COM NORTE: A CORRIDA NOS MATERIAIS
2026-05-19 21:06:10

Do automóvel autónomo ao telemóvel, das vacinas à inteligência artificial - as sociedades modernas dependem cada vez mais de uma corrida invisível: a dos materiais avançados. Além da melhoria incremental de metais, polímeros, cerâmicos e seus compósitos, assinalam-se desenvolvimentos-chave em materiais estruturais e funcionais - como ligas ultraleves, vidro metálico (ligas metálicas amorfas), metamateriais de microestrutura artificialmente projetada, materiais autorreparáveis, biomateriais e aerogéis; em materiais para gestão e armazenamento de energia, incluindo semicondutores de nova geração, materiais bidimensionais, como o grafeno, e materiais de mudança de fase; e nos materiais quânticos, cujas propriedades emergem de fenómenos quânticos coletivos - como nanocristais semicondutores, supercondutores de alta temperatura à base de cupratos e isolantes topológicos. Numa competição condicionada pelo acesso às matérias-primas de base, os EUA lideram em semicondutores, materiais quânticos e biomateriais; a China destaca-se no grafeno, materiais estruturais e de produção em escala; o Japão e a Coreia do Sul nos cerâmicos, polímeros funcionais e materiais para eletrónica e energia. A UE aposta na excelência científica e na sustentabilidade, procurando autonomia estratégica nas cadeias de valor críticas. Em Portugal, onde a existência de uma base científica relevante contrasta com uma indústria ainda limitada em materiais de elevado valor acrescentado, urge um maior alinhamento entre políticas de ciência, inovação e industrialização. Os materiais avançados são essenciais às transições verde e digital, à competitividade industrial, à resiliência das cadeias de valor e à soberania tecnológica. Globalmente, enfrentam pressão inédita resultante da convergência entre fragmentação geopolítica, aceleração tecnológica e constrangimentos ambientais e climáticos na extração, produção, fabrico e fim de vida. Por isso, uma cooperação internacional efetiva exige, para além de financiamento, capacidades institucionais e inteligência estratégica; requer maior coordenação a montante entre ciência, indústria e regulação; e implica abordagens "safe by design" e "sustainable by design" em todas as fases da inovação. Nesta competição, a IA acelera a descoberta e a otimização de novos materiais, enquanto os sistemas digitais dependem de materiais mais eficientes para computação e gestão energética. Também a computação e os sensores quânticos exigem materiais com coerência excecional, defeitos ultracontrolados e propriedades eletrónicas não clássicas, tornando a ciência dos materiais um fator crítico das tecnologias de fronteira. Estão em causa grandes domínios da economia contemporânea - mobilidade, comunicações, energia, saúde, aeroespacial e defesa. Quem liderar os materiais do futuro não dominará apenas tecnologias - redefinirá o equilíbrio económico e estratégico do Mundo. António Cunha