PRIMEIRO TRANSPLANTE CARDÍACO FOI HÁ 40 ANOS
2026-05-21 21:09:24

O Templo da Poesia no Parque dos Poetas, em Oeiras, foi o palco, no dia 23 de abril, da cerimónia comemorativa do 40º aniversário da primeira Transplantação Cardíaca em Portugal. Esta transplantação foi realizada, pelo professor Queiroz e Melo, a 18 de fevereiro de 1986, no Hospital de Santa Cruz (HSC), localizado na Freguesia de Carnaxide, no Concelho de Oeiras. Este hospital, realizou já 346 transplantes cardíacos, tendo em 2025, feito 21 transplantes o que é um recorde anual de intervenções. A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, presente nesta cerimónia, no período de intervenções, iniciou o seu discurso, enaltecendo o transplante realizado pelo professor, Queiroz e Melo, há 40 anos, considerando que foi um feito “extraordinário e também, “um grande avanço civilizacional”. Para a ministra cada um tem a sua missão a realizar, e a grande recompensa é emocional, mas para que o faça é preciso que tenha as condições de que precisa e um ambiente saudável. Contou que em conversa com o professor, Gentil Martins, este lhe disse que, “nós não precisamos de um ministro para tomar conta de nós, sabemos o que estamos a fazer, estamos cá pelas pessoas, só precisamos que não atrapalhem”, ao que a ministra respondeu que se a vir a atrapalhar, telefone-lhe que ela vai-se embora. Terminou dizendo que era um grande prazer estar presente nesta homenagem a um trabalho realizado por uma “geração de ouro”. A presidente do Conselho de Administração da ULS Lisboa Ocidental, Isabel Aldir, começou por dizer que a primeira transplantação cardíaca foi um marco. Em meados dos anos 80 o país vivia ainda sobre o impulso de mudança do 25 de abril, o SNS começava a afirmar-se como um projeto coletivo, orientado para garantir cuidados de saúde universais. A nível internacional, a transplantação cardíaca deixava de ser um trabalho excecional, apesar de muitas interrogações, e é neste contexto que uma equipa liderada pelo professor Queiroz de Melo, decide avançar, mas com dificuldades, até no campo ético. Isabel Aldir considera que este primeiro transplante não foi apenas um avanço médico, foi um ato de coragem científica, técnica, ética e social e acima de tudo um gesto profundamente humano. Recebeu o novo coração, uma senhora, Eva Pinto, e com ele uma nova oportunidade de viver e de estar com a sua família. Referiu que hoje o contexto é muito diferente, e celebramos não apenas aquele momento pioneiro mas também a consolidação de um caminho com 40 anos, os 46 anos do Hospital de Santa Cruz, e presta-se homenagem a todos os profissionais que tornam possível este trabalho, médicos enfermeiros, farmacêuticos, técnicos auxiliares, investigadores, equipa de apoio e também deixou uma palavra especial de agradecimento aos doentes e suas famílias, a entidades como o Instituto Português de Sangue, Direção Geral de Saúde, Força Aérea, e GNR. Terminou dizendo que o Conselho de Administração pretende garantir que este legado tem continuidade e terão coragem para continuar a construir um SNS mais forte, mais justo e mais preparado para o futuro. A mesa redonda realizada nesta cerimónia contou com o professor Queiroz e Melo, a diretora do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do HSC, Marta Marques e o coordenador da Unidade de Insuficiência Cardíaca Avançada do HSC, Carlos Aguiar, tendo como moderadora a jornalista, Sara Tainha. Do que foi dito durante esta mesa redonda destacamos a narração das dificuldades surgidas durante o transporte do primeiro coração a transplantar, que, segundo Queiroz e Melo, começou com a deslocação de uma equipa, transportada num helicóptero da Força Aérea, a Coimbra, já que, quando chegaram a Coimbra, o piloto, que não sabia que teriam que voltar para Lisboa, disse que não tinha combustível para o regresso e teve que ir reabastecer, sendo um atraso que podia perigar a utilização do órgão. Iniciaram o regresso já ao cair da noite e o helicóptero não tinha orientação noturna, foi o professor Queiroz e Melo, que conhecia bem as estradas, que orientou o piloto até Lisboa. Dado o adiantado da hora a aterragem em Figo Madura não iria permitir a chegada ao hospital em tempo útil, o HSC tinha heliporto, mas não tinha iluminação. O piloto conseguiu contactar o Hospital (naquele tempo não havia telemóveis) e a solução foi as pessoas que tinham automóvel, colocarem-nos ao redor do heliporto, com as luzes acesas, permitindo desta forma a aterragem e a chegada do órgão em condições de se realizar o transplante. No final desta cerimónia, o professor Queiroz e Melo, recebeu das mãos de Ana Paula Martins, um galardão em nome da ULSLO. E recebeu também uma estatueta em forma de coração, elaborada com desperdício hospitalar, da autoria da artista plástica, Isabela Itapura. Este ato realizado em 1986, colocou Portugal no mapa da cirurgia cardíaca avançada e abriu caminho a um programa de transplantação que viria a transformar profundamente o prognóstico de centenas de doentes com insuficiência cardíaca terminal. Desde julho de 2016, o HSC tornou-se Centro de Referência para Transplantes Cardíacos de Adultos, e já foram realizados cinco transplantes combinados cardíaco-renais. Neste evento estiveram também presentes a vereadora da Câmara de Oeiras, Teresa Bacelar, representantes da GNR, da Força Aérea, de instituições e de ordens profissionais. Texto e Fotos: Alexandre Gonçalves