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A INSTABILIDADE PASSOU A SER O NOVO NORMAL

Jornal Dentistry (O)

2026-05-21 21:09:24

Nunca o compromisso político valeu tão pouco. Pelo menos esse é o exemplo que nos tem chegado de fora, nomeadamente do Presidente do país que era, até pouco tempo, o guardião da ordem no mundo. A palavra política altera-se 1800 nas mesmas 24h, e nem os acordos escritos conseguem já sair do papel para a realidade do terreno. Em Portugal, a política também começa a absorver, por osmose, este comportamento. Numa semana reduz-se os impostos sobre os combustíveis, na semana seguinte promete manter-se, mas afinal já não vai ser possível porque o barril de crude inverteu a tendência. A instabilidade passou a ser o novo normal. O padrão é a instabilidade. Tudo muda constantemente OU se atualiza à velocidade que a inteligência artificial permite a incorporação de novas funções e conhecimentos. E é neste contexto de instabilidade política que a medicina dentária portuguesa vê aprovada, na Assembleia da República, a proposta para integração dos médicos dentistas no SNS. Há 40 anos que se esperava por este momento e, por isso, deixo aqui palavras de agradecimento pelo esforço de todos os que, nestes anos todos, estiveram envolvidos neste processo. Neste momento, só cerca de 10% dos médicos dentistas a trabaIhar em Portugal integram o SNS, mas pode ser que, se este processo não cair entretanto na próxima aprovação na especialidade, daqui a um ano sejamos muitos mais. Não podemos é esperar mais 40 anos, pois nessa altura corremos o risco da população já nem sequer mastigar, mas engolir apenas comprimidos de suplementos OU batidos de processados proteicos à base de insetos, OU de serem robots humanoides a fazer os tratamentos dentários nos centros de saúde. Há quem diga que as profissões médicas técnicas, como a medicina dentária, necessitarão sempre de um cérebro humano e de umas mãos tecnicamente treinados para que, potenciados por uma tecnologia cada vez mais inteligente e avançada, possam entregar tratamentos cada vez mais conservadores, personalizados e minimamente invasivos. Pelo contrário, há quem vaticine que, num futuro muito próximo, os radiologistas possam ter de ser reintegrados no processo de análise de imagem digital. As imagens de diagnóstico digital vão dispensar o ser humano, pelo menos na maioria dos casos que não necessitam de desempate. Entretanto, e enquanto a realidade ainda é aquilo que percecionamos com os nossos sentidos, há que manter a consistência de aparecer todos os dias para fazer o trabalho. Mesmo que no dia a seguir todo esse trabalho já esteja desatualizado OU não sirva de suporte para desenvolver o do dia seguinte. Gosto de acreditar que fazer o trabalho, dizer que sim, envolver-se, é o que nos prepara para a incerteza do que vem. Sem medo, a acreditar que as ferramentas que desenvolvemos até aqui nos permitirão adaptar-nos às novas funcionalidades de uma vida de imprevisibilidade. A verdade é que numa altura em que as profissões estão em constante remodelação e já não há quem faça carreira em nenhuma função, a medicina dentária congratula-se por ter aprovado a sua carreira no SNS. Resta saber se O SNS se manterá aqui por muito tempo. Se será chão onde a nossa carreira floresça. Se a carreira pública será uma forma de prestar serviço na medicina dentária. Espero que sim. Mas aquilo que espero, cada vez se alinha menos com aquilo em que acredito. Célia Coutinho Alves, Médica Dentista Especialista em Periodontologia pela OMD, Doutorada em Periodontologia pela Universidade Santiago de Compostela Célia Coutinho Alves