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TERRITÓRIOS INTELIGENTES... QUANDO OS DADOS AJUDAM A MELHORAR A VIDA DAS PESSOAS

Diário do Distrito Online

2026-05-20 21:06:34

As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor. Fala-se cada vez mais em cidades inteligentes, territórios inteligentes, transformação digital, dados, plataformas e inovação. São palavras que entraram no discurso e vida pública e que, aparecem associadas à ideia de modernidade. Em Portugal, este debate ganhou também um enquadramento próprio com a Estratégia Nacional de Territórios Inteligentes, aprovada pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 176/2023, que procura criar uma visão comum para territórios mais conectados, sustentáveis, inclusivos e centrados nos cidadãos. Mas convém não esquecer uma coisa simples, que uma cidade, um território, não se torna inteligente apenas porque tem mais tecnologia! Ter uma aplicação no telemóvel, instalar sensores no espaço público, criar painéis de indicadores ou digitalizar serviços pode ser importante, mas isso, por si só, não resolve os problemas das pessoas.  Pode até acontecer o contrário, caso a tecnologia seja usada sem planeamento, sem conhecimento do território e sem uma ideia clara do problema do que se quer resolver, ou das ferramentas que queremos colocar ao dispor do decisor, correndo o risco de apenas transportar velhos problemas para ferramentas novas!  A verdadeira inteligência de um território começa na forma como ele é governado. Começa na capacidade de olhar para esse território com seriedade, perceber onde estão as maiores dificuldades, ouvir as populações, cruzar dados, e tomar as decisões com base em evidências. A tecnologia deve assim ser um instrumento para ajudar a decidir melhor, e não uma solução automática para tudo.  Um território inteligente é aquele que tem as respostas certas. Onde faltam transportes? Que zonas têm maior pressão habitacional? Onde vivem as pessoas mais vulneráveis? Que serviços públicos estão longe de quem mais precisa deles? Que bairros precisam de mais investimento? Onde existe maior abandono escolar? Que riscos ambientais devemos prevenir? Estas perguntas parecem simples, mas é fundamental ter uma resposta. E é aqui que os dados fazem a diferença. Quando bem recolhidos e utilizados, permitem aos decisores (Políticos) conhecer melhor o território, identificar desigualdades, antecipar problemas e definir prioridades. Permitem deixar de governar apenas por reação ou perceção, e passar a governar com visão, com planeamento, e com mais responsabilidade, pois uma política pública surge para resolver um problema público, ou antecipar o mesmo. E os dados aqui são cruciais. Precisamos de criar capacidade para pensar antes, planear melhor, executar, e avaliar depois. É aqui que os dados ganham importância. Não como uma moda, nem como um exercício técnico fechado em gabinetes, mas como uma ferramenta ao serviço das pessoas. Por exemplo, na mobilidade, conhecer os fluxos reais das deslocações pode ajudar a ajustar percursos, horários e ligações de transporte público. Na habitação, a informação sobre preços, rendimentos, carência habitacional e dinâmicas urbanas pode apoiar políticas mais justas e mais direcionadas. Na ação social, os dados podem ajudar a identificar situações de isolamento, envelhecimento ou vulnerabilidade. No ambiente e na proteção civil, podem ajudar a prevenir riscos, preparar respostas e proteger melhor as populações. Os dados ajudam a decidir, mas não decidem sozinhos. A decisão pública exigi escolhas, prioridades, sensibilidade social e responsabilidade democrática. Um indicador pode mostrar onde existe um problema, mas cabe aos decisores perceber o que fazer, como fazer e com que objetivo. Por isso, falar de territórios inteligentes é também falar de liderança pública. É falar de autarquias, comunidades intermunicipais, regiões e serviços públicos com capacidade para trabalhar em conjunto, partilhar informação, coordenar respostas e pensar o território para além dos limites administrativos. Muitos dos problemas que hoje enfrentamos não acabam na fronteira de um Concelho, a mobilidade, a habitação, o ambiente, a economia, a saúde ou a coesão social exigem soluções integradas. Um território verdadeiramente inteligente deve ser mais transparente, mais participado e mais capaz de prestar contas. Deve usar a informação para explicar melhor as escolhas do decisor, justificar prioridades e envolver os cidadãos. Não basta recolher dados, é preciso transformá-los em confiança. O grande desafio dos próximos anos não será saber quem tem mais plataformas digitais, mais sensores ou mais sistemas informáticos. O verdadeiro desafio será saber quem consegue transformar a informação, a captação massiva de dados, em boas políticas públicas, em quem consegue usar os dados para investir melhor, corrigir desigualdades, melhorar serviços e preparar o território para o futuro. Um território inteligente não é aquele que apenas parece moderno, é sim aquele que funciona melhor para quem lá vive, que melhora a qualidade de vida das pessoas, aquele que consegue olhar para os seus problemas e usar a informação, os dados, com inteligência e rigor, e tomar decisões com impacto real na vida das pessoas. Porque, no fim, a inteligência de um território não se mede apenas pela quantidade de tecnologia que utiliza, mede-se pela capacidade de governar melhor, de decidir melhor e de cuidar melhor das pessoas. TagsBruno Santos Cidades Inteligentes Opinião Sociedade Diário do Distrito