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COMUNICAÇÃO SOBRE OBESIDADE DEVE ABANDONAR ESTEREÓTIPOS, ALERTAM ESPECIALISTAS

HealthNews Online

2026-05-21 21:09:24

Especialistas e associações de doentes apelam a uma mudança profunda na forma como a obesidade é comunicada, alertando que a linguagem e as imagens utilizadas por profissionais de saúde, instituições e meios de comunicação social continuam a perpetuar o estigma e a discriminação associados à doença. A Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), a Associação Portuguesa de Pessoas que Vivem com Obesidade (ADEXO) e a Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil lançaram o guia “As palavras pesam , Como falar de obesidade”, divulgado no âmbito do Dia Nacional da Luta contra a Obesidade, assinalado no sábado. O documento reúne recomendações dirigidas a profissionais de saúde, instituições académicas, entidades governamentais e comunicação social, defendendo uma abordagem centrada na pessoa, livre de juízos de valor, atribuição de culpa, rótulos ou simplificações. Entre as recomendações está a utilização de expressões como “pessoa que vive com obesidade”, em detrimento de termos como “pessoa obesa”, bem como o reconhecimento da obesidade como uma doença crónica multifatorial e não como resultado exclusivo de escolhas individuais. O guia recomenda ainda que seja valorizado o esforço associado à mudança de comportamentos, mesmo quando os resultados não são imediatos, e alerta para a necessidade de evitar linguagem pejorativa relacionada com o peso, o tamanho corporal ou a relação com a alimentação. As entidades defendem igualmente o abandono de expressões como “luta contra a obesidade” ou “vencer a obesidade”, assim como de classificações como “obesidade mórbida”. O documento desaconselha também o uso de imagens estereotipadas que retratem pessoas com obesidade como sedentárias, tristes ou pouco saudáveis. Em declarações à agência Lusa, o presidente da ADEXO, Carlos Oliveira, criticou a forma como a obesidade continua a ser representada nos meios de comunicação social. “O principal problema que existe na comunicação é a forma como a maioria, especialmente os jornalistas, a encaram. Em vez de termos uma comunicação positiva, temos uma comunicação negativa”, afirmou. Segundo o responsável, a cobertura mediática recorre frequentemente a imagens de hambúrgueres ou de corpos parcialmente expostos para ilustrar notícias sobre obesidade, o que considera redutor e distante da realidade das pessoas que vivem com a doença. “As pessoas com obesidade têm vidas, fazem coisas, não são assim. E é muito importante desmistificar isto e mostrar de forma positiva aquilo que é a vida destas pessoas”, salientou. Carlos Oliveira referiu ainda que o percurso de quem vive com obesidade é frequentemente ignorado, sublinhando que, por trás do primeiro contacto com os serviços de saúde, existe geralmente “uma vida inteira de luta”, marcada por tentativas de controlo do peso e recaídas. O presidente da ADEXO defendeu também que a obesidade deve ser encarada como uma doença biológica. “A grande maioria dos doentes são resistentes à leptina e não conseguem queimar gordura”, afirmou. “Só queimam gordura em situações extremas. Isto é um problema biológico e não comportamental”, acrescentou, defendendo que o cérebro induz a ingestão alimentar como mecanismo de garantia de energia e sobrevivência. Também o presidente da SPEO, José Silva Nunes, considerou que persiste uma visão social que associa a obesidade à falta de força de vontade, ignorando a sua natureza neurobiológica, genética e crónica. “Esta visão da sociedade intrincada ao longo de décadas tem que ser desconstruída”, afirmou, defendendo um maior alinhamento da comunicação social com a evidência científica atual. O especialista, responsável pelo serviço de endocrinologia, diabetes e metabolismo da ULS São José, em Lisboa, alertou igualmente para a necessidade de mudar não apenas a linguagem, mas também as imagens utilizadas na comunicação sobre obesidade. “Quando se fala de pessoas com obesidade, estas são às vezes ridicularizadas ou alvo de chacota. Só com a ajuda da comunicação social é que nós conseguimos mudar a forma como a sociedade ainda vê a doença obesidade e a pessoa que vive com essa doença”, disse. José Silva Nunes defendeu ainda a necessidade de sensibilizar os profissionais de saúde para evitar discursos simplistas como “coma menos e mexa-se mais”. “Quando se mantém a ideia de que a obesidade resulta apenas de falta de força de vontade, está-se a perpetuar desigualdades e estigma”, afirmou. Segundo dados do Eurostat relativos a 2025, o excesso de peso afeta 38,2% da população adulta em Portugal, enquanto a obesidade atinge 17%. Entre as crianças dos sete aos nove anos, os dados de 2022 indicam que 31,9% apresentavam excesso de peso e 13,5% obesidade. lusa/HN/AL Especialistas e associações de doentes apelam a uma mudança profunda na forma como a obesidade é comunicada, alertando que a linguagem e as imagens utilizadas por profissionais de saúde, instituições e meios de comunicação social continuam a perpetuar o estigma e a discriminação associados à doença. [Additional Text]: Scales with measuring tape on gray background, close up