PROJECT SYNDICATE - COMO DEVE A EUROPA RESPONDER A UM CHOQUE ENERGÉTICO?
2026-05-21 21:09:29

Desde que Israel e OS Estados Unidos iniciaram a guerra contra o Irão, em fevereiro, os preços globais da energia dispararam, com o crude aatingirquase 115 dólares por barril no início deste mês. Embora este choque tenha atingido os países debaixo rendimento com mais força, também exerce uma pressão significativa sobre a Europa, quie possui rendimentos elevados. Mas também representa uma oportunidade para a Europa revitalizar a sua transição verde e os governos europeuis não estão a conseguir tirar partido dela. Ao destacar os riscos associados à dependência do petróleo estrangeiro e ao tornar os combustíveis fósseis menos competitivos relativamente às energias renováveis, o atual choque de preços fortalece ainda mais os argumentos políticos e económicos a favor da transição verde. No ventanto, os governos temem as consequências políticas a curto prazo da indignação dos consumidores com o auimento dos preços da energia e, em vez de aproveitarem o momento para acelerar o progresso, estão a esforçar-se por manter os custos baixos junto dos consumidores, reduzindo os impostos sobre os combustíveis. Como observouo Fundo Monetário Internacional (FMI), esta abordagem tem falhas fiundamentais. Para começar, o aumento dos preços na Europa não foi assim tão extremo: como os impostos sobre os combustíveis representam até metade do que os europeus pagam normalmente na bomba, o aumento dos preços foi muito inferior à subida geral dos preços globais do crude. Por exemplo, na Alemanha, o preço da gasolina sem chumbo aumentou menos de 25% , de cerca de 1,80 euros por litro em janeiro para 2,20 euros em abril mesmo com os preços do crude a suibirem mais de 80%, de cerca de 60 dólares por barril para mais de 110 dólares por barril. Além disso, a redução dos impostos sobre os combustíveis diminui as receitas do Estado e é altamente regressiva. As famílias com rendimentos mais elevados conduzem mais, possuem carros maiores e têm pouico incentivo para poupar combustível, mesmo com preços ligeiramente mais elevados; este incentivo é ainda menor quando os preços são mantidos baixos. No entanto, estas famílias são mais propensas a votar e a expressar a sua firustração politicamente, e os custos na bomba de gasolina são imediatamente visíveis, enquanto outras consequências do aumento dos preços da energia, como as contas de aquecimento mais elevadas, chegam muito mais tarde, com o auimento distribuído ao longo do tempo. Assim, o Governo alemão procurou reduzir os preços para menos de 2 euros por litro = um limiar psicológico a partir do qual uma reação política negativa se tornaria mais provável. Outros países europeus já implementaram oui estão a considerar medidas semelhantes. Alguns governos europeus, como o de Espanha, procuram reduzir os impostos sobre a geração de eletricidade, o que é igualmente contraproducente, pois incentiva um maior consumo de energia. Como as energias renováveis ainda têm uma capacidade limitada, levará a ainda mais importações de combustíveis fósseis e emissões de gases com efeito de estufa, sem contribuir muito para conter a ainflação. Como é habitual, face à pressão política, os líderes europeuls estão a abandonar acoerência em prol da conveniência. Isto é ainda mais evidente no facto de os mesmos governos continuarem a subsidiar as energias renováveis e a adoção de veículos elétricos, sacrificando receitas para amortecer as forças de mercado que naturalmente tornariam estas tecnologias mais atrativas.A Alemanha atribuiu simultaneamente: 3 mil milhões de euros para subsídios a veículos elétricos este anoe 1,6 mil milhões de euros para reduções no imposto sobre os combustíveis, o que diminui diretamente o incentivo à compra de veículos elétricos. é certo que, mesmo sem as erradas reduções de impostos sobre os combustíveis, os subsídios a veículos elétricos não são uma forma eficiente de reduzir o consumo de combustível e as emissões. O mesmo se aplica a certos subsídios para as energias renováveis, como os painéis solares nos telhados. Ambos exigem grandes investimentos por unidade de emissões evitadas e ambos são regressivos, porque as famílias mais abastadas têm maior probabilidade de poder comprar veículos elétricos e de possuir casas quie suportem a instalação de painéis solares em telhados. Ossubsídios também comprometem a resiliência, ao enfraquecer as finanças públicas. Embora uma dívida pública elevada possa parecer sustentável em tempos de bonança, dificulta muito a resposta a choques. Como as crises auimentam a aversão ao risco, os cuIs-tos de refinanciamento sobem acentuadamente, obrigando os governos a restringir as despesas precisamente quando mais precisam delas. Uma estratégia melhor seria focar-se no reforço do Sistema Europeu de Comércio de Emissões (ETS, na sigla 1emi inglês), quie continua a iser o instrumento mais eficiente para limitar as emissões nocivas. Ao contrário dos subsídios regressivos e dispendiosos, o ETS não custa praticamente nada aos governos e gera receitas que podem ser utilizadas para compensar as famílias mais pobres pelos custos mais elevados dos combustíveis. Ouseja, o ETS pode acelerar a transição energética e torná- la mais equitativa, sem esgotar os cofres públicos. Maso O ETS foi diluído, tendoa Comissão Europeia cedido à pressão dos grupos de lóbi para manter mais licenças de emissão gratuitas disponíveis para a indústria. Além disso, o ETS2 uma versão alargada do ETS que abrange emissões de um leque muito maior de fontes, de edifícios a transportes rodoviários foiadiado. Agora, prevê-se quie entre em pleno funcionamento em 2028, em vez de no próximo ano. Até à data, a resposta dos governos europeus ao choque energético iraniano tem sido inadequada. Longe de subsidiarem o consumo de energia, seja através da redução dos impostos sobre os combustíveis oui de dotações orçamentais diretas, deveriam estar aimpulsionar um sistema que desencoraje as emissões, incentive a adoção de energias renováveis e gere receitas públicas. Embora esta abordagem possa significar preços dos combustíveis ligeiramente mais elevados hoje, deixariaa Europa menos exposta a choques nos preços dos combustíveis e mais bem preparada para responder a crises. Tradução: Leonor Mateus Ferreira e diretor do Instituto de Políticas Europeias da Universidade Bocconi Face à pressão política, os líderes europeus estão a abandonar a coerência em prol da conveniência. A resposta dos governos europeus ao choque energético iraniano tem sido inadequada. o Project Syndicate, 2026 www.project-syndicate.org DANIEL GROS