FRANCISCO MOITA FLORES: AS PIORES PESSOAS QUE CONHECI FOI NA POLÍTICA
2026-05-20 21:06:21

Cresceu num monte alentejano, vendeu pneus, foi professor de Biologia, investigador da PJ, autarca e autor de novelas, séries de televisão e de duas dezenas de livros. Acaba de lançar Sangue e Silêncio no Poço dos Negros, o seu segundo policial. Desde miúdo que tinha o sonho de ser escritor e detetive. E concretizou-o. Francisco Moita Flores, de 73 anos , pai de três filhos e avô de três netos , entrou para a Polícia Judiciária e escolheu o setor mais violento, o dos assaltos à mão armada, porque “queria estar no meio da bandidagem”. Foram tempos que o marcaram, mas que também o inspiraram na escrita, como este último policial, editado pela Casa das Letras. Foi também presidente da Câmara Municipal de Santarém, como independente apoiado pelo PSD, e garante que foi na política que conheceu “as piores pessoas”, ao contrário da Maçonaria, onde conviveu com “gente de muito valor”. Depois do enfarte em 2022, que só não o matou “por sorte”, e de ter sido atropelado pelo próprio carro e que lhe “destruiu a perna direita”, diz agora que só faz o que lhe apetece, escrever. Francisco Moita Flores, de 73 anos, foi fotografado no estúdio da SÁBADO Nasceu no Alentejo. Onde? No hospital de Moura, que na época era uma vila que tinha hospital e estação de comboios. Hoje, expropriaram-na dos equipamentos essenciais e as pessoas vão nascer a Beja. Os meus pais tinham uma casa em Moura, mas vivíamos na herdade da Defesa de S. Brás, onde o meu pai trabalhava. O que fazia o seu pai? Era responsável pela reparação das máquinas, por isso tinha lá uma casa enorme onde morávamos. O monte era muito grande, tinha 80 famílias a viver lá. Hoje há aldeias que não têm essa população. Além dos 300 ou 400 trabalhadores que iam e vinham todos os dias. Guarda boas memórias da infância? Tive a infância mais feliz e com a maior liberdade do mundo. Aprendi a ler e a escrever antes de entrar na escola lá do monte, porque ainda éramos uns 30 miúdos. Quem o ensinou a ler? Os meus pais tinham uma grande preocupação com isso porque naquele tempo havia muito pouca gente alfabetizada. Mas o meu pai sempre foi um leitor feroz. Aos 15 anos foi para Beja estudar. Custou-lhe sair de casa? Quem quisesse continuar a estudar, além do antigo 5.º ano, tinha que ir para Beja ou para Évora. Eu, graças ao comboio, fui para Beja. Ia na segunda de manhã e regressava na sexta-feira à tarde. Ficava numa república, por ser mais barato. Foram tempos de grande folia. Infelizmente, os meus colegas desse tempo já não estão vivos Nessa época, no Alentejo, para ter filhos a estudar tinha de haver recursos financeiros. A vida era muito difícil. Os meus pais não eram exatamente pobres, eram remediados, viviam com algum sacrifício. A minha mãe era doméstica, quem ganhava dinheiro era o meu pai, que de alguma forma era um dos protagonistas da herdade, além do guarda-livros e do feitor, e isso dava-lhe estatuto, até financeiro. Depois veio para a faculdade de ciências de Lisboa estudar Biologia Aí já trabalhava. Comecei aos 16 anos numa loja de pneus e depois no escritório de numa oficina de representação de automóveis, em Beja. Em Lisboa, trabalhei numa agência de seguros, mas comecei a dar aulas de Biologia, antes de terminar o curso porque não havia professores. Deu aulas onde? Em várias escolas. Voltei à minha terra, dei lá aulas, depois em Grândola e no liceu D. Filipa de Lencastre, em Lisboa. Gostei muito de ser professor. Um dia, em 1977, no liceu, apareceu um saco com uma coisa que se suspeitava ser haxixe e entrou tudo em paranoia. Sugeri que se levasse aquilo à Polícia Judiciária para ser examinado. Fui com o saco até à Estefânia e quando chego à porta encontrei o meu cunhado, marido da minha irmã, que era engenheiro na Setenave. O que estava ele ali a fazer? Tinha ido inscrever-se na Polícia Judiciária. E disse-me Ó pá, abriram concursos e aqui ganha-se bem mais. Eu tinha o sonho de ser escritor e detetive desde miúdo, aproveitei e também me inscrevi. Entretanto, o que estava no saco não era droga, era louro prensado que vendiam aos miúdos como se fosse haxixe. A PJ chamou-o? Em menos de um ano, chamaram-me para prestar provas , o meu cunhado já tinha desistido. Começava com uma prova de cultura geral, depois exames psicotécnicos, exames médicos e uma prova oral sobre temas diversos, com um júri formado por velhos polícias que mais tarde conheci. Entrei no curso, que estava voltado para as áreas do Direito, mas eu queria tanto ser detetive que me entreguei com muita dedicação e esqueci a biologia, que ficou pelo bacharelato. Como correu o curso da PJ? Fui o primeiro classificado. Aprendi muito Direito Penal, Criminologia e Investigação Criminal. Na altura, podíamos escolher o setor da polícia onde queríamos trabalhar. E eu sabia, pela experiência do estágio, que o setor mais trepidante era o dos assaltos à mão armada e roubo, a célebre 6ª secção, conhecida por Tarrafal. Escolheu a secção mais violenta Alguns colegas ficaram espantados, mas eu queria aprender a ser polícia a sério, estar no meio da bandidagem. Lidou com muitos bandidos? Ui, do piorio. Nunca me vou esquecer da minha primeira grande ação de rua. Fui com dois colegas buscar uns televisores roubados à Curraleira, um dos maiores bairros de lata de Lisboa. Ia completamente em tensão e os outros dois, já homens batidos naquilo, iam no carro a falar do Benfica ou de outra coisa qualquer. E eu, indignado, a pensar porque é que só eu é que ia em polvorosa. Chegámos, saímos do carro e um deles disse-me vais para a parte de trás da barraca, para o caso de alguém tentar fugir pelas traseiras, e nós vamos à porta. Aquilo era um emaranhado de barracas que não encontrei as traseiras. Eles tiraram os televisores roubados e eu perdido no meio da Curraleira. Eles começaram a apitar e fui atrás da buzina do carro. A humilhação foi tal que nesse dia jurei a mim próprio que não se repetiria. O que fez? Quando saía às cinco e meia da tarde, ia visitar os bairros de lata, porque a primeira prioridade de um investigador é conhecer o terreno que pisa. Ia passear para a Curraleira, para o Casal Ventoso, para a Musgueira, onde, curiosamente, mesmo com operações duras que fiz lá, arranjei muitos amigos. Já era casado? Sim. Na altura, casávamos todos muito novos por causa da guerra. Tinha 21 anos. A minha primeira mulher era do Alentejo, muito bonita e professora de matemática. Tivemos dois rapazes, que têm hoje 53 e 52 anos, e vivemos juntos 20 e tal anos. O mais novo tem dois filhos , o Francisco, que já é engenheiro, e o Henrique , e o mais velho é pai da Isabel. Entretanto, o que o levou a licenciar-se em História? Eu queria aprender mais, além de, talvez por ser mais frágil do que os outros, ter sentido esta necessidade: ou tinha um escape que interpelasse ao meu humanismo ou tornar-me-ia num fascista. Aquele setor da polícia endurece-nos de tal maneira que nos torna insensíveis. A violência vai-nos calejando e nós ou temos um contrabalanço ou podemos cair naquela atitude cruel, fascista, prepotente, brutal, como o que aconteceu na esquadra do Largo do Rato. Como vê a polícia hoje? A polícia é gato e sapato dos procuradores que só complicam. Dizem que dirigem as investigações, mas limitam-se a enviar despachos a dizer investigue-se à Polícia Judiciária ou à PSP. Os polícias trabalham em grande esforço, muitas vezes sem proveito nem para o corpo nem para a alma. A polícia não é reconhecida como deveria. A política só existe por causa da polícia e os últimos governos têm sido um descalabro do ponto de vista da política, vivem presos ao folclore, sem nenhuma ideia para o país. Dizem todos as mesmas vulgaridades, sempre com a ganância de ganhar eleições e manter o poder. Transformam-se nos caciques do século XIX. Precisamos de homens com talento, de estadistas. Tais como? Um Mário Soares, um Sá Carneiro, um Cavaco Silva. Estadistas e não pantomineiros. Aliás, o Chega é um subproduto de toda esta mediocridade. Não se aproveita um. Aquilo é uma loja de chinês, têm tudo. A verdade é que não temos a alternativa de grandeza e qualidade de que o país precisa. O problema é que não se vê um rasgo capaz de nos tirar daqui. Gostou de ver António José Seguro chegar a Belém? Ele chegou a Belém porque se percebeu que podia vir aí o apocalipse. Se o outro rapaz ganhasse as eleições seria a destruição do país em três tempos e as pessoas tiveram essa consciência. Como conheceu a sua mulher, a [atriz] Filomena Gonçalves? Já a tinha visto representar, mas conhecemo-nos no refeitório dos estúdios, em Vialonga, em 1994. Ela estava a fazer a novela Desencontros [RTP], que eu tinha escrito com o Luís Filipe Costa. Mas só começámos a namorar mais tarde, casámo-nos em 1997 e tivemos a Matilde, que está com 28 anos. Nos anos 90, quando começou a escrever argumentos para televisão, saiu da polícia? Eu já escrevia para a televisão antes de entrar para a polícia. O meu primeiro filme foi Morte dHomem, com o Luís Filipe Costa, em 1977 ou 78, e que ganhou uma série de prémios internacionais. Saí da polícia porque na altura fui convidado para dar aulas na universidade. Se continuasse, tinha de deixar de ser investigador e ir para a gestão de recursos fazer escalas de férias e mandar os carros à oficina, e isso não me realizava. Eu gostava da ação, da adrenalina. Em 1998, a série Ballet Rose, escrita por si e por Felícia Cabrita, foi um êxito. Estava à espera? Não estava à espera que fosse tão violento. Caiu tudo em cima de mim com ofensas, ameaças e insultos, ainda antes de a série ir para o ar, porque envolvia gente poderosa e da Igreja. A estreia foi à meia-noite e teve mais audiência que o Telejornal. Foi uma investigação feita pela PSP, na época, porque era um caso de prostituição. A conclusão do julgamento é interessantíssima: os homens foram todos absolvidos e as mulheres todas condenadas. O livro Ballet Rose vendeu milhares de exemplares. A sua experiência como investigador inspirou-o na escrita? A minha primeira grande série, em audiências, foi Os Polícias [RTP, 1996], em que remontei a procura do estripador de Lisboa. Recebeu vários prémios e obteve grandes audiências, ainda mais do que o Ballet Rose. Os mais de 20 anos em que escreveu para televisão deram-lhe segurança financeira? Alguma, mas não sou um homem rico, nem perto disso O que ainda gostaria de escrever para televisão? Não sei tenho estado tão embrenhado nos meus romances que não penso nisso. Mas o meu último livro, Agora e na Hora da Nossa Sorte, dava uma série do caraças. Ainda houve alguém de uma estação que me desafiou a apresentar o projeto, só que na altura eu estava muito em baixo fisicamente Em 2022, na Feira do Livro de Lisboa, sofreu um enfarte a que sobreviveu por milagre. Acha que foi por acaso? É outra situação que parece obra do destino Estava bem disposto, fui comer uma fartura e estive na conversa antes de começar a sessão de autógrafos, depois fui para a minha mesa, dei dois autógrafos e cai para o lado, no colo da minha editora, morto. Sem ter um vómito, uma dor do peito ou no braço, nenhum sinal de enfarte. Mas foi logo socorrido. Por um cardiologista que estava com a família a passar no pavilhão da Leya e que me devolveu à vida, com uma massagem cardíaca. Por sorte, mesmo atrás de nós estava uma ambulância do INEM, com um desfibrilhador, e fui levado para o hospital de Santa Marta, que é logo ali, onde fui operado pelo professor José Fragata, uma referência na cirurgia cardiotorácica. Tive a sorte de estar no sítio certo para não morrer. Dias depois é que tomei consciência e percebi que estava no hospital, sem me lembrar de nada. Como é a sua relação com a espiritualidade? É forte. Com a Igreja, não. A minha religiosidade é cívica, laica. Materializa-se através da minha relação com os outros, através da dádiva, do encontro. Sou muito franciscano, tenho essa relação com o outro e quando digo o outro, falo de homens, de mulheres, de gatos, de cães ou de pássaros. O que mudou o enfarte na sua vida? Eu fumava desbragadamente, cerca de dois maços por dia. Não deixei o tabaco, com autorização do médico porque a dependência me provoca ansiedade. Mas o que fumo não tem expressão. Hoje foram só dois cigarros Quando estava ainda a convalescer, há dois anos sofreu um grave acidente. Como aconteceu? Fui atropelado pelo meu próprio carro que estava destravado, numa subida, e que me destruiu a perna direita. Fiquei muito em baixo porque já eram azares a mais. Fiz três cirurgias reconstrutivas e alimentava-me a Tramadol [analgésico]. Recuperei a minha autonomia, faço a minha vida mais ou menos normal, mas não posso andar muito, tenho muita dificuldade em subir ladeiras e imensas dores. Mas já me habituei a viver com elas. Como é a sua rotina? É repartida entre livros que leio e que escrevo. Na televisão, vejo os canais de cinema, e um ou outro programa, mas pouco. Há indivíduos que estão proibidos de entrar na minha casa, como os do Chega, porque não estou para ouvir imbecilidades. Mas não são os únicos. Ainda vai a Moura com frequência? Muito pouco, porque perdi a minha família toda. Lembro-me muito dos meus pais, sobretudo da minha mãe, que era o meu colo de afeto , partiu com 70 anos, como eu era para ter morrido, do coração. Custou-me muito. O meu pai, que morreu na pandemia, com 98 anos, marcou-me do ponto de vista da disciplina e do prazer da leitura. Adorava ir com ele à biblioteca itinerante da Gulbenkian, que ia a Moura de 15 em 15 dias. Foi presidente da Câmara de Santarém, entre 2005 e 2012. Voltaria a meter-se na política? Não. Gosto da gestão e das pessoas, mas fiquei com um horror tremendo das clientelas partidárias, que são do mais medíocre e incapaz que pode haver. São de uma fúria de poder que se tornam verdadeiramente selvagens. As piores pessoas que conheci foi na política. A sua vida teria sido a mesma se não fosse membro da Maçonaria? Fui convidado para entrar na Maçonaria, com 29 ou 30 anos, por um grande amigo, que já morreu, o professor Santinho Cunha, que foi um dos grandes sábios da medicina e uma figura veneranda do Grande Oriente Lusitano. Estive na loja dele muitos anos, mas nunca vi tráfico de influências nas lojas maçónicas. Nunca vi outra coisa que não fosse discutir pranchas sobre filosofia e religião, algumas antirreligiosas, e contactos com outras obediências do mundo. É um arrumo intelectual e espiritual. Deixou a Maçonaria? Já não vou lá há alguns anos porque deixei de ter condições físicas. Conheci lá gente com muito valor. Os que entram à procura do tacho acabam por sair porque o propósito não é esse. A Maçonaria não tem a importância política que lhe é dada. Isso é falso. Foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique, por Cavaco Silva, em 2009. Onde a tem? Está num dos meus fatos que não uso. Claro que fiquei muito orgulhoso de ter sido distinguido pela República. Mas é só isso. Já fui muitas vezes homenageado, só não fui reconhecido em Lisboa, sobre a qual tenho escrito tanto. Ao menos podiam me mandar um cacho de bananas. Nesta fase da vida só faz o que lhe apetece? Sim e a única coisa que me apetece é escrever mais um romance, desta vez sobre a Primeira República, que foi o encanto de todos os encantos, mas em que a mediocridade se instalou. Estou a estudar porque é uma época muito complicada, com muitos governos e muita rebelião. Sónia Bento 19 de maio de 2026 às 23:00 Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login. Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito. Sónia Bento