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OPINIÃO - UNANIMIZAR NÃO É SOLUÇÃO

Correio do Minho

2026-05-19 21:03:39

9 Ideias Náo acredito em unanimismos. E não acredito porque se trata de um vocábulo que raramente tem verdadeira correspondência com a realidade. Desse ponto de vista, é ilusório e de certa forma enganador, na medida em que faz passar uma ideia irrealista, uma ideia de unidade que, em boa verdade, é inexistente. Se repararem bem, nem a ditadura derrubada em Abril de 1974 ousou utilizar politicamente tal vocábulo, ciente como estava de que o seu uso seria uma falácia facilmente desmontada. O mesmo ocorre em outras latitudes, onde o regime autocrático foi mais ou menos normalizado. Causa, por isso, enorme espanto o aparecimento no nosso país, de tempos a tempos, de apelos políticos a uma certa forma de unidade, frequentemente contranatiira e tamhém por essa razão hastante identificável com os princípios do tal unanimismo. Formam, ou pelo menos tentam formar, grupos políticos que de comum apenas terão interesses pessoais e/ou de grupo. No plano do conteúdo ideológico e programático, assemelham-se aos famosos albergues espanhóis, locais onde cabe toda a gente, mas sem a necessária coesão. Ou seja, sobram vaidades pessoais e ambições desmedidas, mas falta a coerência ideológica. O único objectivo, mais ou menos declarado, é alcançar o poder, em alguns casos para logo reverter o regime para uma autocracia. O exemplo que certamente surge logo no pensamento de quem me lê, será porventura o do único partido uninominal existente no nosso espectro político. Infelizmente, porém, sobram exemplos de práticas mais ou menos similares, embora não com objectivos políticos tão definidos e tão exteriores ao regime democrático. Lamento, contudo, que o insuspeito Par-tido Socialista, um dos fundadores do regime democrático em Portugal, também esteja, aparentemente, a enveredar por uma via que comporta algumas similitudes. e digo isto com grande mágoa e enorme incredulidade, até porque as posições políticas de José Luís Carneiro, personalidade por quem nutro grande apreço pessoal, contrastam claramente com o estilo mais ideológico de Pedro Nuno Santos, cuja liderança levou o PS a eleições antecipadas e à maior derrota de sempre. Aliás, ainda há dias, o secretário-geral dos socialistas manifestou publicamente total concordância com o emnresário bracarense José Teixeira, o qual considera que a contrarreforma laboral é um passo atrás. e esta, segundo o CEO do DST Group, não é apenas uma questão política, é uma questão de respeito por quem todos os dias faz o país crescer. A esse respeito, José Luís Carneiro garantiu, e muito bem, que ele próprio e o Partido Socialista não permitirão o desmantelamento de direitos que levaram décadas a conquistar, lembrando que inovar não é precarizar, e que evoluir não é retirar protecções. Creio que uma boa parte dos eleitores socialistas se identifica com a linha política que Carneiro tem vindo a seguir, razão pela qual considera o actual secretário-geral como alguém com reais capacidades de assumir a governação do país. Embora ainda num processo de redefinição do posicionamento do PS, para ultrapassar os péssimos resultados eleitorais de 2025, a verdade é que já se verifica, actualmente, um enorme distanciamento ideológico em relação a Pedro Nuno Santos. Ainda se nota, é certo, um forte traço de proximidade com António Costa, mas esse não será, certamente, o maior peso que Carneiro carrega. O que mais incomoda, e penso que esta não é uma preocupação exclusiva da minha pessoa, é o apelo que o secretáriogeral do partido fez há dias para a constituição de listas únicas. Pelos vistos, a expectativa do líder do PS é a de que possa haver acordos para listas únicas, de modo a evitar batalhas entre as eventuais fações. Nesse sentido, terá havido, por parte do secretário-eral indicacões claras em certos distritos, para a importância de encontrar uma solução de unidade para o PS poder, a breve prazo, recuperar câmaras municipais que perdeu em 2025. Tratando-se, como é o caso, de eleições internas, o que José Luís Carneiro está a propor, aconselhar ou determinar, é a completa exclusão do debate de ideias, afastando a discussão política entre as várias tendências, que são a riqueza do PS. Mau, muito mau! A ideia que transparece, é a de que existe uma certa incerteza, para não dizer receio, quanto ao futuro da direção do partido. Creio que o secretário-geral está equivocado, uma vez que juntar todas as tendências, como está a acontecer, não constitui garantia de silenciar as vozes dissonantes. Aliás, calar a oposição interna à custa da distribuição de lugares e/ou benesses, constitui um erro crasso que descaracteriza completamente o partido, além de corresponder a uma postura que deixa muita a desejar, do ponto de vista da vivência democrática. José Luís Carneiro não pode ignorar que num partido democrático, estatuto que o PS se orgulha de possuir, o diálogo e a discussão política são fundamentais, na medida em que permitem o confronto entre diferentes ideias e visões da sociedade. Se o debate for extirpado, como parece ser a ideia que está a ganhar força, é óbvio que o partido e a própria democracia perdem um dos seus fundamentos, isto é, a participação dos cidadãos e, com isso, a possibilidade de escolher entre alternativas. Naturalmente, recuso-me a acreditar que venha a normalizar-se uma prática tão absurda, pois dessa forma iria perderse o ambiente de diálogo, que é a base da construção dos consensos, os quais, até para o exterior, acabam por dar maior legitimidade às decisões. Convirá tamhém 1emhrar por OTtro lado, que os militantes não são meros executores de ordens, nem servem apenas para pagar quotas, colar cartazes e encher comícios. Assiste-lhes o direito de participar no projecto político, através do debate das propostas, contribuindo dessa forma para uma maior transparência e representatividade do partido perante a comunidade. Longe vai o tempo em que O PS abriu o partido à sociedade civil, promovendo reuniões públicas e debates. Todos se recordarão, com indisfarçável saudade, dos Estados Gerais para uma Nova Maioria, lançados em 1995, sob a liderança de António Guterres, para debater ideias inovadoras com cidadãos fora da estrutura tradicional do partido, ajudando assim a construir o programa eleitoral. Foi uma iniciativa de grande sucesso, o que levou à reedição deste formato, primeiro sob a liderança de Ferro Rodrigues, e, mais tarde, no tempo de Pedro Nuno Santos. Está na hora de insistir nas fórmulas de sucesso. JORGE CRUZ Jornalista (o autor escreve em total desacordo e intencional desrespeito pelo dito Acordo Ortográfico, declarando-se objector do mesmo). JORGE CRUZ