan Exposito. O primeiro Eurofighter, prossegue, foi entregue em 2003, há 23 anos, fruto de um programa que começou há 30 anos. "É um produto comprovado. É utilizado na Europa por cinco nações. Atualmente, voam 500 Eurofighters na Europa e outros 120 no Médio Oriente, em países como a Arábia Saudita, o Kuwait e o Qatar. Portanto, tem um vasto número de utilizadores", aponta o gestor. A relevância de ser um produto europeu é um dos galões que a Airbus - consórcio que envolve como acionistas os Estado alemão, francês e espanhóis - quer puxar. "Temos muitos fornecedores envolvidos na Europa e vemos a oportunidade para que fornecedores industriais portugueses participem no programa. Mantivemos 100 000 postos de trabalho para o Eurofighter na Europa ao longo destes 30 anos", assegura. González Exposito segue o mantra do CEO da Airbus, Guillaume Faury, esta semana em Manching, que fez questão de sublinhar a relevância da Europa cooperar na defesa e no esforço de reindustrialização quer no financiamento dos investimentos, quer nas compras. Partilha de tecnologia como vantagem "O principal fator de venda do Eurofighter [se se tiver de reduzir a um argumento] é garantir a soberania nacional e acesso à tecnologia. Estas duas coisas andam de mãos dadas", explica Ivan, quando exortado a resumir as principais vantagens do caça da Airbus. "É oferecido a Portugal acesso à tecnologia subjacente ao programa", detalha. González Exposito afirma ainda que "o modelo do Eurofighter está aberto a receber novos parceiros no consórcio". E detalha: "não se trata apenas de vender o produto, mas de partilhar a tecnologia, partilhar o conhecimento, ajudando Portugal a familiarizar-se com a plataforma e o sistema de armas o mais rapidamente possível". O fator de proximidade conta para que a Airbus se considere uma alternativa para substituir os F16. "Portugal é um país europeu da NATO, é um país vizinho de Espanha, e tem muita proximidade ao Reino Unido, à Alemanha e a Itália". E prossegue "é também de aproveitar a proximidade que existe com países como o Reino Unido, Espanha e Alemanha, que ficam a poucas horas de voo de Portugal para facilitar a troca de informação e a troca de conhecimento com engenheiros portugueses que se podem deslocar a estes países a fim de adquirir conhecimento o mais rapidamente possível". Dá dois exemplos da importância da proximidade. “Uma das bases da Força Aérea Espanhola, em Espanha, fica em Morón, perto de Sevilha, a meia hora de voo e que pode dar sempre algum tipo de formação ou apoio logístico”. Outro fator são as Ilhas Canárias, no Atlântico, onde estão também a Madeira e os Açores, nota. "Este arquipélago é fundamental para a defesa do flanco sudoeste da NATO, e pode vir a ser uma área de potencial conflito no futuro". Há uma base aérea do Eurofighter que vai ser inaugurada este ano, em junho, nas Ilhas Canárias, que pode cooperar com uma base aérea nos Açores ou na Madeira, avança. "Não há nenhum outro país que possa oferecer isso a Portugal", considera. A aproximação a Portugal Ivan González Exposito, trabalha "em campanhas" de vendas do Eurofighter há 15 anos, quando o tema da defesa não estava como hoje no topo da agenda europeia - começou precisamente em Manching, onde está o grande núcleo de desenvolvimento do caça da Airbus. Sabe por experiência própria que o processo de adoção de um equipamento da relevância e sofisticação de um caça é demorado. "Existe uma espécie de fase de maturação e começamos a monitorizar o mercado, identificando países como oportunidades potenciais, e depois fazemos a avaliação. Se têm os meios financeiros para fazer a aquisição, se têm os meios tecnológicos para adquirir a plataforma", conta. "Como o Eurofighter é um consórcio de empresas, nem sempre é a Airbus que avança, às vezes é a BAE Systems no Reino Unido, outras vezes é a Leonardo em Itália, e outras vezes é a Airbus na Alemanha ou a Airbus em Espanha, dependendo de quem está melhor posicionado e de quem está a obter o apoio político", detalha. Uma relação de longo prazo As campanhas dos caças são de longo prazo, explica, não se limitam a um único ano. "Normalmente duram entre três a cinco anos, dependendo da complexidade do país, depende do alinhamento das diferentes partes interessadas, dado que se trata de decisões altamente políticas". É um compromisso a longo prazo que um país assume: adquirir um novo caça é um compromisso para 30 a 40 anos, sublinha. "É como um casamento. Tem de ter a certeza absoluta, quando se casa com alguém, de que é a escolha certa", graceja. E há várias entidades envolvidas: os ministério da Defesa, da Economia, da Indústria, a Força Aérea, o Exército, a Marinha. Portugal está numa fase inicial do processo, ainda não foram publicados os imprescindíveis requisitos técnicos pela Força Aérea Portuguesa. Neles, afirma Ivan González Exposito, explicando o processo, virão descritas as missões em que querem voar, o número de aeronaves que estão a considerar comprar ou o apoio logistico de que precisam, e ainda se pretende que os serviços sejam assegurados exclusivamente pela Força Aérea ou se se pretende que haja uma participação da indústria local na manutenção das aeronaves. Todos estes aspetos têm de ser formalizados e submetidos pela Força Aérea ao Ministério da Defesa. Depois os Ministério da Defesa tem de discutir os requisitos técnicos. E dialogar com outros ministérios sobre qual é a solução ideal. É um longo e ardúo trabalho: têm de se comparar as diferentes ofertas que estão em cima da mesa: neste caso com o sueco Gripen e os F35 da Lockeed Martin. “Compara-se a parte económica das propostas, os preços, o financiamento, equaciona-se o retorno industrial, a capacidade militar e a cooperação que o país vendedor pode oferecer a Portugal, porque isto é também uma espécie de comércio compensatório que todos os países procuram quando investem”, afirma ainda. O Eurofighter foi uma espécie de consórcio criado há 30 anos por quatro nações fundadoras: Alemanha, Reino Unido, Itália e Espanha. “Portugal é um país da União Europeia e um dos 12 países fundadores da NATO há quase 80 anos. Existem algumas questões de segurança que não irão constituir qualquer problema no caso de Portugal. Temos um acordo de cooperação de defesa entre os países do Eurofighter e Portugal. Isso facilita muita coisa", explica. "Estamos a permitir que Portugal se associe ao programa”, avançou. E acrescenta: “se quiserem reforçar a parceria com um dos países do Eurofighter também o podem fazer. Precisamos de ter esta discussão com o Ministério da Defesa português e compreender qual é a sua preferência quanto à associação ao Eurofighter, de uma forma ou de outra”. O processo será longo, e o Eurofigther terá de enfrentar a forte concorrência do Gripen e do F35, que também têm estado a fazer contactos e a estabelecer pontes para parcerias com instituições portuguesas. O Expresso viajou para a Alemanha a convite da Airbus Anabela Campos Jornalista Anabela Campos