APÓS COUVE STARMER, HAVERÁ UM “RADICAL” EM WESTMINSTER?
2026-05-18 21:09:18

Anacrónica Há muitos anos, um amigo meu quis descrever politicamente um outro e disse: “É uma couve”. Agora, enquanto andava a pensar em vegetais para caracterizar Keir Starmer, por causa da alface de Liz Truss, lembrei-me da metáfora da couve. A “couvificação” dos partidos sociais-democratas tem no primeiro-ministro do Reino Unido um excelente exemplar. Do escândalo Mandelson ao discurso “da ilha de estranhos” e à política económica, Starmer provou que não é carne nem é peixe sim, uma couve. Wes Streeting, o ministro da Saúde que saiu do Governo esta semana para se candidatar à liderança do partido (as sondagens não lhe dão muitas hipóteses) apontou na sua carta de demissão o problema de base do Labour que o resultado das eleições de 8 de Maio reflectiu: “O país não sabe quem nós somos nem o que defendemos”. Pois não. Ouvir Starmer a falar de imigração não é muito diferente de ouvir Nigel Farage e os britânicos preferiram o original à cópia (à atenção do governo Montenegro). E eis que entra em campo Andy Burnham, o “mayor” de Greater Manchester. Um homem do Norte que em 2017 abandonou Westminster, um sistema que hoje diz ser “opressivo”. Na sua t-shirt ou camisa preta, blusão popular, calças de ganga negras e às vezes ténis há uns tempos deu uma entrevista à BBC onde se viam nitidamente as sapatilhas Burnham aparece hoje como um “anti-Starmer”, capaz de falar às pessoas comuns. Quer redireccionar o Labour para a “working class”, a classe trabalhadora, o eleitorado para o qual o partido foi criado. A maioria absoluta que Starmer conseguiu há dois anos foi alcançada apenas com 33,7%, devido ao sistema eleitoral britânico desproporcional. E isto após vários anos de desgaste do Partido Conservador e da derrocada de vários primeiros-ministros. Andy Burnham, muito popular nas sondagens, ataca a desregulação que se iniciou nos tempos de Thatcher e quer nacionalizar os transportes (como fez, com sucesso, em Greater Manchester), a água, a energia e também a habitação, através de um programa de construção pública. O mayor de Greater Manchester quer objectivamente reconquistar os eleitores que votaram Reform. Aponta a desindustrialização do Reino Unido e as privatizações como causa para o descontentamento da classe trabalhadora que migrou dos partidos tradicionais para o partido de Nigel Farage, acusando vários dirigentes do Reform de serem, naquele tempo, grandes defensores das políticas de Thatcher. Os seus detractores dizem que a viragem à esquerda de Andy Burnham é apenas estratégica: em jovem, foi assessor do governo Blair. Depois, grande apoiante de Gordon Brown. Candidatou-se em 2015 contra Jeremy Corbyn e perdeu. Esteve dois anos no Governo sombra de Corbyn (a que tamno bém pertencia o homem que no poder procedeu às purgas de Corbyn e apoiantes, Keir Starmer) e depois rumou a Manchester. Agora, não vai ser fácil ao agora “radical” Andy entrar em Downing Street. Como o sistema inglês não permite que alguém seja primeiro-ministro sem primeiro ser eleito deputado, esta semana um parlamentar decidiu demitir-se da sua circunscrição e abrir espaço para o regresso de Burnham. Acontece que a circunscrição em causa Makerfield, perto de Manchester é bastante difícil de ganhar. O Reform é o partido favorito. Os Verdes não seguiram o conselho de sua anterior líder para desistir a favor de Burnham e vão dar luta. Uma derrota acabará com as aspirações de Burnham de vir a ser primeiro-ministro, mas uma vitória num círculo quase impossível vai coroá-lo. Depois de uma prova de fogo superada, todo o partido defenderá a eleição de Burnham para substituir Keir Starmer, como dizia um dirigente anónimo do Labour à BBC. Há qualquer coisa de recuperaçãode O espírito de 45 o título do filme de Ken Loach, também ele alvo da purga de Starmer, sobre a eleição do Partido Trabalhista em 1945 neste programa político de Andy Burnham. Num perfil na New Statesman publicado em Setembro de 2025, Burnham dizia identificar-se com Aneurin Bevan, o fundador do Serviço Nacional de Saúde e representante da ala esquerda do Labour. Os mercados já estão nervosos, a libra caiu, “um sinal de que Andy Burnham é o candidato menos amigo dos mercados”, segundo uma analista citada pelo Guardian. Pode um “radical”, ou neo-esquerdista segundo os seus inimigos, que também o gozam pelos jeans, sapatilhas e uso de linguagem popular, entrar em Downing Street? E se lá entrar consegue dizer alguma coisa de esquerda? A política britânica será um laboratório sobre as hipóteses de recuperação ou não da social-democracia. Jornalista Ana Sá Lopes