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PELA TUA SAÚDE! - T2EP#2 - DIETAS

JPN Online

2026-05-21 21:09:24

No segundo episódio desta temporada do Pela Tua Saúde!, a nutricionista Helena Real fala da importância de uma alimentação completa e equilibrada, do impacto do estilo de vida e da influência que o ambiente e o acesso aos alimentos têm nas nossas escolhas diárias. Os chamados “superalimentos”, os riscos associados ao consumo de álcool e a relação entre alimentação saudável e sustentabilidade foram também temas em destaque. Áudio do Programa Transcrição completa do programa Luís Leites (LL): Olá, sejam bem-vindos à segunda temporada do Pela Tua Saúde!, um podcast sobre saúde, feito por jovens a pensar em jovens. Eu sou o Luís. Isabella Mondaini (IM): E eu sou a Isabella. Nesta temporada falamos sobre nutrição e o segundo episódio vai ser dedicado às dietas alimentares. Para nos ajudar a aprofundar este tema, temos connosco a doutora Helena Real, nutricionista, doutorada em Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, e secretária-geral da Associação Portuguesa de Nutrição. Doutora Helena, obrigado por ter aceitado este convite. Helena Real (HR): Muito obrigada. LL: Se calhar, podemos começar por definir o que é que é uma alimentação saudável. HR: Muito bem. Então, antes de mais, olhem, gostava de vos felicitar por este projeto. É muito interessante e poder também ter esta oportunidade de falar um bocadinho convosco e para jovens, como vocês dizem, sobre estes temas. Então, uma alimentação saudável é aquilo que nós chamamos uma alimentação que seja completa, ou seja, comer de tudo, comer de vários alimentos, mas que seja equilibrada, ou seja, realmente respeitar aqui algumas proporções, comer mais de determinados grupos de alimentos, menos de outros grupos de alimentos. E depois, por outro lado, variada, ou seja, dentro de cada grupo alimentar, sei lá, por exemplo, dentro do grupo das frutas, comer diferentes frutas; dentro dos hortícolas, diferentes hortícolas; dentro das leguminosas, diferentes leguminosas, e por aí fora, ou seja, variarmos dentro dos próprios grupos alimentares. E também, por outro lado, trazer aqui um outro conceito para aquilo que é uma alimentação saudável, que é a moderação. É uma coisa que a Organização Mundial da Saúde (OMS) nos trouxe , em termos de complementação deste conceito -, que tem a ver, então, com esta questão da moderação, ou seja, realmente o comer de tudo, o variar, o equilibrar, mas de facto de forma moderada. IM: É possível sermos saudáveis só com uma alimentação saudável? HR: Se estivermos a pensar nesta componente alimentar, ou seja, sobre o ponto de vista, porque o saudável está muito associado àquilo que é o alimento que se come pensando nos nutrientes que nós vamos consumir. E se assim pensarmos puramente nesta questão dos nutrientes, sermos saudáveis, temos aqui uma alimentação saudável, seremos saudáveis. Mas o saudável é muito mais, não é? É um estilo de vida. E por isso nós quando falamos em alimentação, normalmente falamos de uma questão mais associada aos alimentos. Quando pomos na equação a palavra dieta, quer dizer estilo de vida, forma de estar, forma de comer, por assim dizer, quando muitas vezes nós ouvimos falar de dieta e pensamos logo em restrição, não é? Comer menos de alguma coisa, fazer sacrifício, e a verdade é que esta palavra em si , dieta -, não quer mesmo dizer isso. É uma coisa mais abrangente. Portanto, dentro desta forma de estar, é muito mais do que comer só alimentos. É um estilo de vida ativo, é um bom descanso, é convivialidade, convivermos uns com os outros. Ou seja, há aqui realmente muitas outras questões para além de apenas comer bem. LL: E qual é a diferença entre uma dieta e um padrão alimentar? E já agora, quais são as dietas mais populares? HR: Então, realmente esta questão da dieta, como eu dizia há bocadinho, tem a ver mais com este estilo de vida, com esta forma de estar, e que tem a ver com a forma como nós encaramos os próprios alimentos, aquilo que nós escolhemos para comer. Permite-nos pensar, por exemplo, de onde é que vêm os alimentos, como é que eles foram produzidos, qual foi a história associada, por exemplo, àqueles alimentos. Enquanto quando nós falamos de padrão alimentar, enfim, um padrão é uma coisa que se repete, não é, uma coisa que se repete no tempo. Portanto, tem a ver com a repetição dos alimentos que comemos. Um padrão normalmente está dentro do conceito da dieta. O conceito da dieta, então, é uma coisa muito mais alargada, muito mais pensada naquilo que é a forma de estarmos, a forma de agirmos, o nosso estilo de vida. JPN: E quais são as dietas mais populares? HR: Ah, não respondi a essa parte. As dietas mais populares, enfim, há aquelas mais associadas à componente mais de restrição, que às vezes são aquilo a que chamamos as dietas da moda, não é? Que sendo da moda, tão depressa vêm como logo a seguir vão embora e que muitas vezes não têm grande fundamento ou nenhum fundamento científico.E aí estamos a falar em dietas muitas vezes associadas apenas a um tipo de alimento ou que se come mais de algum alimento, mas que realmente, como eu digo, sendo da moda, tão depressa vêm como vão. Aquelas que efetivamente têm uma componente científica mais assertiva e que são também muito conhecidas e que muitas vezes estão nos rankings, porque também há rankings de dietas, imaginem. Estamos a falar, por exemplo, da dieta mediterrânica, que acaba por ser aquela que é muito conhecida, é popular, é simples de executar , e se quiserem, depois também podemos falar um bocadinho sobre isto, mas tem esta componente científica. É muito estudada, é muito conhecido o seu efeito na saúde, mas também o seu efeito no ambiente, aquilo que é o efeito também até sobre o ponto de vista da economia, economia local, ou seja, acaba por ter aqui uma componente muito interessante, mas pegando aqui na componente da saúde o grande efeito na saúde, diminuição do risco de doença, ou seja, a promoção de saúde, a promoção de um estilo de vida mais ativo, acaba por ser realmente aqui interessante, que a torna por isso mesmo mais popular. JPN: Diz-nos que a dieta mediterrânica é o modelo alimentar mais consensual, do ponto de vista científico, atualmente. Quais são os principais pilares dessa dieta e que benefícios lhe estão associados? HL: A dieta mediterrânica realmente é um tipo de conceito, é algo que de facto existe, não é um conceito inventado, às vezes nós conseguimos construir conceitos, este aqui foi algo que foi percebido que existia mesmo na zona do Mediterrâneo, do nosso globo terrestre, e que tem muito a ver, lá está, com esta forma de estar, forma de comer e forma de interagir entre as pessoas, e por isso inserte-se aqui em quatro grandes pilares. Por um lado o pilar do padrão alimentar, a tal coisa que se repete no tempo, aquilo que nós comemos de forma repetida, e que tem a ver com um padrão muito à base de produtos de origem vegetal, em que há aqui uma grande componente de produtos hortícolas, de fruta, de leguminosas, as ervas aromáticas, o azeite é a gordura que mais se utiliza para temperar, mas depois também há aqui uma componente menor em termos de quantidade, de proporção e de frequência de consumo de produtos de origem animal, e aqui entram sobretudo os animais de menor porte , os mais pequeninos, as carnes de aves, por exemplo -, e também os laticínios, onde há aqui uma forte componente associada ao queijo, aos iogurtes, por exemplo, mas que realmente faz com que esta parte do padrão alimentar seja um dos pilares mais conhecidos da dieta Mediterrânica, e que torna este modelo, então, daquilo que nós chamamos de base vegetal, ou seja, que tem mais alimentos de origem vegetal e menos de animal, embora exista lá tudo, é importante também dizermos isto, que às vezes associamos muito estes conceitos a algum radicalismo e não há necessidade de retirarmos alimentos da nossa alimentação, o que importa é realmente estas proporções. Este é o grande primeiro pilar, o padrão alimentar, que também se insere muito com a forma de cozinhar, como é que se cozinha, e estamos a falar de confeções culinárias muito poupadoras de nutrientes, e devo-vos dizer que são aquelas que normalmente envolvem muita água à mistura, comida de panela , nós cá no Norte do país falamos muito disto, da comida de tacho, comida de panela -, onde cabe tudo na mesma panela, e conseguimos colocar lá os vários alimentos, e conseguir que realmente acabem por poupar os nutrientes que muitas vezes se perdem, por exemplo, por via do aquecimento. Um outro pilar tem a ver com a convivialidade, e o que é isto? É comermos todos juntos à mesa, que é uma coisa que às vezes também se perde, e que é importante até mesmo no contexto dos jovens, não perderem esta vertente de comermos em conjunto, mas comermos em conjunto uns com os outros, não é propriamente comermos com um dispositivo eletrónico na mão, porque aí não estamos a comer em conjunto. Ou seja, o que é que nós temos aqui? Temos uma componente muito grande de socialização, e quando nós estamos a conviver à mesa estamos a trocar ideias, estamos a trocar saberes, sabores, muitas vezes comentamos aquilo que temos à frente, às vezes até podemos dizer, olha, este alimento nunca tinha experimentado, é bom, não é bom? De onde é que ele virá? Como é que será que ele foi produzido? E também nos permite a troca de culturas, de conhecimento à volta disso, e a dieta mediterrânica privilegia muito isto, esta convivialidade, esta capacidade de comermos em conjunto à mesa. Um outro pilar tem a ver com a produção dos alimentos, e por isso é que a dieta mediterrânica é muito associada à questão da sustentabilidade, porque estamos a falar de alimentos que vêm de um tipo de produção alimentar, produção primária, que é poupadora de recursos. Usa pouca água, usa poucos fitoquímicos de síntese, acaba por ser mais de acordo com aquilo que a terra dá, portanto, respeito à sazonalidade, desperdiça poucos alimentos, e portanto tem aqui uma componente interessantíssima do ponto de vista de uma produção mais sustentável. E o quarto e último pilar deste modelo alimentar tem a ver com o estilo de vida, a tal forma de estar, a forma de ser mais ativo, privilegiar também aqui o devido descanso, o respeito pelas culturas alimentares, pelas diferenças, mas as semelhanças também entre todos nós, e, portanto, estamos aqui a falar realmente de uma verdadeira forma de estar. Bem, no meio disto tudo, este modelo não deixa de ser um modelo cultural, acaba por ser aqui uma cultura onde junta isto tudo, e daí também a riqueza e a capacidade de integração de vários conceitos neste modelo. JPN: E como é que olha para a discrepância entre o que é recomendado e o que é consumido pelos portugueses? HR: Muitas vezes tem a ver com a questão do acesso aos alimentos, da oferta. Muitas vezes, aquilo que está à nossa frente integra muito com outro conceito, que é o ambiente alimentar, que é: o que é que eu tenho à minha volta? Podemos pensar, por exemplo, se estivermos no contexto de uma faculdade, de uma universidade, os locais onde eu vou aceder a alimentos, o que é que eu tenho disponível? O que é que esbarra com os meus olhos? E isto é o primeiro princípio que nos determina aquilo que nós comemos, que é o acesso aos alimentos. E às vezes nós até podemos saber aquilo que temos que comer, aquilo que é importante para nós, que nos vai impactar mais a nossa saúde, que nos vai permitir, por exemplo, ser mais sustentáveis, mas depois quando queremos chegar à parte de aceder a esses alimentos, não temos tanto essa facilidade e, portanto, o ambiente alimentar é a primeira coisa. E depois, por outro lado, que também é aqui algo muito importante, é a literacia alimentar, que é a capacidade que as pessoas têm de poder aceder à informação sobre alimentos, compreender essa informação, mas depois avaliar e aplicá-la, perceber exatamente o que é que tem que fazer. E, portanto, aquilo que vemos é que também a literacia alimentar dos portugueses não é muito elevada e, portanto, é algo que nós temos aqui que trabalhar e trabalhar em conjunto com esta questão do ambiente alimentar. Portanto, existem as recomendações, e devo dizer que são muito próximas daquilo que é o modelo alimentar mediterrânico, mas depois existem todos estes entraves, digamos assim, que têm que ser trabalhados em paralelo para garantir que os portugueses tenham uma alimentação diferente. JPN: Qual é o papel do SNS nessa matéria? Acha que deveria haver um maior acesso a consultas de nutricionistas? HR: Bem, sendo eu nutricionista, claro que vou dizer que sim, não é? Mas, agora fora de brincadeiras, claro que este acompanhamento por parte de um nutricionista seria muito importante, e é importante olharem para o nutricionista não como aquele profissional que existe para tratar a doença, mas como o profissional que existe para promover saúde, para prevenir a doença. E, portanto, este acompanhamento naquilo que é o SNS seria interessantíssimo, numa ótica até de cuidados de saúde primários de forma bastante mais alargada para que existissem consultas de forma generalizada para quem delas necessitasse e quisesse, por exemplo, simplesmente comer melhor. Seria um serviço bastante importante para garantir que, lá está, esta questão da alimentação de cada um de nós fosse bem feita porque comer é provavelmente das coisas que nós mais fazemos na nossa vida toda, não é? E, portanto, ou fazemos bem ou fazemos mal. Isto ou nos vai fazer bem ou nos vai fazer mal. E, portanto, às vezes até mesmo aquilo que nós comemos agora não nos vai fazer um efeito positivo ou negativo amanhã, a menos que estejamos a falar de uma questão de segurança alimentar em que o alimento esteja contaminado do ponto de vista microbiológico e claro que vamos ter uma dor de barriga amanhã, não é, ou mais tarde, daqui a umas horas, porque o próprio efeito em si da saúde é algo que acontece mais tarde, não é? Não é uma coisa que acontece em dias ou que acontece em semanas. E por isso é que às vezes também tendemos a desvalorizar um bocadinho isto. E isto é uma coisa que acontece muito, enfim, nas crianças nem sequer se pode falar de saúde porque nem conseguem perceber o conceito em si, não é, nos adolescentes começa-se a introduzir o tema, mas não é fácil, e nos jovens, bem, os jovens, quer dizer, ainda temos tempo de pensar nisso. , O problema é que não temos, não é? Nós temos que pensar realmente em ter uma alimentação adequada e saudável desde que estamos na barriga da nossa mãe. E, portanto, é aí que de facto tem que ser pensada e trabalhar durante toda a vida. Portanto, voltando a esta questão que me colocam da presença do nutricionista no SNS, claro que sim, deveria haver muita mais capacidade de apoiar e acompanhar as pessoas. Mas também pode haver noutros sítios, não é? Ou seja, nomeadamente nas escolas , seria muito importante que houvesse nutricionistas a acompanhar as crianças e poder já aí trabalhar esta vertente de uma alimentação saudável e sustentável desde muito cedo. JPN: Qual é a sua opinião sobre produtos que substituem refeições? Então, barras, batidos? HR: O que eu tenho a dizer é que hoje em dia a indústria tem ao nosso dispor ou coloca ao nosso dispor uma panóplia enorme de produtos. Nós temos, felizmente, a facilidade de ter acesso a muita coisa, muita coisa diferente, muitas coisas muito interessantes e muitas outras se calhar muito menos interessantes. E, portanto, é muito impor tante nós termos conhecimento daquilo que nós precisamos de consumir e aí lá está a importância de haver mais literacia alimentar e haver acompanhamento por parte dos nutricionistas e perceber se aquilo que eu estou a escolher para substituir a minha refeição e se calhar devemos falar aqui em situações mais pontuais porque, de facto, efetivamente nós temos que ter uma alimentação mais completa e equilibrada e variada a maior parte das vezes mas, acima de tudo, temos que olhar muito bem para o rótulo daquele produto porque eventualmente pode ter uma quantidade de açúcar muito elevada ou uma quantidade de sal muito elevada ou uma quantidade de gordura muito elevada e que rapidamente extrapolamos aquilo que são as recomendações para o nosso dia e depois tem outra coisa, é que às vezes esses produtos também nos trazem muita saciedade estamos a comer e passado pouco tempo já estamos outra vez com fome e se calhar aí com fome vamos desejar comer outros produtos se calhar com mais açúcar ou com mais sal e que nos vai acabar por trazer piores consequências portanto, é muito importante olhar para o rótulo, sem dúvida. JPN: Pensando em produtos que realmente são de boa qualidade em que situação, se alguma, eles podem ser utilizados? HR: Nós podemos sempre pensar que há produtos que são muito interessantes para complementar os nossos pequenos almoços, os nossos lanches, até mesmo no caso das refeições principais nós temos alimentos que já estão pré-preparados até refeições pré-preparadas que por vezes nos ajudam imenso em situações em que nós temos pouco tempo que não queremos pensar muito naquilo que queremos fazer ou não temos grande possibilidade de fazer uma confeção culinária de base, preparação alimentar, confeção culinária, e portanto há situações em que esses produtos podem ser aqui um auxílio mas como digo, nós temos que olhar bem para o rótulo e não nos esquecermos acima de tudo daquilo que são os vários grupos alimentares que nós temos que consumir todos os dias, ou seja, são aqueles que estão presentes na roda da alimentação mediterrânica, nós temos que todos os dias colocar uma grande quantidade de alimentos como produtos hortícolas, frutas, leguminosas, os cereais na nossa alimentação. Depois numa menor quantidade de carne, pescado, ovos, laticínios e nunca esquecer da água, ou seja, se nós conseguirmos ao longo do dia tentarmos incluir todos estes alimentos, nós aí vamos ter uma alimentação , a tal dita, completa, variada, equilibrada -, e esses produtos por vezes podem incluir. Agora, é mau é quando eles entram para substituir determinados alimentos que deveriam estar a entrar na nossa alimentação e que estão a falhar e sobretudo quando vem com um aporte maior de sal ou de gordura saturada, por exemplo, que são assim aquelas campainhas que nós temos que olhar para os rótulos e tentar encontrá-los. JPN: E tendo em conta tudo o que disse, será que há uma luta desigual entre saúde e marketing alimentar? HR: Não tem que ser uma luta desigual. É claro que, às vezes, nós temos um poder económico maior do lado do marketing para trabalhar determinadas mensagens do que às vezes do lado da saúde, nomeadamente no contexto da promoção de saúde. Mas não quer dizer que também não se trabalhe bem em muitas situações em marketing alimentar, até porque há muitos produtos que realmente são interessantes e que é interessante também promovê-los. Tem é que haver mais sinergia, diria eu. Ou seja, realmente tem que haver aqui uma maior ligação entre aqueles que são os profissionais de saúde e aqueles que são os profissionais da alimentação, ou seja, aqueles que trabalham, por exemplo, na indústria alimentar e tem de haver aqui uma maior sinergia entre ambas as partes porque no fim do dia todos nós queremos é uma população mais saudável e queremos nós todos ser mais saudáveis incluindo aqueles que produzem os alimentos, portanto na realidade tem que haver mais essa sinergia. JPN: E o que é que são os chamados superalimentos? Ou seja, existe uma base científica para este conceito? HR: É um conceito complexo, um conceito às vezes até um bocado controverso, diria eu. Superalimento é todo aquele que nos vai trazer uma boa saúde, que nos vai trazer os nutrientes que nós precisamos. Normalmente superalimento é chamado aquele alimento que realmente tem uma riqueza nutricional notável em algum ou em vários nutrientes e que pode ser desde uma simples fruta, pode ser uma simples leguminosa como pode ser um produto que já seja mais transformado e que por via daquilo que é conjugação de matérias-primas nos consegue trazer mais nutrientes diferenciados. Mas, assim, tentando simplificar e às vezes não dar demasiada importância a alguns conceitos, superalimento é todo aquele que vai entrar no nosso dia-a-dia, que em conjunto com todos os outros que nós comemos durante o dia nos vai promover saúde. Se calhar tornei isto um bocado mais complexo, mas pronto. JPN: Para além da alimentação saudável, agora fala-se muito sobre alimentação sustentável. Em que consiste este conceito? HR: Alimentação sustentável é um conceito que na verdade inclui o conceito de alimentação saudável, porque sustentável tem a ver com tudo aquilo que é um modelo, e falando em sustentabilidade alimentar, que garante que haja uma poupança de recursos naturais quando estamos a falar da produção de alimentos, por exemplo a água, os minerais, a energia, e que garante também toda a questão da biodiversidade das várias espécies, daquilo que nós produzimos, sejam elas animais ou vegetais ou de outros reinos. Mas, é tudo aquilo que garante que haja uma capacidade de que aquilo que nós vamos ter no futuro seja, pelo menos, igual ao que temos agora. Estamos sempre a falar de poupança de recursos, na verdade. E portanto, falar em alimentação sustentável é uma alimentação que realmente vai ser então ter uma baixa pegada de água , pegada hídrica -, uma baixa pegada de carbono, vai ser aquela que realmente promove a sazonalidade, promove também a proximidade, promove a produção de alimentos de uma forma como já disse há pouco, poupadora dos recursos naturais, e portanto é tudo aquilo que por outro lado também tem esta forte ligação à componente ambiental mas também à componente social porque estamos a falar de uma alimentação que promove uma sociedade mais justa, mais próxima, mais equitativa e que promove também uma questão de justiça económica, ou seja, realmente de um preço justo, digamos assim, para toda a cadeia alimentar. E no meio disto tudo há a componente da saúde, a componente da nutrição por isso é que eu digo que uma dieta sustentável é aquela que integra uma componente saudável. JPN: Tendo em conta que o nosso público são jovens universitários, que mudanças simples podem fazer para comer de forma mais saudável e sustentável? HR: Bem, uma coisa que é muito importante fazer-se é o planeamento e que às vezes é o que falhamos mais, não é? Planear, gerir também o nosso orçamento do ponto de vista da compra dos alimentos ou até da própria gestão daquilo que são os stocks, digamos assim, de alimentos lá por casa, ou seja, tentar olhar para a vertente também dos prazos de validade, estar atento a isso porque às vezes até desperdiçamos muitos alimentos. Portanto, o planeamento e a gestão é fundamental. Fazer listas de compras e hoje em dia usa-se tanto os modelos tecnológicos para fazer essas coisas todas que até não dá tanto trabalho assim. Mas isto é o princípio, sempre planear, gerir, pensar no que vamos comer, no que podemos comer e tentar ao máximo reduzir o desperdício alimentar, porque o desperdício alimentar em última instância é dinheiro que estamos a deitar ao caixote de lixo e o estudante normalmente nunca tem muito dinheiro, portanto nunca quer deitar dinheiro ao lixo, que isso é um desperdício grande também económico e portanto nesse sentido esta questão do planeamento é importante. E depois de uma forma até, diria eu muito simples, tentar olhar, fazer quase o exame de consciência todos os dias em termos alimentares e perceber, será que eu comi mais alimentos de origem vegetal do que de origem animal? É fazer este exercício simples, porque assim já se consegue ter uma alimentação mais sustentável, comer mais coisas de origem vegetal, menos de animal. Não há esta necessidade de os deixar de comer, porque às vezes quando se fala de alimentação sustentável diz-se vamos todos deixar de comer carne , não há essa necessidade, temos é que reduzir, porque normalmente quando comemos carne comemos muita carne e não há essa necessidade, é comer menos e depois pensar muito numa ótica das embalagens nós hoje em dia usamos e abusamos de embalagens tudo tem um plástico, tudo tem um papel portanto tudo aquilo que nós conseguirmos reduzir-se ao ponto de vista desses resíduos é importante e reciclar e dar o exemplo nós somos sempre o nosso próprio exemplo porque quando começamos a ser mais sustentáveis, depois à volta podemos contaminar, no bom sentido, quem está ao redor de nós. Até porque, curiosamente, os estudos dizem que as pessoas da vossa geração, quem está agora no ensino superior, é a geração mais sensível para as questões da sustentabilidade alimentar mas muitas vezes também é, aliás é das gerações que também é mais propícia a ceder a informação de menor qualidade porque está sempre no mundo digital onde circula muita informação e muitas vezes muita desinformação e nós quando estamos a falar de alimentação saudável, alimentação sustentável muitas vezes estamos a falar de muitas coisas que são muitos radicalismos muitas coisas, é o 8 ou o 80 e portanto o que é que também posso aqui tentar deixar como grande sugestão: ter muito cuidado com a informação que se consome, nomeadamente do ponto de vista alimentar, há muita informação que acaba por ser mais controversa, é preciso olhar para quem está a falar dessa informação que sejam profissionais da área, que sejam profissionais que realmente saibam do que estão a fazer porque efetivamente não estamos a falar de um assunto tão simples quanto isso como eu dizia há pouco, nós comemos muitas vezes durante o dia e muitas vezes durante a nossa vida toda e portanto temos que ter este cuidado. JPN: E no seguimento daquilo que já falou, que conselhos práticos daria a um estudante com pouco tempo e com orçamento limitado? HR: Esta questão do planeamento e às vezes nós perdemos cinco ou dez minutos a planear o que é que vamos comer uma semana toda, ou seja, o que é que eu vou comer, onde é que eu vou comer como é que eu vou aqui planear, porque não há nada pior do que com pouco tempo, chegar à hora do almoço ou do jantar, e agora? Na hora do almoço é fácil porque vocês se estiverem em contexto de ensino superior e tiverem acesso a uma cantina acaba por ser mais facilitador e à partida com o tipo de cuidado que hoje em dia existe neste tipo de serviço já há aqui um olhar para a componente alimentar servida nestas cantinas e é mais facilitador. Mas ao jantar não, nós chegamos a casa e agora? , pronto, são oito da noite e agora já não sei o que é que eu vou comer, qualquer coisa que me aparece por aqui. Se nós planearmos e tentarmos ter em casa coisas mais simples, às vezes até as próprias conservas, por exemplo, hoje em dia há muitas conservas de muita qualidade e que podem ser interessantes para se consumir de forma mais rápida ou ter sempre sopa disponível por exemplo, que acaba por ser fácil de aquecer e consumir também, acaba por ser simples. E depois, para além desta questão do planeamento, o olhar para os rótulos , isto é importante. A Direção-Geral da Saúde (DGS) disponibiliza uma coisa muito simples que se chama um “Descodificador de rótulos”, uma coisa que é tipo um semáforo que tem intervalos de valores e que ajuda. Se nós imprimirmos aquilo num formato pequenino de cartão, quase que podemos pôr na carteira ou então, pronto, tiramos uma fotografia, temos no telemóvel mais fácil assim, e quando formos às compras podemos estar lá a fazer aquelas comparações, perceber ora bem, isto tem mais açúcar, menos sal, mais sal, mais gordura saturada portanto, olhar sempre para açúcar, açúcares simples, gordura saturada e sal, são assim as três coisas que nós temos que olhar mais quando olhamos para o rótulo e tentar fazer comparações. E portanto, às vezes quando nós perdemos um bocadinho, aliás, não é perdemos, quando investimos um bocadinho de tempo a olhar e a fazer comparações entre alimentos, a próxima vez que formos às compras, pronto, já está, já sabemos mais ou menos aquilo que à partida será melhor portanto, é dar importância a isto, tentar planear um bocadinho, ler os rótulos e tentar respeitar aqui as orientações da roda dos alimentos. JPN: Quais são os principais efeitos do consumo de álcool na saúde e no estado nutricional? Agora uma pergunta mais para os nossos ouvintes jovens, porque é que ainda não se inventou uma cura para a ressaca? HR: Não se inventou curas para muitas coisas. Ora bem, esta questão do álcool é de facto importante. É preciso ter em conta que o álcool, para além de poder ter um efeito naquilo que são os nossos comportamentos, porque nos altera se for consumido em excesso e portanto pode-nos levar a comportamentos menos desejáveis e menos controláveis, e portanto pode haver consequências mais ou menos graves associadas a isso e temos sempre que precaver essa questão, mas também por outro lado temos que pensar noutra questão que é, o álcool tem imensas calorias e para terem uma noção em termos de comparação, uma grama de álcool tem mais calorias que uma grama de açúcar por exemplo, e tem ligeiramente menos que gordura. Portanto, uma pessoa que exagere no consumo de bebidas com álcool e às vezes diz mas tenho uma alimentação de resto interessante, mas ali exagera um bocadinho e às vezes não estou a perceber porque é que eu tenho este quilo ou dois quilos ou esta barriga. Ou seja, há este efeito, sobre o ponto de vista de calorias, de valor energético que estes alimentos têm, de facto têm este impacto. Isto associado à primeira questão que eu falava, de facto é importante porque esta vertente do comportamento que nós próprios não controlamos é importante de se ter em consideração, portanto claramente estou aqui a falar daquilo que não é um consumo moderado, porque tudo com moderação, está tudo certo mas é preciso ter realmente em conta que às vezes nem sempre as pessoas têm a noção do que é a moderação e a quantidade para um não é a mesma coisa que a quantidade para o outro, até porque tudo isto influencia. O consumo de álcool também tem muito a ver , o efeito que representa , tem muito a ver com aquilo que se come, em conjunto com o que se come dependendo da pessoa em si, da forma de metabolizar o álcool e, portanto, neste momento a própria recomendação da Organização Mundial da Saúde é para o consumo zero de álcool, tendo em conta os efeitos que pode ter até numa componente da saúde. A questão da ressaca é evitá-la, ou seja, no fundo é realmente ter aqui um consumo inexistente e optar aqui por outras soluções porque efetivamente há muitas outras bebidas que hoje em dia até são bastante interessantes sob o ponto de vista sensorial, e que acabam por mitigar isto. Curiosamente, todos os anos se falam de tendências alimentares, novas tendências alimentares, o que se vê atualmente é que há uma procura por parte dos jovens de bebidas com menos álcool. Por isso é que, por exemplo, hoje em dia, a indústria, para terem uma noção, até a própria indústria do vinho está à procura de produção de vinho com menos álcool, porque de facto é a tendência do futuro e, de resto, ainda bem que assim o é porque efetivamente, para além do efeito na saúde, pode ter este efeito nefasto sob o ponto de vista do comportamento e tem de ser mesmo evitado. JPN: Para terminar, mesmo pessoas jovens, e aparentemente saudáveis, devem procurar acompanhamento nutricional? HR: Ás vezes é interessante este uso da palavra do aparentemente, porque às vezes aquilo que vemos por fora não é o reflexo daquilo que acontece por dentro. E às vezes aquilo que é a nossa alimentação agora vai-se repercutir numa situação pior mais à frente, nuns anos à frente. Portanto, claramente que sim. Nós temos que pensar em ter uma alimentação saudável, é importante que aconteça desde sempre, e, portanto, é muito melhor que a exceção seja por vezes os alimentos mais processados, com pior perfil nutricional, e que também podem aparecer, mas se aparecerem em menor quantidade não vão ter impacto nenhum, do que propriamente ser ao contrário e ser a exceção os produtos alimentares com melhor perfil nutricional. Portanto, este acompanhamento, este cuidado com a alimentação tem que existir desde sempre e é muito importante que se pense nisto a longo prazo. Por isso é que, realmente, os jovens nem sempre atribuem valor a isto porque parece que ainda falta muito tempo para haver qualquer tipo de problema, mas um bom gancho de comunicação para estes assuntos é precisamente a questão da sustentabilidade e, portanto, se nós tivermos a noção que a nossa alimentação tem um impacto forte sobre o ponto de vista da sustentabilidade, se calhar é um incentivo para termos uma alimentação mais saudável, mais sustentável, e portanto, vamos lá por aí. JPN: Obrigada Dra. Helena Real. Fica por aqui esse episódio do Pela Tua Saúde!, o podcast do JPN sobre saúde feito de jovens, para jovens. Nós regressamos em breve com mais um tema ligado à nutrição. Fiquem atentos, e até à próxima. Ficha Técnica Pela Tua Saúde! T2 | #2 Dietas Entrevista Isabella Mondaini Luís Leites Convidada Helena Real Operação de câmara Diogo Sousa Inês Ribeiro Edição vídeo/som Inês Ribeiro Vox Pop Inês Ribeiro Luís Leites Identidade Sonora Joana Damas Martins Identidade Visual Maria Miguel Marques Inês Bulcão Ideia e Coordenação Paulo Frias Edição Geral Filipa Silva Inês Bulcão Consultoria Médica Rosário Monteiro Liliana Ferreira Editado por Inês Bulcão Diogo Sousa Inês Ribeiro Isabella Mondaini Luís Leites