ESTUDO REVELA QUE PORTUGUESES POUPAM PARA ENFRENTAR IMPREVISTOS NO CURTO PRAZO MAS DESVALORIZAM O LONGO PRAZO
2026-05-20 21:06:04

Estudo do BPI Vida e Pensões, que será apresentado esta quarta-feira em Lisboa, analisa como investem os portugueses e quais as barreiras que enfrentam, num contexto em que a esperança média de vida está a aumentar, criando desafios para o futuro Os portugueses têm dificuldade em fazer um pé de meia para complementar a pensão de reforma. Até fazem algumas poupanças, mas sobretudo de curto prazo, conclui um estudo feito pelo BPI Vida e Pensões, entidade que comercializa produtos de poupança e PPR. O estudo, que se baseou num inquérito a 802 pessoas e num trabalho junto de outros 54 participantes, procura compreender como os portugueses encaram o seu futuro e a possibilidade de investir no seu bem-estar antes e depois da reforma. Ter um complemento para a reforma tem sido um dos assuntos mais falados nos últimos anos. As previsões de várias entidades sugerem que quem se for reformar daqui a 15 ou 20 anos receberá pouco mais de 38% do último salário bruto (atualmente a taxa de substituição está nos 70%). Nessa altura serão mais as pessoas que estarão a receber pensões de reforma do que as que estão no ativo, o que coloca uma elevada pressão sobre o pagamento das pensões. "As pensões de reforma tenderão a ficar significativamente abaixo do último salário, sobretudo para pessoas que tiveram progressões relevantes de carreira“, refere o estudo, que indica que ”seis em cada dez portugueses fazem poupanças sobretudo centradas no curto prazo e não para complementar o rendimento na reforma". "A crescente longevidade da população portuguesa não está a ser acompanhada por um planeamento individual estruturado para assegurar a qualidade de vida nos anos adicionais", sublinha o estudo do BPI Vida e Pensões. "Na área do investimento financeiro, seis em cada dez portugueses poupam atualmente, mas sobretudo a pensar em imprevistos de curto prazo e não no complemento dos seus rendimentos na reforma", revela a mesma pesquisa, realizada entre março e maio de 2025. "Estamos a viver um momento único na história, em que a expectativa de vida aumentou significativamente, permitindo-nos gozar tempo de qualidade", afirma Isabel Castelo Branco, CEO (presidente executiva) do BPI Vida e Pensões. Mas Isabel Castelo Branco alerta que "não estamos mentalizados para preparar esse tempo, porque a sociedade de vidas longas é um fenómeno recente". "Por isso, é importante tomar consciência de que há ações que estão no nosso controlo que nos podem ajudar a preparar esse futuro mais longo com maior qualidade de vida", nota. A presidente executiva do BPI Vida e Pensões não é parte desinteressada na matéria, já que comercializa produtos de poupança e seguros e complementos de reforma, como os PPR. Mas o seu diagnóstico está em linha com o de entidades como a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF). Os resultados do estudo, cuja coordenação esteve a cargo da professora universitária e demógrafa Maria João Valente Rosa, "revelam uma visão geralmente positiva sobre o futuro, mas apelam a uma reflexão sobre a necessidade de um investimento mais abrangente, que inclua não só a dimensão financeira, mas também a saúde, as relações sociais e os espaços de vida". Os portugueses, ainda que "conscientes da sua maior longevidade e da necessidade de investir na saúde pessoal a longo prazo", “valorizam menos outros fatores importantes para o bem-estar, como as relações sociais ou o investimento nos espaços onde vivem”. "A fragilidade do sistema de pensões e a tendência de a primeira pensão ser significativamente inferior ao último salário reforçam a urgência de uma preparação financeira atempada", aponta o estudo. Saúde é mais valorizada do que investimento adicional para a reforma Os inquiridos acreditam que vão viver em média até aos 84 anos, o que corresponde a um "horizonte muito próximo da esperança de vida real", frisa o estudo, que também sublinha que os inquiridos "antecipam uma deterioração da saúde por volta dos 66,5 anos, o que prolonga o período de vida dependente de pensões e poupanças acumuladas". Mesmo assim, "apenas 50,6% dos inquiridos admitem pensar regularmente no futuro a longo prazo, enquanto 67,3% consideram útil fazê-lo". São percentagens que revelam "um desfasamento entre a perceção da importância do planeamento e a sua concretização", de acordo com o trabalho do BPI Vida e Pensões. No que diz respeito a poupar para a reforma, o estudo vem confirmar que esta programação “permanece reduzida, com apenas 22,1% dos inquiridos a referirem possuir um Plano de Poupança Reforma (PPR)", e a confirmar a tendência conservadora dos investimentos, concentrando a poupança que fazem "em instrumentos de baixo risco, como depósitos e produtos de capital garantido, com menor potencial de valorização ao longo do tempo". Dos três perfis de comportamento dos portugueses identificado pelo estudo em relação ao investimento no seu bem-estar, "22,2% assumem uma abordagem estruturada de investimento, 17,6% privilegiam o presente e 60,2% consideram que o melhor é conciliar as duas opções". De acordo com o estudo, 63,3% dos portugueses que poupam dizem que esse mealheiro "destina-se sobretudo a fazer face a imprevistos e não a complementar o rendimento na reforma“. E há um motivo: ”a falta de capacidade financeira surge como o principal obstáculo ao investimento no futuro". O estudo do BPI alerta para o facto de mesmo com montantes baixos a poupança ter um efeito multiplicador. Segundo cálculos da BPI Vida e Pensões, "uma poupança mensal de apenas 30 euros (360 euros anuais) investida em instrumentos com retornos médios de 5% (com mais risco) durante 40 anos, pode gerar um valor final 2,5 vezes superior face a instrumentos de baixo risco com um retorno médio de 1%". E conclui que o investimento a longo prazo pode compensar, já que no exemplo indicado "a poupança pode chegar aos 46.149 euros, enquanto no segundo caso se fica pelos 18.140 euros". A saúde e as finanças lideram as prioridades dos portugueses, face aos outros dois eixos que o estudo também refere, relativos às "relações sociais e espaços e ambientes onde se vive", mas as barreiras esbarram na capacidade financeira. Os seguros de saúde registaram nos últimos anos um crescimento exponencial, devido aos constrangimentos na resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS). "Mais de metade dos portugueses já adotou comportamentos de investimento em saúde, como alimentação e vida saudável (58,1%) e consultas médicas regulares (56%), evidenciando uma maior proatividade nesta área face às restantes dimensões", conclui o estudo. "As projeções da Comissão Europeia apontam para um aumento do peso no PIB das despesas com pensões até um máximo de 15% do PIB em 2046, sendo expectável que a primeira pensão seja inferior ao último salário, sobretudo em carreiras contributivas mais recentes", pode ainda ler-se no mesmo trabalho. O BPI Vida e Pensões recorreu a um estudo qualitativo com focus groups em Lisboa e Porto com 54 participantes, realizado em março de 2025, e um estudo quantitativo com 802 entrevistas a residentes em Portugal Continental, realizado em maio de 2025. Isabel Vicente Jornalista Isabel Vicente