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EDITORIAL - EDITORIAL - HÁ NO AR UM CHEIRO A TRAIÇÃO

Diário Insular

2026-05-19 21:03:42

OPovo da Terceira deve orgulhar-se dos seus contributos para a Autonomia, a unidade regional e o desenvolvimento harmónico. Em especial para o desenvolvimento harmónico - desiderato seminal que uniu os açorianos (não todos, porque alguns ficaram a caçar de espera, como agora se percebe) à volta de um projeto que aos poucos vai caindo aos pés de um centralismo catastrófico que transforma os terratenentes de Ponta Delgada e outros “romanizados” (e mais alguns que maldosamente perceberam onde a vaca dá leite...) que por lá gravitam em beneficiários líquidos e insaciáveis de um sistema político incapaz de lhes resistir. Ou conivente, o que é bem pior. Não devem os terceirenses, em qualquer caso, lamentar os contributos muito significativos que têm dado para que ninguém fique para trás. E até para que a Autonomia não tenha definhado afogada em escassez de financiamento. Há muitas provas do que se escreve aqui. Mas por agora fiquemos com o financiamento da Autonomia no seu arranque, quando Lisboa pregava - vício antigo, pelos vistos... - partidas como esta: “...o auxílio financeiro prestado pelo Estado, o qual reveste a natureza de suporte de custos da insularidade e de financiamento dos investimentos constantes do plano regional, é inferior ao custo dos serviços periféricos cujos encargos foram transferidos para o orçamento da Região (saúde e educação)”. in Decreto Regulamentar Regional n.º 20/85/A, de 31 de dezembro. Em tempos destes - os tais tempos em que quase todos acreditávamos no Pai Natal - valeu à Autonomia o dinheiro norte-americano pago pelo uso da Base das Lajes, na ilha Terceira. Entre 1983 e 1991, os Açores receberam quarenta milhões de euros por ano. Por exemplo, em 1986 (ano em que Portugal terá recebido 218 milhões de dólares pelo uso das Lajes) o dinheiro da base equivalia a perto de 22 por cento das receitas orçamentais da Região. Ou seja, sem o dinheiro gerado na ilha Terceira a Autonomia, na pior das hipóteses, ter-se-ia arrastado de pés descalços - isto quanto ao povo, claro, porque os privilegiados, uma pequena elite parasitária, sempre arranjaria as soluções habituais. Para sustentar o sistema, a Terceira deu tudo o que tinha. Pelo meio, a contaminação gerada a partir da Base das Lajes mata que se farta e está incrustada nos ossos sobretudo dos habitantes da Praia da Vitória - e ninguém quer saber. E quando ocorreu o grande downsizing que deixou a Terceira na penúria, também ninguém se interessou, ao ponto de a economia da ilha ser o que é hoje. E ninguém sabe - ou quer saber... - como se sai do buraco. Não devem os terceirenses lamentar-se, repita-se. Acreditámos todos que era assim que as coisas deveriam ser. Fomos nitidamente traídos, como provam os números, as perceções e as narrativas de centralismo impiedoso que hoje andam com o freio nos dentes. Resta criar as condições para o tal hospital central e universitário em Ponta Delgada. Será o golpe final não apenas na saúde, mas no sonho autonomista que a Terceira tão entusiasticamente financiou.