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ESTAMOS A FAZER A PERGUNTA ERRADA SOBRE CARROS ELÉTRICOS

Observador Online

2026-05-18 21:09:15

No final, a questão não é escolher entre duas tecnologias em abstrato. É perceber qual delas responde melhor à realidade concreta de cada um. Durante anos, a discussão em torno da mobilidade elétrica foi dominada por uma pergunta simples: “é mais barato ou mais caro?”. Hoje, essa questão continua relevante, mas tornou-se claramente insuficiente. A comparação entre carros elétricos e a combustão não pode ser feita apenas no momento da compra, nem sequer tendo em conta apenas o preço da energia. O que está verdadeiramente em causa é uma mudança estrutural na forma como pensamos o custo, o uso e o impacto da mobilidade. E essa mudança exige mais contexto. Se olharmos para o custo por utilização, a resposta ganha nuances. Um veículo elétrico pode custar cerca de EUR2,30 a EUR3,74 por 100 km, quando carregado em casa, mas pode subir para mais de EUR10 por 100 km na rede pública. Já um veículo a gasolina ronda os EUR9,80 por 100 km e um a gasóleo cerca de EUR7,32 (valores médios no final de 2025). Estes números mostram algo essencial: o custo do carro elétrico não é único, varia significativamente consoante o contexto, como podemos facilmente comprovar nestes primeiros meses de 2026. E isso muda completamente a natureza da comparação. Ao longo do tempo, os veículos elétricos tendem a apresentar vantagens em muitos cenários, graças ao menor custo energético e menor manutenção. Para quem percorre muitos quilómetros e tem acesso a carregamento doméstico, essa diferença torna-se evidente relativamente cedo. Se adicionarmos produção de energia para auto-consumo, como paineis solares, a comparação fica ainda mais distante. Mas não existe uma resposta universal. Sem acesso a carregamento em casa ou com maior dependência da rede pública, a vantagem económica pode reduzir-se. Há ainda um fator frequentemente ignorado: a variabilidade regional de preços. O custo do carregamento público em Portugal pode variar quase três vezes entre diferentes zonas do país, com valores significativamente mais baixos em algumas regiões e bastante mais elevados noutras. Ou seja, dois utilizadores com o mesmo carro podem ter custos muito diferentes apenas em função da localização. É precisamente aqui que a discussão do tema precisa de evoluir. Mais do que perguntar “qual é mais barato?”, devemos perguntar “qual faz mais sentido para mim?”. Esta é uma decisão individual, que depende de padrões de mobilidade, acesso a infraestrutura e da forma como valorizamos conveniência, previsibilidade ou impacto ambiental. Outros dos fatores que tende a ser subestimado é o da previsibilidade. Num contexto em que os combustíveis fósseis continuam expostos a volatilidade, a eletricidade , sobretudo com modelos de preço mais estáveis e/ou com recursos renováveis , pode oferecer maior controlo sobre os custos. Mais do que a poupança imediata, o valor está na capacidade de antecipar gastos num contexto incerto (como o que vivemos atualmente e temos vivido nos últimos anos com a pandemia e diferentes conflitos internacionais). Por outro lado, o setor dos transportes continua a ser um dos principais responsáveis pelas emissões de CO2 na Europa, e a eletrificação é uma inevitabilidade estratégica. As cidades estão a adaptar-se, as políticas públicas estão a evoluir e os consumidores estão a acompanhar essa transformação. Isto não significa que o motor de combustão desapareça amanhã. Significa que o seu papel está a mudar, e que as decisões tomadas hoje terão impacto durante anos. No final, a questão não é escolher entre duas tecnologias em abstrato. É perceber qual delas responde melhor à realidade concreta de cada um. O carro elétrico pode compensar a longo prazo, mas essa vantagem não é automática , constrói-se no uso e na informação. E talvez essa seja a principal mudança: deixarmos de falar apenas de carros e passarmos a falar de mobilidade. E, nesse novo contexto, as decisões mais inteligentes serão sempre as mais informadas. Daniela Simões Cofundadora e CEO da miio Daniela Simões