pressmedia logo

AINDA PODEMOS RIR?

7Margens Online

2026-05-21 21:09:26

https://setemargens.com/wp-content/uploads/speaker/post-108699.mp3?cb=1779379353.mp3 Ainda podemos rir? Perante as guerras do mundo, as tragédias da fome, o desespero de quem foge da miséria e dos conflitos, vale a pena ainda o riso? N O Idiota, Dostoievski dizia-nos, através do príncipe Myshkin, que só a beleza salvará o mundo. Podemos acrescentar que o riso tem igualmente essa capacidade: ele é uma qualidade humana, com a capacidade de desconstruir preconceitos, relativizar falsas seguranças e aproximar pessoas. Perante as tragédias e as tormentas que nos assolam, só mesmo o riso. Há dias, por exemplo, chegou-me um cartoon que mostrava os presidentes da China e dos EUA a visitar a muralha da China e com o último a perguntar: “Então vocês também têm problemas com os mexicanos?” Nada mais simples e eficaz para mostrar a ignorância e o narcisismo de alguém que considera que tudo pode e tudo gira à sua volta. E que todos nós nos refugiamos tantas vezes em preconceitos e falsos argumentos. Uma visita à exposição Cartoon Xira (patente em Vila Franca até 31 de Maio) pode ser pretexto também para uma reflexão sobre o tema. Ali podemos ver o mesmo presidente a abastecer um automóvel com um isqueiro aceso junto da mangueira do combustível (desenho de André Carrilho); ou duas idosas sentadas a conversar: “, Berta, há algum país no mundo que confie nos Estados Unidos da América de Trump? , As Berlengas são um país, Benta?” (cartoon de Maia). A exposição Cartoon Xira permite uma curta-longa viagem pelo mundo e pelas situações que nos atormentam mas que, com humor, também nos descomprimem. Além de outras patologias do narcisismo erigido em poder nos Estados Unidos, viajamos pelas fragilidades dos nossos líderes europeus, por vezes hesitantes, outras subservientes (Mark Rutte a engraxar os sapatos a Trump, Maia); ou ainda pelo pesadelo de imaginar uma “Riviera em Gaza” (o primeiro-ministro israelita de espada em punho, para dar a estocada final na pomba da paz; ou um palestiniano a ser alimentado à força com mísseis e obuses; e o mesmo Netanyahu de braço dado com Hitler, com o título “Gémeos”, todos de Cristina Sampaio; e uma criança de Gaza estropiada num museu, a par das estátuas clássicas sem braços nem pernas , André Carrilho). Reproduc¸a~o do cartoon Trump contra transic¸a~o verde, de André Carrilho, na exposic¸a~o Cartoon Xira 2026. Foto © António Marujo/7MARGENS O Brasil e Portugal são outras etapas desta viagem, com críticas aos sistemas político, judicial e de ensino, à incapacidade de enfrentar os incêndios florestais, à (não) resposta ao apagão ou aos problemas do Serviço Nacional de Saúde, aos candidatos-caricatos das presidenciais, a uma governação de “muletas” e a uma extrema-direita que se aproveita do “sistema” mais do que ninguém, mas que está sempre a criticá-lo; ou ainda um Papa Francisco a puxar as orelhas ao primeiro-ministro português por este ter querido esconder os festejos do 25 de Abril. E a viagem completa-se com o “estado da arte” em que se encontra o mundo: Xi Jinping a “tricotar o planeta” (António) e os bilionários a engolir o mundo inteiro, a dar tacadas de golfe em pessoas em vez de bolas e a açambarcar todas as casas (três cartoons de Carrilho). O humor inclui riscos? Sim, como qualquer actividade humana. Desde logo, por exemplo, o de haver quem se sinta ofendido, como tragicamente se viu com episódios como os assassinatos na redacção do Charlie Hebdo, em Paris, em 2015; o de acharmos que é tudo ou são “todos iguais” , na política, nas organizações, nas religiões ; o de considerarmos um deslize ou um erro de alguém como a normalidade das lideranças; ou o levar-nos a reduzir decisões ou (faltas de) estratégias a um problema de “loucura”. Numa intervenção em Lisboa, uma semana depois dos atentados de Paris em 2015, o ex-juiz do Tribunal Constitucional, Gonçalo Almeida Ribeiro, admitia que “nem a liberdade de expressão, pese embora a sua especial dignidade, é um valor absoluto”. E referia cinco tipos de “excepção legítima ao regime normal da expressão protegida”: a “afirmação de factos falsos ou inventados”, a “utilização da linguagem para injuriar ( ) com a finalidade exclusiva de ofender”, a “utilização da linguagem para causar efeitos na ordem material, como a afirmação falsa de que há um incêndio numa sala cheia para provocar o pânico ou o incitamento à violência”, a expressão de “factos ou opiniões” numa relação de autoridade (professor/aluno, patrão/empregado) “com o intuito de explorar ( ) a posição de subordinação” e, finalmente, “a devassa de aspectos da vida pessoal” sem “a menor relevância pública”. Puxa~o de orelhas; cartoon de Cristina Sampaio na exposic¸a~o Cartoon Xira 2026. Foto © António Marujo/7MARGENS As sociedades europeias têm admitido mais o humor com determinados “alvos” no campo da política, religião, moral ou costumes , do que outros: uma piada racista ou xenófoba é menos tolerada, como o foi, logo depois do massacre no Charlie Hebdo, a mensagem do humorista francês Dieudonné M bala M bala que dizia Je me sens Charlie Coulibaly (“Sinto-me Charlie Coulibaly”), fazendo um trocadilho com a frase de solidariedade com o jornal e o apelido de um dos terroristas, Amedy Coulibaly, que invadiu depois um supermercado judaico e matou mais quatro pessoas , M bala acabou condenado por apologia do terrorismo. Sabemos também que o ordenamento jurídico de vários países democráticos (incluindo Portugal) penaliza o “ultraje” aos símbolos nacionais , hino, bandeira, por vezes o Presidente Na intervenção citada, Gonçalo Almeida Ribeiro falava da liberdade de expressão como “rainha das liberdades”. Devemos acrescentar a liberdade de expressão e a liberdade religiosa , até porque todas elas se fundam na e se confundem com a liberdade de consciência. E quando alguma destas liberdades é desrespeitada, estamos claramente perante situações (ou Estados) que não respeitam os direitos humanos , não apenas esse, como vários outros. Claustrofobia. Ilustrac¸a~o © Leonor Wemans no livro A Igreja Que Ri O humor deve, então, ter limites? E quando se coloca a questão religiosa, que toca precisamente esse âmago da consciência individual e/ou colectiva? Não. O humor, o riso, colocam-nos perante os nossos limites, tantas vezes risíveis. E, por isso, perante as imperfeições humanas. Numa crónica já com muitos anos (2 de Fevereiro de 1997), publicada no livro O Bom Humor de Deus e Outras Histórias (edição Temas e Debates), frei Bento Domingues escrevia que “quando o presente é seco e não há futuro, só o riso é fecundo”. E citava a afirmação de Sara, no episódio bíblico em que Deus anuncia a Abraão que ambos, aos 100 e 90 anos, iriam ser pais: “Deus fez-me rir e quantos souberem do motivo do meu riso rirão também” (Génesis, 17, 17). E logo a seguir é o próprio Deus que se mete com Sara: “Sara negou, dizendo: Não me ri. Mas [Deus] disse-lhe: Não! Tu riste-te mesmo. ” (18, 12-14). No texto, frei Bento recordava ainda: “As religiões tornam-se sisudas quando adoecem. O islão já foi menos uniforme. No sufismo islâmico, a troça ainda é um caminho de sabedoria mística ( ). Sem humor, o judaísmo não teria resistido tanto. O espírito do Talmude é o espírito do paradoxo, bem presente nesta outra tirada de Woody Allen: Deus não existe, mas nós somos o seu povo escolhido .” Gémeos. Cartoon de Cristina Sampaio na Cartoon Xira 2026. Foto © António Marujo/7MARGENS E Jesus? No texto com que apresentou o livro A Igreja Que Ri, Jorge Wemans afirmou: “Jesus ria e teria feito rir. Claro que sim! No seu tempo foi acusado de ser um beberrão e um comilão [Mateus 11;19]. Não terá sido por ser triste e nunca rir!” A quantidade de banquetes, casamentos, almoços e jantares em que participou, as tantas parábolas que contou ou a imagem preferida para falar do “Reino dos Céus” , o banquete ,, mostram que “Jesus gostava de vinho, adorava estar à mesa, devia ser uma companhia muito alegre e ter bastante humor.” [ver 7MARGENS] Não só Jesus: toda a Bíblia está cheia de referências ao humor. Na exortação apostólica Gaudete et exsultate (“Alegrai-vos e exultai”), de 2018 , dedicada a um tema aparentemente “sisudo” e “sério” como a “chamada à santidade no mundo actual” ,,o Papa Francisco dedicou um dos capítulos à “alegria e sentido de humor” e registou pelo menos mais de duas dezenas de referências à importância de “deitar fora do coração a tristeza” (Qohelet 11, 10) e viver uma alegria que seja “completa” (João 15, 11). E em Junho de 2024, Francisco perguntou e respondeu: “Também se pode rir de Deus? Claro que sim, e não se trata de blasfémia, pode-se rir, tal como se joga e se brinca com as pessoas que amamos.” É precisamente o humor, a jovialidade, a graça, que ressaltam do “retrato” do Papa Francisco desenhado por Maria Picassó. As caricaturas da artista catalã ocupam uma secção da Cartoon Xira. O desenho do Papa Francisco destaca o seu gesto de contentamento quando erguia o polegar , e tantas vezes fazia humor. Reproduc¸a~o da caricatura do Papa Francisco, de Maria Picasso, nas paredes da exposic¸a~o Cartoon Xira 2026. Foto © António Marujo/7MARGENS O riso é fecundo: as respostas absolutamente desarmantes do Papa Leão aos comentários do presidente dos EUA mostram essa capacidade de apontar ao essencial, com isso desmontando o irracional do poder absoluto com pés de barro, cuja autoridade não é reconhecida pelos demais. O riso e o humor têm a capacidade “de manter mentalmente saudável quem enfrenta o mal do mundo dos outros, quem, por dever e missão, se torna, mesmo sem o querer, testemunha e por vezes depositário do que de mais sórdido, doloroso, selvagem e terrível habita o coração e os gestos dos homens”, dizia ainda Jorge Wemans no texto citado. Por isso faz sentido recordar a oração que Francisco rezava diariamente , a de Tomás Moro, um santo que, em 1535, perdeu literalmente a cabeça , a pedir o bom humor: “( ) Dai-me uma alma que não fique refém do tédio nem de resmungos, impaciências ou lamentações ” No livro O Louco de Deus no Fim do Mundo, Javier Cercas conta o seu diálogo com Lucio Brunelli, vaticanista reformado, um dos amigos de Francisco em Roma, que lhe reproduz uma frase do anterior Papa: “O sentido de humor é a expressão humana que mais se parece com a graça divina.” E Cercas acrescenta que em espanhol, como em português, “uma pessoa com sentido de humor é uma pessoa com graça”. [ver 7MARGENS] Podemos mesmo rir. Mais do que isso: façamos graça. Painel de entrada da exposic¸a~o Cartoon Xira 2026. Foto © António Marujo/7MARGENS A exposição Cartoon Xira pode ser vista de terça a domingo, das 15h às 19h, até dia 31 de Maio, no Celeiro da Patriarcal, em Vila Franca de Xira. Inclui as exposições Cartoons do Ano 2025 , António, Carrilho, Cristina, Fazenda, Ferreira, Gargalo, Maia, Monteiro, Rodrigo, Saraiva e Silva , e Maria Picassó , Caricaturas. Há dois catálogos disponíveis à venda no local (edição Documenta). No dia 31, às 15h30, haverá um debate com António Antunes, André Carrilho, Cristina Sampaio, Rui Cardoso Martins e Joaquim Vieira (que escreve os textos do catálogo).   [Additional Text]: Reproduc¸a~o do cartoon Trump contra transic¸a~o verde, de Andre Carrilho, na exposic¸a~o Cartoon Xira 2026 Puxa~o de orelhas; cartoon de Cristina Sampaio na exposic¸a~o Cartoon Xira 2026. Claustrofobia. Ilustrac¸a~o © Leonor Wemans no livro A Igreja Que Ri Gemeos. Cartoon de © Cristina Sampaio na Cartoon Xira 2026 Reproduc¸a~o da caricatura do Papa Francisco, de Maria Picasso, nas paredes da exposic¸a~o Cartoon Xira 2026 Painel de entrada da exposic¸a~o Cartoon Xira 2026 António Marujo