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ENVELHECER MELHOR NÃO SE RESUME APENAS A VIVER MAIS ANOS. A TECNOLOGIA PARA REDUZIR AS DOENÇAS CRÓNICAS É IGUALMENTE IMPORTANTE

TVI Online

2026-05-18 21:09:15

É emocionante pensar em seres humanos biónicos que descobriram a fórmula para travar o envelhecimento. Mas talvez menos glamoroso e muito mais importante para a questão da longevidade seja o combate às doenças crónicas. Cerca de seis em cada 10 jovens adultos nos Estados Unidos afirmam ter uma ou mais doenças crónicas, mas na terceira idade esse número sobe para 9 em cada 10, de acordo com um estudo de 2025. Mesmo que as pessoas procurem métodos para prolongar a sua vida, doenças como as cardiopatias, a diabetes, os acidentes vasculares cerebrais e o cancro são os principais fatores de mortalidade e incapacidade, especialmente na terceira idade. Enquanto uma onda de investidores em tecnologia promove dispositivos, suplementos e programas concebidos para fazer as pessoas sentirem que vão viver para sempre, a jornalista Kara Swisher tem vindo a investigar os métodos que realmente conduzem a vidas longas e saudáveis na sua série “Kara Swisher Wants to Live Forever”. O seu último episódio, que estreou no sábado, 2 de maio, às 21h00 (hora da costa leste dos EUA), investiga os avanços médicos que oferecem alguma esperança contra as doenças crónicas para uma maior parte da população. “O que me interessa é aumentar a longevidade para toda a gente”, diz Swisher. “Longevidade saudável, não apenas longevidade pela longevidade. É longevidade para uma vida boa e saudável, e para que não se morra de doenças estúpidas. É tão evitável.” Pense nisso de forma semelhante à forma como a melhoria das condições sanitárias fez com que as gerações posteriores nos Estados Unidos não tivessem de sofrer com a cólera, explica. Ou como os medicamentos que hoje podemos tomar por garantidos transformaram doenças potencialmente fatais em doenças com tratamentos fiáveis, acrescenta Steven Austad, diretor científico da Federação Americana para a Investigação sobre o Envelhecimento e professor emérito e titular da cátedra de investigação sobre o envelhecimento saudável na Universidade do Alabama, em Birmingham. “Os antibióticos mudaram tudo, e estes podem potencialmente mudar tudo”, destaca Austad, referindo-se aos mais recentes avanços médicos contra as doenças crónicas. O elo entre adoecer e envelhecer Muitos dos empreendedores tecnológicos que investem no setor da longevidade interpretam mal a ciência do envelhecimento, sublinha Austad. Acima de tudo, não compreendem que não existe um código simples para decifrar e que a biologia subjacente ao processo de envelhecimento é complexa. O envelhecimento é algo que acontece a toda a gente, mesmo às pessoas mais saudáveis, e torna-as mais vulneráveis ao desenvolvimento de doenças crónicas, afirma. “O envelhecimento não é uma doença, mas torna-nos mais vulneráveis às doenças.” O envelhecimento não só torna as pessoas mais vulneráveis, como também dificulta a recuperação de doenças crónicas. O envelhecimento pode revelar condições para as quais uma pessoa pode ter predisposição desde o nascimento, adianta Nir Barzilai, presidente da Academia de Investigação em Saúde e Longevidade e professor de medicina e genética na Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova Iorque. Uma pessoa pode nascer com um gene que a torna mais propensa a desenvolver demência, mas os problemas cognitivos só surgirão quando atingir os 60, 70 ou 80 anos, explica Barzilai. “É necessário o processo de envelhecimento para que isso se manifeste”, adianta. Embora as doenças crónicas não afetem exclusivamente as populações mais idosas, a prevenção destas doenças pode significar vidas mais longas e um maior aproveitamento dos anos de vida que se ganham. Um investigador observa o processo da CRISPR/Cas9 através de um estereomicroscópio no Centro Max Delbrück de Medicina Molecular, em Berlim. foto Gregor Fischer/dpa/picture alliance/Getty Images Alterar a resposta do corpo à doença crónica Algumas das tecnologias mais promissoras para a longevidade terão de ser prescritas, e não compradas. A doença de Alzheimer, por exemplo, poderá um dia ser prevenida através de uma tecnologia chamada CRISPR, uma ferramenta de edição genética co-desenvolvida pela laureada com o Prémio Nobel da Química, Jennifer Doudna, que ocupa a cátedra Li Ka Shing em Ciências Biomédicas e da Saúde e é professora de bioquímica, biofísica e biologia estrutural na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Uma proteína atua como uma tesoura, visando o ADN numa célula e fazendo cortes, o que leva a célula a efetuar reparações. E o processo dessas reparações pode alterar o ADN, explica Doudna a Swisher. “Isso abriu a porta. Agora podemos estudar a função dos genes e podemos alterá-los. Pode imaginar pessoas a viverem o mesmo tempo de vida, mas mais saudáveis”, adianta. A edição genética através do CRISPR não é o único avanço médico que poderá ter um impacto dramático nas doenças crónicas. Em laboratórios da costa leste dos EUA, os investigadores estão a trabalhar numa outra ferramenta para a prevenção e o tratamento de doenças, incluindo o VIH, a diabetes e o cancro. Talvez a reconheça da pandemia da Covid-19: as vacinas de mRNA. Como é que uma vacina trata uma doença crónica? O principal componente, o ARNm (ARN mensageiro), transmite mensagens às células do corpo, que podem incluir a produção de proteínas que ensinam ao sistema imunitário aquilo que deve atacar (como vírus ou células cancerígenas), instruem o corpo a produzir uma proteína em falta ou com disfunção, ou até corrigem erros genéticos, explica Kathryn Whitehead, professora nos departamentos de engenharia química e engenharia biomédica da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh. As vacinas de mRNA contra o VIH já estão a ser preparadas para entrar em ensaios clínicos este ano, e as vacinas contra o cancro têm vindo a ser submetidas a ensaios clínicos, acrescenta Jilian Melamed, professora assistente de investigação na divisão de doenças infecciosas e no Instituto para a Inovação em RNA da Universidade da Pensilvânia. Um primeiro ensaio realizado este ano revelou que sete das oito pessoas que apresentaram uma resposta imunitária a uma vacina de mRNA contra o cancro do pâncreas sobreviveram até seis anos após o seu último tratamento, em contraste com a taxa de sobrevivência de 13% normalmente associada a este tipo de cancro, de acordo com um comunicado de imprensa do Memorial Sloan Kettering Cancer Center. “Ambas as coisas têm um potencial enorme”, afirma Austad. “Ambas se encontram também numa fase muito, muito inicial.” Alterações ao estilo de vida podem fazer uma grande diferença na prevenção de doenças crónicas. foto 10000 Hours/Digital Vision/Getty Images A prevenção pode começar agora Embora as novas e empolgantes tecnologias sejam testadas quanto à segurança e eficácia antes de chegarem ao mercado, há medidas que se pode tomar agora para prevenir doenças crónicas. E prevenir uma doença é muito mais fácil e menos dispendioso do que tratar uma doença já existente, ressalta Melamed. “Como diz o ditado, mais vale prevenir do que remediar”, diz. Algumas das medidas preventivas mais eficazes que pode adotar neste momento são mudanças no estilo de vida relacionadas com o exercício físico, a alimentação, o sono e a interação social, afirma Barzilai. Seguir uma dieta de estilo mediterrânico , que privilegia frutas, vegetais, cereais integrais, frutos secos, sementes, peixe saudável e azeite virgem extra, com porções mais reduzidas de ovos, laticínios e aves , tem sido associada a um aumento significativo da esperança de vida. Verificou-se que tanto a atividade aeróbica quanto o treino de força estão associados a um menor risco de morte. Ter sete a oito horas de sono ininterrupto e repousante tem sido associado a uma vida mais longa em vários anos. Uma maior socialização também traz benefícios importantes, uma vez que a solidão e o isolamento social têm sido associados a um risco mais elevado de morte prematura. Investir nestas áreas pode ser difícil e, muitas vezes, os benefícios não se fazem sentir de imediato, mas a proatividade pode ser fundamental para viver mais anos e desfrutá-los com melhor saúde. “Este país funciona como uma indústria de cuidados de saúde doente, no sentido de pensar como podemos esperar até que esteja doente para intervir , quando devíamos estar a tomar todo o tipo de medidas preventivas que não se veem ao longo da vida, relacionadas com a nutrição, o sono, o exercício físico, e a apoiar as pessoas para que reduzam o stress , ressalta Swisher. [Additional Text]: Envelhecer melhor não se resume apenas a viver mais anos. A tecnologia para reduzir as doenças crónicas é igualmente importante Envelhecimento exercício físico terceira idade (Galdric/iStockphoto/Getty Images) CNN