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PORQUE É QUE A ESQUERDA DEIXOU DE FALAR DE DESIGUALDADES?

Expresso Online

2026-05-21 21:09:29

De tão repetido, quase parece verdade, embora a esquerda, orgânica ou inorgânica, não fale de outra coisa A pergunta não é minha. Sempre que me deparo com ela, chego a ficar inquieta. Ouço dizer várias vezes que a esquerda deixou de falar de desigualdades, já não quer saber de quem trabalha. Depois, pergunta-se porquê, e a seguir vem a indignação: mas não percebem que sem isso não vão lá? De tão repetido, quase parece verdade, embora a esquerda, orgânica ou inorgânica, não fale de outra coisa. No caso da segunda, até peca por fazê-lo de forma maniqueísta, sempre agarrada à ideia do opressor e do oprimido, das más e das boas intenções. Seja como for, a lente pela qual a esquerda analisa a vida é mesmo essa: identificar a clivagem, querer tapá-la. Às vezes, diga-se de passagem, até o faz de forma estereotipada. Uma pesquisa rápida nas redes sociais: o Livre fala do reforço das urgências obstétricas, de medidas de apoio a pessoas com deficiência, da conciliação entre vida laboral e familiar; o Bloco fala do impacto da guerra no Médio Oriente na factura do supermercado, da crise na habitação, da subida do preço do combustível; o PCP fala sobre os povos que pagam a guerra feita por Trump, o acesso às consultas nos centros de saúde do SNS e os 1% que concentram um quarto de toda a riqueza do mundo. Se isto não é falar de desigualdades, é falar de quê? Quem tem milhões no bolso, os tais 1%, não tem preocupações destas. Esta ideia não me parece vir dos ingénuos. Vimo-lo durante anos. Sempre que a esquerda dizia os gays, os conservadores perguntavam pelos pobres. Sempre que a esquerda falava de violência doméstica, a direita reaccionária perguntava se não queria saber do mercado de trabalho. Sempre que a esquerda falava de IVG ou morte assistida, o CDS tinha um piripaque e dava a entender que se estava a falar do acessório em detrimento do essencial. E nisto parte da direita conseguiu que parte da sociedade julgasse que a política é isso mesmo: uma divisão entre o importante e o menos importante. Mas a política não pode ser um campo simples, um resumo para se ler em dez minutos. O surgimento do Bloco fez com que chegassem ao parlamento e à ordem do dia assuntos que pareciam até então ser tratados em vãos de escadas. Contou, é certo, com o apoio em larga escala do PS em matérias importantes. Sem números que permitissem uma mudança por vontade própria, o Bloco , enquanto o PCP pouco saía das questões estritamente económicas, laborais , nunca pôde impor sozinho uma agenda, mas empurrou debates e alargou o espaço do possível. Isto vai desde a IVG ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e adopção, ou à legalização da canábis medicinal, ao acesso à procriação medicamente assistida e à referida eutanásia. Além disso, sem os partidos de esquerda, não teríamos tido o fim das taxas moderadoras em muitos cuidados do SNS, o aumento progressivo do salário mínimo, o decréscimo progressivo do passe social, reforços de apoios durante a pandemia, medidas de protecção de arrendatários, e o estatuto do cuidador informal nem para quimera serviria. Não haveria sequer debate sobre falsos recibos verdes ou gratuitidade de creches. Há uns anos, andava tudo muito chocado porque a esquerda parlamentar perdia tempo com gays e casamentos e etc. quando devia, dizia-se, estar a falar de salários , assunto que, acrescente-se, nunca lhe saiu da boca. Mas não era esse discurso também um sintoma da desigualdade, uma necessidade de corrigi-lo? Há valores de que não se pode abdicar, e entretanto o ecossistema político sofreu alterações, e assuntos trazidos a debate pela esquerda são hoje parte da agenda de parte da direita, como PSD ou IL. É inegável que a esquerda tem decrescido eleitoralmente, e a própria esquerda inorgânica anda perdida em chavões, em problemas retóricos, e muitas vezes a ver a vida através de uma lupa, o que a impede de ver o que há à volta. Mas era o que faltava que alguém abdicasse de agendas para simplificar a vida ao eleitorado, ou que abandonasse gente, ou que quisesse ser pela metade. A esquerda continua, sim, a falar de desigualdades , económicas, de sexo, raciais, de direitos fundamentais. E mais uma vez entramos no debate contemporâneo das percepções. Nunca a percepção esteve tão na ordem do dia e, apesar das listas de argumentos, parte do eleitorado sente que o discurso sobre desigualdades perdeu centralidade, havendo um desfasamento evidente entre discurso e recepção. Se é verdade que há uma repetição da extrema-direita, que tenta cooptar um eleitorado através de um discurso simplista e redutor, não deixa de o ser que a esquerda tenha responsabilidade na forma como se foi deixando encarar no espaço público. Ao optar pela priorização mediática de certos temas, afastou-se da vida concreta da maioria das pessoas, e dedicou tempo a assuntos a que não associava uma reivindicação. Ao dar um espaço exacerbado a debates sobre linguagem neutra, identificações de género ou polémicas culturais, privilegiando o simbólico sobre o material, ocupou o espaço mediático de uma forma que agradou ao algoritmo, campo em que a extrema-direita vinga por se alimentar do chavão e da rapidez. Ao mesmo tempo, o excesso de jargão criou uma sensação de desconexão em potenciais eleitores. Em muitos discursos, o eleitorado quase precisou de ter o Priberam ao lado: interseccionalidade, heteronormatividade, corpos racializados, lugar de fala, desconstrução, cisgénero, não-binário. Tudo termos que não existem na linguagem comum, que precisam de contextualização académica, e atirados para o campo público sem uma mediação pedagógica que desse sequer ao eleitorado ferramentas para os entender, assim como a outros de outra ordem, como plataformização do trabalho ou financeirização da economia. Muitos discursos foram, por isso, talhados para círculos académicos ou para quem já estava convencido. Além disso, o PCP insistiu numa retórica que já pouco disse a quem o ouviu: tratando a generalidade da população como proletária, não entendo que fala agora para uma minoria. Para piorar, a fragmentação discursiva causou um certo caos: no mesmo ciclo mediático, podia falar-se de habitação, racismo estrutural, crise climática e direitos laborais. Tudo legítimo, claro, mas peca pela ausência de uma narrativa agregadora clara, e isto num momento histórico em que a informação, em vez de lida, parece voar em frente aos olhos, em que a calma da leitura é encarada como um travão ou um atraso. Tudo isto para voltarmos a um tema que tem estado tão central: percepção e realidade são coisas diferentes, o que não significa que a primeira seja de somenos. Tem de ser levada em conta quando se vai a público. De resto, convém prestar atenção às armadilhas dos discursos, às maroscas que existem nas perguntas. No título desta crónica, por exemplo. E convém não esquecer que repetir uma mentira não faz com que os filhos dos operários tenham ido parar à universidade por acaso. Ana Bárbara Pedrosa Escritora Ana Bárbara Pedrosa