MITOS E FACTOS SOBRE A VACINAÇÃO NOS ADULTOS
2026-05-21 21:09:29

Voltando aos mitos, há um outro que se destaca quando se fala de vacinação, por ser usado como argumento para evitar as vacinas: o de que estas podem causar a doença que deveriam prevenir. Mais uma vez, é importante recorrer aos factos: as vacinas desenvolvidas contêm agentes patogénicos inativos ou atenuados, ou seja, incapazes de causar doença, estimulando apenas o sistema imunitário a preparar-se para uma exposição real Nestes tempos conturbados e incertos em que vivemos, importa realçar que a História da Humanidade é, acima de tudo, uma história de curiosidade, de adaptação, de descoberta, de progresso. Ao longo dos séculos, ainda que muito permaneça por fazer, a Ciência , e, em particular, a Medicina , tem-nos permitido dissipar um mundo dominado pelo acaso e pela vulnerabilidade do ser humano ao poder invisível e devastador de muitas doenças. Esse mundo existiu, de facto e, se hoje temos cada vez mais dificuldade em imaginá-lo e ter a perceção dos seus riscos, devemo-lo em grande parte àquela que os dados comprovam ser uma das mais poderosas e benéficas intervenções de saúde pública: a vacinação. As vacinas não só salvam milhões de vidas todos os anos, como permitem que filhos, pais e avós possam viver com mais energia, qualidade e segurança. É missão de todos reafirmar o património imprescindível que as vacinas representam hoje para a sociedade e, mais do que isso, é fundamental reconhecer que ele não é garantido e que protegê-lo e preservá-lo depende do compromisso de todos. Esse compromisso passa, desde logo, por combater a desinformação e por esclarecer mitos, equívocos e conceitos errados que continuam a persistir em torno das vacinas. Um dos mitos mais resistentes é o de que as vacinas são apenas para crianças. Nada mais errado. Também os adultos necessitam de vacinação, uma vez que o sistema imunitário tende a enfraquecer com a idade, aumentando o risco de doenças como a gripe, a pneumonia, a infeção pelo vírus sincicial respiratório (VSR) ou a reativação do vírus herpes-zóster. As vacinas existem precisamente para colmatar essa vulnerabilidade, ajudando a garantir proteção ao longo de toda a vida. E aqui é importante esclarecer outro equívoco, igualmente comum: a ideia de que a vacinação na infância é suficiente para garantir proteção ao longo de toda a vida. Na realidade, a imunidade adquirida pode diminuir com o tempo. Por um lado, algumas vacinas exigem doses de reforço na idade adulta; por outro, há vacinas inicialmente dirigidas às crianças que a evidência científica tem vindo a demonstrar serem igualmente relevantes e importantes para os adultos. A infeção por VSR é, aqui, um exemplo paradigmático. O estudo ROSA, o primeiro em Portugal a caracterizar a carga da doença associada a este vírus em adultos, concluiu que pode ser tão ou mais perigoso do que a gripe em alguns grupos de risco. Um estudo de impacto económico da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa (ENSP NOVA) vai mais longe, ao mostrar que a vacinação contra o VSR poderia evitar aproximadamente 153 mil casos de infeção respiratória aguda, cerca de 87 mil episódios de doença associada às vias respiratórias inferiores, 2.489 hospitalizações e 2.346 episódios de urgência nos adultos com 60 ou mais anos em Portugal. Uma aposta que, para além de contribuir substancialmente para reduzir carga de doença e aumentar qualidade de vida, representaria ao mesmo tempo uma poupança anual superior a 45 milhões de euros com custos diretos médicos no SNS. Voltando aos mitos, há um outro que se destaca quando se fala de vacinação, por ser usado como argumento para evitar as vacinas: o de que estas podem causar a doença que deveriam prevenir. Mais uma vez, é importante recorrer aos factos: as vacinas desenvolvidas contêm agentes patogénicos inativos ou atenuados, ou seja, incapazes de causar doença, estimulando apenas o sistema imunitário a preparar-se para uma exposição real. Há quem diga também que a imunidade natural é superior à imunidade conferida pela vacina. No entanto, não faltam dados que contrariam esta afirmação. No caso do VSR, como ilustram os dados do estudo ROSA, contrair a doença pode traduzir-se em complicações graves, hospitalizações e potenciais sequelas a longo prazo que temos o imperativo moral e ético de evitar. Um outro equívoco frequente é o de que as vacinas deixaram de ser necessárias porque muitas das doenças que previnem já não são comuns. Na realidade, o desaparecimento ou a redução significativa dessas doenças é, precisamente, uma consequência do sucesso dos programas de vacinação. Sempre que a cobertura vacinal diminui, essas doenças tendem a regressar, como tem sido observado em surtos de sarampo em vários países. A vacinação continua, por isso, a ser essencial não só para proteger cada indivíduo, mas também para evitar o reaparecimento de doenças que julgávamos controladas. Há ainda quem desconfie dos ingredientes das vacinas, receando que nelas estejam contidas substâncias nocivas. É importante recordar que, pela sua natureza, a indústria dos medicamentos e vacinas é das mais reguladas do mundo, a par com a da aviação. Assim, todas as vacinas são investigadas, desenvolvidas e produzidas numa base altamente exigente de protocolos de segurança para garantir que todas, sem exceção, sejam elas indicadas para crianças ou adultos, garantem rigorosos padrões de qualidade, eficácia e segurança. A ciência é clara e é robusta. Por fim, há que deitar por terra outro mito: o de que os adultos saudáveis não precisam de vacinas. A verdade é que até quem goza de boa saúde pode ficar gravemente doente com gripe ou infeção por VSR. De qualquer forma, mais do que um reflexo de proteção individual, é fundamental compreender que a vacinação é também um ato de proteção coletiva e, sobretudo, dos mais vulneráveis, como os idosos e os doentes crónicos. Uma decisão simples com um impacto que vai muito além de cada um de nós. Patrícia Oliveira Médica de Medicina Geral e Familiar Patrícia Oliveira