CARLOS CORTES: ACESSO À SAÚDE NÃO PODE DEPENDER DO CÓDIGO POSTAL
2026-05-21 21:09:26

A falta de médicos, o envelhecimento da população e as dificuldades de acesso aos cuidados de saúde colocam o Alentejo no centro das fragilidades do Serviço Nacional de Saúde. Em entrevista à Alentejo Ilustrado, o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, traça um retrato exigente da região, onde o sistema pede demasiado aos seus profissionais e onde a resposta continua dependente de soluções precárias Defendendo políticas diferenciadas para o interior, Carlos Cortes alerta para um problema estrutural que exige decisão, continuidade e execução , sublinhando que a resposta à saúde no Alentejo é também uma questão de coesão territorial e de responsabilidade do Estado. Tem afirmado que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) atravessa uma crise profunda. Considera que está hoje pior do que há 10 anos? Em aspetos essenciais, sim. E digo-o sem gosto nenhum, porque ninguém que acredite no SNS pode sentir satisfação em reconhecer este retrocesso. Hoje vemos urgências a encerrar com uma frequência que há 10 anos pareceria inaceitável, vemos tempos de espera excessivos em várias especialidades e continuamos com demasiados utentes sem médico de família. Quando o acesso falha, falha também a confiança. E quando a confiança se perde, o sistema começa a deixar de ser sentido pelas pessoas como uma garantia segura. Há 10 anos já existiam problemas, evidentemente, mas não havia esta sensação tão forte de imprevisibilidade, de desgaste crónico, de funcionamento no limite. O paradoxo é este: temos médicos e outros profissionais altamente qualificados, temos mais conhecimento, mais tecnologia e mais capacidade científica, mas o sistema, em muitas zonas do país, responde pior ao cidadão comum. Isso deveria inquietar seriamente qualquer decisor político. A crise do SNS não nasceu de um dia para o outro. É o resultado acumulado de anos de descontinuidade, de falta de planeamento, de reformas avulsas e de desvalorização dos profissionais. E quem paga a fatura, no fim, é sempre o doente. O risco de colapso dos serviços hospitalares é real ou trata-se de uma perceção amplificada pelo debate público? O risco é real, embora muitas vezes seja adiado pelo esforço extraordinário dos médicos e de todos os profissionais. O que tem evitado situações ainda mais graves não é um sistema robusto e bem planeado. É a dedicação diária de todos os profissionais de saúde, que continuam a fazer muito mais do que seria exigível para não deixar os doentes sem resposta. Quando um hospital do interior encerra urgências, quando as escalas são montadas à última hora, quando faltam equipas completas e quando um doente é obrigado a percorrer dezenas de quilómetros para ter uma observação médica, não estamos a falar de retórica nem de exagero mediático. Estamos a falar de sinais concretos de exaustão do sistema. O verdadeiro erro seria normalizar esta situação e achar que, porque ainda não caiu tudo, então está tudo sob controlo. Não está. Um sistema que vive permanentemente à custa do heroísmo dos seus profissionais é um sistema vulnerável. E a pergunta séria já não é se há risco de rutura. A pergunta séria é durante quanto tempo mais podemos continuar assim sem comprometer a qualidade e a segurança dos cuidados prestados. O sistema está a perder profissionais por incapacidade de os valorizar? Sem dúvida. E convém desfazer um equívoco que por vezes é alimentado de forma injusta. Os médicos não abandonam o SNS por falta de vocação, nem por menor compromisso com os doentes. Abandonam-no quando deixam de encontrar condições mínimas para exercer medicina com qualidade, segurança, autonomia e dignidade. Ninguém aguenta indefinidamente trabalhar exausto, sem perspetiva de carreira, com excesso de carga assistencial, pressão burocrática crescente e sem condições organizativas estáveis. O que se agrava no interior do país! No interior, esta realidade torna-se ainda mais pesada porque se junta a outros fatores muito concretos. A dificuldade em constituir equipas estáveis, o isolamento profissional, a menor previsibilidade organizativa e, em muitos casos, a dificuldade de conciliar a vida pessoal e familiar pesam muito. Fixar um médico não é apenas preencher um horário. É criar um projeto de vida possível. É garantir condições de trabalho, remuneração justa, progressão, formação contínua, possibilidade de investigação e apoio à família. A Ordem dos Médicos apresentou propostas concretas e sérias para aumentar a atratividade do SNS, incluindo medidas dirigidas às zonas carenciadas. O que falta não é diagnóstico. O que falta é decisão, continuidade e execução. E isso já não pode ser adiado, porque cada profissional que o SNS perde representa menos capacidade de resposta e mais fragilidade para os doentes. O acesso à saúde continua a ser muito desigual entre litoral e interior. O SNS falha na garantia de equidade territorial? Em demasiados territórios, falhou. E essa é uma das feridas mais sérias do nosso sistema. O acesso à saúde não pode depender do código postal, mas a verdade é que, para muitas pessoas, viver no interior significa ter menos médicos, menos especialidades, mais deslocações, mais demora e mais incerteza. Isto não é apenas um problema de organização. É um problema de coesão territorial, de justiça social e de ética do Estado. Não é aceitável que, num país com os recursos humanos e o conhecimento que Portugal tem, continuemos a tolerar desigualdades tão marcadas no acesso a cuidados essenciais. Uma grávida, um doente oncológico, um idoso frágil ou uma criança não podem valer menos por viverem mais longe do litoral. Um país decente mede-se também pela forma como cuida de quem está fora dos grandes centros urbanos. O mais grave é que esta desigualdade não é inevitável. Corrige-se com política séria, com discriminação positiva para os territórios mais vulneráveis, com incentivos robustos, com planeamento de longo prazo e com autonomia local para adaptar respostas à realidade concreta de cada região. O interior não precisa de discursos piedosos. Precisa de decisões consequentes. O Alentejo é uma das regiões com maior escassez de médicos. A situação é hoje estrutural ou ainda reversível? É uma situação estrutural, mas isso não significa que seja irreversível. E essa distinção é muito importante. O Alentejo tem características próprias que tornam a resposta mais exigente. Baixa densidade populacional, envelhecimento acentuado, longas distâncias, menor massa crítica em algumas áreas e dificuldades históricas de fixação de profissionais. Ignorar esta realidade é um erro. Mas aceitar esta realidade como uma condenação definitiva seria um erro ainda maior. O Alentejo não precisa de pena. Precisa de estratégia. Precisa de políticas diferenciadas, pensadas para o território real e não desenhadas a partir de gabinetes em Lisboa. Com incentivos credíveis, carreiras atrativas, boas condições de vida e de trabalho, projetos clínicos sólidos, habitação, apoio à família e liderança local competente, é perfeitamente possível inverter a tendência. O que não tem existido. O que não funciona é insistir na mesma receita e esperar um resultado diferente. Durante anos tratou-se o interior como se bastasse abrir concursos para que os profissionais aparecessem. Não basta. É preciso criar condições para que queiram ficar. E ficar com vontade, com motivação e com perspetiva de futuro. Esse é o verdadeiro teste de uma política de saúde séria. O Alentejo também já tem por si fatores de atratividade que não podemos esquecer: um deles é ter uma boa qualidade de vida. Muitos concursos para médicos no interior ficam desertos. O que é que falha? O Estado continua, em larga medida, a oferecer soluções uniformes para realidades profundamente diferentes. E esse é o centro do problema. Não se pode tratar um concurso para o interior com a mesma lógica usada para Lisboa ou Porto. São contextos distintos, desafios distintos e necessidades distintas. Quem insiste numa abordagem indiferenciada está, no fundo, a escolher que o problema continue. O que falta não é apenas salário, embora a valorização remuneratória também conte. Falta estabilidade contratual, previsibilidade organizativa, equipas estruturadas, horários humanamente sustentáveis, condições de trabalho dignas, acesso a formação, possibilidade de progressão, apoio à habitação e respostas para a vida familiar. Um médico não decide apenas onde trabalha. Decide também onde vive, onde educa os filhos, onde constrói a sua vida. Há uma ideia errada, por vezes repetida com ligeireza, de que os médicos recusam o interior. Não recusam? Não recusam. O que recusam são contextos onde sabem, à partida, que vão trabalhar sem meios, sem equipa, sem reconhecimento e em permanente gestão de crise. Nenhum profissional responsável quer estar num local onde sente que não consegue dar ao doente os cuidados que ele merece. A atratividade começa aí, no respeito pela prática clínica e pela segurança clínica das pessoas. Hospitais como os de Beja ou Portalegre enfrentam dificuldades recorrentes para assegurar equipas completas em algumas especialidades. O SNS está a conseguir garantir serviços hospitalares seguros nestas regiões? Os médicos fazem tudo o que está ao seu alcance para garantir segurança e resposta clínica. Disso não tenho a menor dúvida. Seria profundamente injusto apontar o dedo a quem, diariamente, mantém estes serviços a funcionar em contextos de grande dificuldade. Mas seria igualmente irresponsável dizer que o sistema está confortável ou que a situação é sustentável a longo prazo. Quando faltam especialistas, quando as equipas estão incompletas, quando as escalas são preenchidas à última hora e quando os profissionais trabalham no limite do cansaço, o risco aumenta. A segurança do doente não se protege apenas com boa vontade, com sentido de missão ou com espírito de sacrifício. Protege-se com organização, com planeamento, com dotação adequada e com liderança clínica estável. O que muitas vezes não sucede? O que hoje acontece em várias unidades do interior é que o sistema pede demasiado aos seus profissionais e dá-lhes de menos em retorno. Eles continuam a responder, porque têm ética, porque têm consciência e porque sabem que há pessoas reais do outro lado. Mas um país sério não pode continuar a basear a segurança do seu sistema de saúde nessa espécie de milagre quotidiano. Isso não é governar. Isso é adiar problemas à custa do desgaste humano dos que lá estão. A falta de médicos de família continua a afetar milhares de utentes. Porque é que este problema persiste há tantos anos? Porque, durante demasiado tempo, os cuidados de saúde primários foram tratados como uma prioridade retórica, mas não como uma prioridade real. Faltou planeamento geracional, faltou valorização da carreira, faltou investimento consistente nas equipas e acumulou-se uma carga burocrática absurda que rouba tempo clínico, desgasta os profissionais e afasta muitos jovens médicos de um trabalho que deveria ser dos mais valorizados do sistema. Entretanto, muitos médicos aposentaram-se, outros saíram, e o sistema não foi capaz de assegurar substituição suficiente nem de tornar a especialidade mais atrativa em todo o território. O problema foi sendo empurrado para a frente, como se pudesse ser resolvido mais tarde sem grande custo. E o resultado? Hoje vemos o resultado dessa falta de visão. Há demasiados cidadãos sem acompanhamento regular, sem prevenção adequada, sem seguimento próximo e sem uma porta de entrada estável no sistema. E, quando falha o médico de família, todo o edifício do SNS ressente-se. Aumenta a pressão sobre as urgências, agravam-se doenças crónicas, atrasam-se diagnósticos e cresce a sensação de abandono. Um país que não protege bem os cuidados de saúde primários está a construir um sistema mais caro, mais tardio e menos humano. E isso, do ponto de vista da saúde pública, é um erro estratégico. No Alentejo, onde a população é mais envelhecida e dispersa, a ausência de médico de família tem consequências ainda mais graves? Sem qualquer dúvida. Num território como o Alentejo, a ausência de médico de família não é apenas um problema de organização administrativa. É um problema profundamente humano, social e clínico. Estamos a falar de populações mais envelhecidas, com maior prevalência de doença crónica, muitas vezes com mobilidade reduzida e com dificuldades acrescidas no acesso físico aos serviços. Nestes contextos, os cuidados de proximidade fazem toda a diferença. Sem médico de família perde-se prevenção, perde-se vigilância regular, perde-se acompanhamento da medicação, perde-se deteção precoce de agravamentos e perde-se aquela relação de confiança que tantas vezes evita uma ida desnecessária à urgência ou uma descompensação grave. Quando esta peça falha, o sistema deixa de acompanhar e passa apenas a reagir. E reagir tarde é quase sempre mais caro, mais doloroso e menos eficaz. No Alentejo, este problema sente-se com especial dureza porque o território não perdoa a ausência de proximidade. Uma consulta adiada ou um seguimento que não existe não são pequenos incómodos. Podem significar mais sofrimento, mais deslocações penosas, mais isolamento e menos proteção para pessoas já frágeis. Por isso, aqui, a falta de médico de família tem uma gravidade acrescida e exige uma resposta política prioritária. Ou seja, o sistema de saúde não está preparado para responder a esta realidade demográfica? Não está preparado na medida do desafio. E basta olhar com honestidade para o que já está a acontecer. As dificuldades da rede de cuidados continuados, os chamados internamentos sociais, a insuficiente resposta domiciliária, a sobrecarga das famílias e a escassa articulação entre saúde e setor social mostram bem que o país envelheceu mais depressa do que o sistema se reorganizou. Envelhecer não pode significar andar a circular entre casa, urgência, enfermaria e nova alta, sem um plano integrado e sem continuidade de cuidados. Isso é mau para a pessoa, é desgastante para as famílias e é profundamente ineficiente para o sistema. Uma população mais envelhecida exige mais acompanhamento, mais coordenação, mais reabilitação, mais cuidados continuados, mais apoio domiciliário e mais equipas multidisciplinares. Exige também uma visão menos fragmentada entre saúde, ação social e poder local. E no Alentejo? O Alentejo torna esta realidade ainda mais visível, porque concentra muitas das fragilidades demográficas e territoriais do país. Se não formos capazes de preparar o sistema para esta transição, estaremos a falhar precisamente à geração que mais precisa de proteção. E isso, para mim, é mais do que um problema de gestão. É uma questão de responsabilidade moral. Se tivesse de apontar três decisões políticas urgentes para melhorar o acesso à saúde no Alentejo, quais seriam? A primeira decisão seria criar um regime verdadeiramente robusto e estável de incentivos para fixar médicos e outros profissionais no Alentejo. Não um pacote avulso, não uma medida de ocasião, mas uma política duradoura que inclua carreira, valorização remuneratória, habitação, apoio à família, formação e condições de trabalho que façam sentido no terreno. Fixar profissionais é a condição de base. Sem pessoas, o resto é retórica. A segunda decisão seria reforçar de forma séria os cuidados de saúde primários. Isso significa equipas completas, mais autonomia organizativa, mais capacidade de diagnóstico, menos burocracia e melhor presença no território. O Alentejo precisa de proximidade real. Precisa de um sistema que acompanhe as pessoas antes de elas chegarem ao ponto de rutura. Quando os cuidados primários falham, o resto do sistema entra em sobrecarga. A terceira decisão seria garantir que o Hospital Central do Alentejo nasce com um verdadeiro plano clínico e de recursos humanos para servir toda a região, em articulação com os hospitais já existentes e nunca contra eles. E acrescento uma ideia final, porque ela resume o essencial. O que está em causa no Alentejo não é apenas gestão de recursos. É a dignidade das pessoas. É garantir que quem vive no interior tem direito à mesma qualidade, à mesma segurança e à mesma esperança de resposta que quem vive nos grandes centros. Esse é o teste moral de qualquer política de saúde digna desse nome. Fotografia: Manuel Almeida/Lusa/Arquivo J.P. Antunes