INTERPRETAR OS ALERTAS DO IRÃO: ENTRE UMA AGENDA ANTI-ISRAELITA “DE LONGO PRAZO” E A DISPOSIÇÃO PARA “ESCALAR”
2023-10-19 10:36:05

Há avisos públicos de que um ataque a Gaza abriria “novas frentes de resistência”, telefonemas bilaterais e um apelo de embargo a petróleo. As movimentações de Teerão na esfera internacional são vistas como forma de aumentar a pressão sobre Israel. Mas não são de interpretação única. Há quem diga que a República Islâmica “não tem intenção de se juntar à guerra”, outros entendem-na disposta a levar a situação a outras proporções a nível regional O confronto entre o Hamas e Israel não está contido. Para lá das linhas geográficas que há décadas geram tensões , e vítimas ,, foram surgindo ao longo das últimas duas semanas outros atores com interesses na região. Um dos mais audíveis tem sido o Irão, com um tom de ameaça que cresce paralelamente aos receios de ofensiva terrestre israelita na Faixa de Gaza. Numa altura em que Gaza enfrenta bombardeamentos em retaliação pelo ataque do Hamas de 7 de outubro e um cerco que limita o acesso de cerca de dois milhões de pessoas a água, comida e eletricidade, o Irão deixou um alerta a Israel: a continuidade de agressões contra palestinianos levaria a uma escalada e um ataque à Faixa de Gaza abriria “novas frentes de resistência” no Médio Oriente. “Se as agressões sionistas não pararem, as mãos de todas as partes na região estão no gatilho”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Hossein Amirabdollahian, citado pela agência Reuters. No seguimento do ataque a um hospital em Gaza , de que Israel e as milícias palestinianas se acusam mutuamente ,, o porta-voz do Ministério iraniano defendeu que a comunidade internacional deve “investigar as dimensões deste crime de guerra e processar os sionistas criminosos”. Apesar do endurecimento do discurso, Alex Vatanka, do Middle East Institute, acredita que nem o Irão, nem Israel, nem os Estados Unidos pretendem que a guerra se expanda. No seu entender, pese embora a reação de satisfação do Líder Supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei, ao ataque do Hamas, Teerão “não tem intenção de se juntar à guerra” e apela ao Ocidente para também não se envolver. “A agenda anti-israelita do Irão é um plano de longo prazo e destina-se a enfraquecer Israel militar, diplomática e psicologicamente ao longo dos anos, talvez das próximas décadas”, respondeu por escrito ao Expresso. Nem todos os especialistas têm esta visão. Telefonemas e viagens diplomáticas De que forma pode o Irão envolver-se numa escalada da guerra? Tiago André Lopes, da Universidade Portucalense, indica vários cenários e frisa que os níveis políticos do Irão (Governo, Presidente e Conselho Supremo) estão envolvidos na questão. Destaca que tem havido chamadas telefónicas bilaterais com chefes de Estado, de França à China, e que o país tem adotado “um discurso muito assertivo”. “O Irão está à espera de que a comunidade internacional atue, e parece-me que espera que atue rapidamente. Está disponível para aumentar a pressão diplomática sobre Israel”, disse o docente ao Expresso. Aos telefonemas juntaram-se viagens do ministro dos Negócios Estrangeiros a países da região. “Há a perceção de que o Irão está disposto a escalar isto para um conflito regional. Um conflito regional tem a desvantagem de ser caro, mas tem uma vantagem para o Irão: se não se conseguir provar o seu envolvimento direto, trava numa guerra que não tem fronteira próxima”, comenta Lopes. O académico acrescenta que essa hipótese seria “útil” ao regime iraniano para pôr fim aos protestos internos que emergiram no ano passado, desencadeados pela morte da jovem Mahsa Amini, agredida e detida pela polícia da moralidade. “Virava a atenção toda para um inimigo saliente, que é Israel. Nesta fase não excluía que o Irão estivesse disposto a financiar ativa e demoradamente as várias milícias e fações palestinianas para irem a jogo”, admite. Erdogan prefere contenção Se o regime iraniano poderia beneficiar de um alargamento do conflito, o mesmo não se aplica à Turquia. O académico aponta que perante a proximidade da guerra da Ucrânia, a Turquia é dos países islâmicos com menor interesse num novo conflito. E já deu uma sugestão para preveni-lo. Segundo o jornal turco “Hurriyet Daily News”, Ancara propõe a aplicação da solução dois Estados, aliada a um modelo de garantias. Associados à Palestina ficariam países da região , entre os quais a Turquia ,, enquanto Israel ficaria associado a outros países. Esses países “assumem a responsabilidade pela adoção de um acordo a que os dois lados dão consentimento”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros turco. “Se Israel quer estar em segurança e paz prolongada, os palestinianos devem ter o seu próprio Estado.” Hakan Fidan deixa a proposta aberta a alterações e indica que as negociações podiam decorrer sob a égide da ONU ou de qualquer outro mecanismo. Para Tiago Lopes, “a Turquia já percebeu que uma das formas de tentar resolver isto é devolver dignidade ao processo negocial”, com um processo “sério para retirar vontade de ir para o combate”. Sem provas de envolvimento direto No seguimento das atrocidades cometidas pelo Hamas, o Irão foi dos primeiros atores regionais escrutinados. Em causa estavam dúvidas sobre o seu papel no ataque, que surpreendeu os serviços secretos israelitas. O Líder Supremo negou o envolvimento do país no ataque, mas saudou o que considerou uma derrota militar “irreparável” de Israel. Tanto os Estados Unidos como Israel disseram que não há provas de que o Irão tenha sido o centro operacional do ataque executado pelo Hamas, apesar de ser conhecida o apoio iraniano ao grupo islamita. “Teerão e Hezbollah já podem declarar o 7 de outubro como vitória estratégica contra Israel, e até ao momento foram capazes de negar um papel direto no ataque”, observou Vatanka. O analista observa que esta negação pretende manter estes atores fora do conflito e “preservar os 150 mil mísseis do Hezbollah como dissuasor de longo prazo e projeção de poder sobre Israel”. Aliado regional do Irão, o Hezbollah é um movimento xiita do Líbano que desde o início da guerra já lançou rockets contra postos israelitas na zona das quintas de Shebaa, área que reivindica como território libanês. Tiago André Lopes considera que os Estados Unidos procuraram ser “cautelosos” e entende ser “muito provável” que não tenha havido envolvimento do exército iraniano no planeamento do ataque do Hamas. O desconhecimento alargar-se-ia ao dia da ação. “Interessa ao Irão não saber, para poder jogar essa carta do ponto de vista diplomático, é uma salvaguarda diplomática.” Um jogo fora do terreno: embargo ao petróleo A Reuters escreve que o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão defendeu que os membros da Organização para a Cooperação Islâmica (OIC, na sigla em inglês) deveriam sancionar e impor um embargo de petróleo a Israel. A par disso, apelou à expulsão de embaixadores israelitas. Quarta-feira decorreu um encontro urgente da OIC para discutir o conflito. Tiago Lopes não exclui a possibilidade de embargo e observa que uma redução da produção seria “uma forma de punir o Ocidente”, bem como de aumentar a margem de lucro de países como a Rússia. No entanto, a Reuters noticiou que quatro fontes indicaram que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que inclui países árabes, não planeia qualquer encontro extraordinário a pedido do Irão. Anteriormente, o secretário-geral do Conselho de Cooperação do Golfo disse que o petróleo não devia ser utilizado como arma. Salomé Fernandes jornalista da secção internacional