A APOSTA PERIGOSA DE ANA PAULA MARTINS
2026-05-21 21:09:29

Por mais justas que sejam, as novas regras para tarefeiros e urgências correm o risco de criar o caos nos hospitais Vemos os números dos médicos do SNS que trabalham como tarefeiros e, antes do susto, alegramo-nos com a boa notícia: há 1447 disponíveis para as urgências. Desde que lhes paguem o suficiente. E essa é a parte má. Porque as novas regras não resolvem grande coisa. Na melhor das hipóteses, fica tudo na mesma e, para que assim seja, não pode haver um único médico a afastar-se das urgências. O mais provável é correr mal. Por causa dos incentivos. Primeiro, os médicos do SNS. São hoje um terço dos tarefeiros e, com a nova legislação, só o poderão fazer depois do trabalho suplementar obrigatório e 480 horas extra. Avaliar o impacto desta decisão implica responder à pergunta: quantas horas de trabalho de urgência irão estes médicos passar a fazer? Qualquer compêndio de Economia assegurará que a oferta só pode descer com salários mais baixos. Trabalhar no privado ou simplesmente nada fazer são sempre alternativas. O preço do lazer é tanto mais baixo quanto menor for a remuneração. Segundo, os tarefeiros puros . Passarão a receber menos mas, acredita o Ministério da Saúde, terão incentivo para entrar no SNS. Para terem urgências obrigatórias, horas extra mínimas e impossibilidade de fazer tarefas antes de esgotadas centenas de horas extra? Não parece crível. Menor salário, menor oferta. No máximo, se formos otimistas, tudo se mantém igual: o número total de horas urgência não se altera entre os que permanecem como tarefeiros a receber menos e aqueles que sentem o chamamento do SNS. Finalmente, há um efeito mais complexo: o preço relativo do trabalho nas urgências entre médicos do SNS e tarefeiros. Hoje trabalhar como tarefeiro rende muito mais. É por isso que há tantos tarefeiros puros e médicos do SNS que preferem trabalhar à tarefa noutro hospital. As novas regras mudam o preço relativo mas o efeito não é tão linear como pode parecer. Só terá sucesso se levar os médicos do SNS a fazer mais horas além das obrigatórias. Um dos incentivos é poderem trabalhar à tarefa mais tarde. Se o preço da tarefa baixa, não é grande coisa. Sobra a majoração dentro do SNS que, só sendo extremamente generosa, pode sonhar funcionar. Esta é, sem dúvida, a aposta mais perigosa de Ana Paula Martins. Tem tudo para correr mal. É preciso que haja uma complexa conjugação de fatores para impedir que assim seja. Logo agora que pensávamos que as urgências já não podiam piorar. João Silvestre Editor Executivo João Silvestre