GUERRA ISRAEL-HAMAS EXPLOSÃO EM HOSPITAL DIFICULTA ESFORÇOS DIPLOMÁTICOS
2023-10-20 06:31:14

Sobreviventes Israelitas ainda enterram vítimas de 7 de outubro, palestinianos desesperam com a letargia internacional. Diplomacia é difícil face à ira da rua árabe “Mundo livre, onde estás?” Desde que o mundo parou para lamentar as mortes no hospital Al-Ahli, na Cidade de Gaza, terça-feira à noite, muitos palestinianos morreram noutros bombardeamentos sobre a Faixa de Gaza. A frase do título foi dita por um médico de outro hospital, o European, em Khan Yunis, no sul do território, para onde milhares de pessoas se deslocaram quando Israel avisou que o norte não era seguro. “Mundo livre, onde estás quando acontecem estes massacres cometidos contra pessoas sofredoras e oprimidas?”, pergunta Yousef al-Akkad num vídeo publicado nas redes sociais pelo Ministério da Saúde de Gaza. Tem seis bebés mortos à frente, uma maca chega para deitar todos. “A vida é imprevisível, vivemos entre um momento chocante e outro ainda mais chocante. Já estive abrigada no hospital Al-Ahli com a minha família, depois no hospital Al-Shifa, e dormi na rua, como as pessoas que estavam no parque de estacionamento”, conta ao Expresso Shahd Tawfeq, palestiniana de 26 anos, formada em Comunicação Social, que tem partilhado por mensagens o seu dia a dia em fuga. Até ao fecho desta edição nenhuma investigação independente apurou quem lançou o projétil que provocou a explosão perto do hospital. As Forças de Defesa Israelitas (IDF) dizem que um rocket da Jihad Islâmica, aliada do Hamas, se desintegrou após lançamento falhado de um cemitério perto do hospital, com o objetivo de atingir Israel. Outras análises, como a do Channel 4 britânico, dizem que o ângulo do disparo, visível num vídeo na Al Jazeera, não é consistente com a localização do cemitério. A questão, diz Shahd, não é especificamente este hospital. “As pessoas estão muito, muito zangadas, não interessa quem fez o quê, porque sabemos de onde vem a maioria dos ataques. Estou na escola de Rufaydah, dentro do campo de refugiados de Deir al-Balah, fora da zona de evacuação obrigatória, e os bombardeamentos não param. Como podemos acreditar que não haja alvos civis atingidos? O que acho é que nos querem simplesmente matar a todos”, continua Shahd, que fala de escassez muito acentuada de água potável. Israelitas não esquecem Elay Karavani também quer viver num mundo livre. Considera que é o Hamas que não deixa que isso aconteça. É um dos sobreviventes do Festival Supernova, escapou de balas, esteve nove horas imóvel debaixo de ramos de árvores enquanto ouvia pessoas a gritar e, quando foi salvo pelo exército, o caminho até um sítio seguro era um mar de corpos queimados nos carros, deixados na beira da estrada. Isto aconteceu a 7 de outubro, mas Elay, 23 anos, ainda tem amigos desaparecidos e continua a ir a funerais, conta ao Expresso por chamada de WhatsApp. “A dor daquele dia vai ficar para sempre e acho que todo o mundo viu, por fim, que o Hamas só nos quer matar, não quer conversar. Já poderia ter havido paz se o outro lado quisesse, há anos e anos. Israel merece paz, segurança, temos direito a existir”, diz, acrescentando que, na sua opinião, Israel está apenas a atacar alvos militares e as imagens divulgadas provam que não foi um míssil israelita que provocou o incêndio no hospital Al-Ahli. Com ou sem investigação, a raiva tomou conta das ruas das principais cidades do mundo árabe: houve enormes protestos em Teerão, capital do Irão, maior inimigo de Israel, mas também deflagraram desacatos nas mais laicas e pacíficas Beirute, Istambul e Amã. Na Cisjordânia, onde a confiança na Autoridade Palestiniana se foi dissolvendo ao longo de anos do que os palestinianos consideram ser inoperância dos políticos perante a ocupação israelita, dois palestinianos foram mortos por forças israelitas. Diplomacia sai ferida Biden marcara na agenda uma pequena cimeira com o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, o Presidente do Egito, Abdel Fattah El-Sisi e o rei Abdullah da Jordânia. Foi cancelada. Mesmo que não haja provas do que se passou, é difícil voltar atrás depois de tão veementes condenações. “A rua árabe controla o caminho destes conflitos, e é muito manipulável. Nos próximos dias não devemos esperar nenhum desenvolvimento nesta frente, mas voltará a haver espaço”, diz ao Expresso a investigadora Diana Soller, do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa. As prioridades dos Estados Unidos mantêm-se, frisa Bruno Cardoso Reis, coordenador do doutoramento em História e Defesa do ISCTE, em Lisboa, e da Academia Militar. “Os Estados Unidos tentam conter o conflito, evitar uma escalada descontrolada, a começar pelo sul do Líbano. A movimentação dos porta-aviões é forma de dizer ao Irão que Israel não vai combater sozinho, e de avisar o Hezbollah que também pode sair afetado.” “A Palestina é instrumentalizada e abandonada, porque nenhum líder árabe está empenhado na resolução da luta dos palestinianos, há muito tempo. Sempre que o Irão começa a sentir uma aproximação entre a Arábia Saudita e Israel, que seria grande entrave às pretensões de Teerão de dominar o Médio Oriente, lança os braços armados. Armar o Hamas e o Hezbollah [milícia libanesa que não reconhece Israel] tem enorme impacto na vida dos israelitas e palestinianos, como se viu”, explica Soller. Os regimes árabes da região não se caracterizam pelo zelo democrático, mas isso não significa que não tenham de ter em conta a opinião pública. “Sabemos que os regimes autocráticos não caem com eleições, mas podem cair com revoluções”, acrescenta Cardoso Reis. afranca@expresso.impresa.pt O confronto entre o Hamas e Israel não está contido. Para lá das linhas geográficas que há décadas geram tensões e vítimas, foram surgindo ao longo das últimas duas semanas outros atores com interesses na região. Um dos mais audíveis tem sido o Irão, num tom de ameaça que cresce paralelamente aos receios de ofensiva terrestre israelita na Faixa de Gaza. Numa altura em que Gaza enfrenta bombardeamentos em retaliação pelo ataque do Hamas e um cerco que limita o acesso de cerca de dois milhões de pessoas a água, comida e eletricidade, o Irão deixou um alerta a Israel: continuar com agressões contra os palestinianos levaria a uma escalada, e um ataque à Faixa de Gaza abriria “novas frentes de resistência” no Médio Oriente. “Se as agressões sionistas não pararem, as mãos de todas as partes na região estão no gatilho”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Hossein Amirabdollahian, citado pela agência Reuters. Apesar do endurecimento do discurso, Alex Vatanka, do Middle East Institute, acredita que Irão, Israel e os Estados Unidos não pretendem que a guerra se expanda. Teerão “não tem intenção de se juntar à guerra” e apela ao Ocidente para também não se envolver. “A agenda anti-israelita do Irão é um plano de longo prazo e destina-se a enfraquecer Israel militarmente, diplomaticamente e psicologicamente ao longo dos anos e talvez das próximas décadas”, respondeu por escrito ao Expresso. Mas nem todos os especialistas têm esta visão. Diplomacia mexe-se Tiago André Lopes, da Universidade Portucalense, frisa que os vários níveis políticos do Irão Governo, Presidente e Conselho Supremo estão envolvidos na questão. Destaca que houve chamadas telefónicas bilaterais com chefes de Estado, de França à China, e que o país tem adotado “um discurso muito assertivo”. “O Irão espera que a comunidade internacional atue rapidamente. Está disponível para aumentar a pressão diplomática sobre Israel”, afirmou ao Expresso. Aos telefonemas juntaram-se viagens do ministro dos Negócios Estrangeiros a países da região. “Há a perceção de que o Irão está disposto a escalar isto para um conflito regional. Um conflito regional tem a desvantagem de ser caro, mas tem uma vantagem para o Irão: se não se conseguir provar o seu envolvimento direto, trava uma guerra que não tem fronteira próxima”, comenta o docente. Acrescenta que uma expansão da guerra seria “útil” ao regime iraniano para focar a atenção num “inimigo” e pôr fim aos protestos internos que surgiram no ano passado, após a morte de Mahsa Amini numa esquadra da polícia. A jovem foi ontem agraciada com o prémio Sakharov do Parlamento Europeu. “Nesta fase não excluía que o Irão estivesse disposto a financiar ativa e demoradamente as milícias e fações palestinianas para irem a jogo”, lança Tiago Lopes. Se o regime iraniano poderia beneficiar do alargamento do conflito, a Turquia, que já tem à porta a guerra da Ucrânia, quer prevenir esse cenário. Segundo o jornal turco “Hurriyet Daily News”, o país insiste na solução dois Estados, aliada a um modelo de garantias dadas por países terceiros a cada uma das partes. Esses assumiriam “responsabilidade pela aplicação de um acordo a que os dois lados dessem consentimento”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros turco. Para Tiago Lopes, “a Turquia já percebeu que uma das formas de tentar resolver isto é devolver dignidade ao processo negocial”, com um método “sério para retirar vontade de ir para o combate”. Sem provas de envolvimento No seguimento das atrocidades cometidas pelo Hamas, o Irão foi dos primeiros atores regionais a serem escrutinados. Havia dúvidas sobre o seu papel no ataque, que surpreendeu os serviços secretos israelitas. O líder supremo do Irão negou o envolvimento do país no ataque, mas saudou o que considerou uma derrota militar “irreparável” de Israel. Tanto os Estados Unidos como Israel disseram que não há provas de que o Irão tenha sido o centro operacional do ataque executado pelo Hamas, apesar de ser conhecido o apoio iraniano ao grupo islamita. Tiago Lopes considera que os Estados Unidos procuraram ser “cautelosos” e considera “muito provável” que não tenha havido envolvimento de membros do exército iraniano no planeamento do ataque do Hamas. Já Vatanka observa que a negação de Teerão e do Hezbollah movimento terrorista ativo no Líbano de que tenham tido papel direto no ataque visa mantê-los fora do conflito e “preservar os 150 mil mísseis do Hezbollah como dissuasor de longo prazo”. Salomé Fernandes sfernandes@expresso.impresa.pt Fúria de rua árabe, mesmo sem a certeza sobre o que aconteceu em Al-Ahli, trava conversas políticas P8 OS REGIMES ÁRABES DA REGIÃO NÃO PRIMAM PELO ZELO DEMOCRÁTICO, MAS TÊM DE OUVIR A OPINIÃO PÚBLICA Irão agita perigo de escalada regional Teerão avisa que ataque a Gaza abriria “novas frentes de resistência” e move-se na esfera internacional para pressionar Israel MAIS PARA LER EM EXPRESSO.PT Hospitais de Gaza “deixaram de ser locais onde se salvam vidas para serem armazéns de pessoas” “Quero viver para ver os meus filhos crescerem. Quero ir às suas formaturas e não aos seus funerais” Diário de uma mãe sob cerco Biden em Israel: “Não podemos desistir de ser quem somos. Se o fizermos, os terroristas vencem” Guerra no ciberespaço tem cada vez mais meios e conflito Israel-Hamas não é exceção Criança palestiniana resgatada de um edifício em ruínas após ataque aéreo israelita ao campo de refugiados de Rafah FOTO SAID KHATIB/AFTP/GETTY IMAGES