40 ANOS DE TRANSPLANTES CARDÍACOS EM PORTUGAL - OS MÉDICOS QUE ABRIRAM CAMINHO E OS DOENTES QUE GANHARAM DÉCADAS DE VIDA
2026-05-18 21:09:15

“Senti-me estranhamente bem, é como se fosse meu desde sempre” Primeiro transplante cardíaco em Portugal realizou-se a 18 de Fevereiro de 1986, no Hospital de Santa Cruz. Em 2025, foram feitos 70 transplantes. Aqui, contam-se histórias de quem tem um coração novo Reportagem Daniel Rocha Fotografia De ar tranquilo e roupão branco sobre os ombros, Eva Pinto, então com 54 anos, segura com a mão direita um microfone e na outra o auscultador cinzento do telefone. “Eu sinto-me feliz como nunca”, diz de voz ofegante, ainda no hospital e atrás de um vidro, 15 dias após a cirurgia que lhe deu mais nove anos de vida, nas primeiras declarações que fez a um jornalista da RTP. Há 40 anos, a 18 de Fevereiro de 1986, no Hospital de Santa Cruz, a equipa liderada pelo cirurgião cardíaco José Queiroz e Melo realizou o primeiro transplante de coração em Portugal. No ano passado, o Instituto Português do Sangue e Transplantação (IPST) anunciou que realizou o “maior número de transplantes cardíacos de sempre”: 58. Mas 2025 foi ainda mais extraordinário 70 transplantes de coração realizados no país, segundo dados enviados ao PÚBLICO. O dador mais novo tinha dois anos a mesma idade do receptor mais novo. O dador mais velho tinha 60 anos e o doente mais velho transplantado, 74. Além de Santa Cruz, os hospitais de São João, Coimbra e Santa Marta também são centros de transplantação cardíaca. No hospital em Carnaxide, desde o dia em que Eva foi operada até 12 de Fevereiro deste ano, realizaram-se 346 transplantes de coração. A unidade foi criada com o “grande objectivo de resolver o problema das pessoas que, naquela altura, iam para o estrangeiro porque não havia conhecimento suficiente em Portugal”. “Isso era sobretudo ao nível da hemodiálise e da cirurgia cardíaca”, conta João Queiroz e Melo. O cabelo escuro da juventude deu lugar ao grisalho e os seus 81 anos acumulam a sabedoria de uma vida dedicada à cirurgia cardíaca de crianças e adultos. Na biblioteca do hospital, com estantes de madeira e uma mesa grande no meio da sala, o médico lembra que foi na Guiné, durante a Guerra Colonial, que percebeu “que, em vez de ser cirurgião geral, deveria ser cirurgião cardíaco”, ao ter tido como chefe da equipa o cirurgião cardíaco Manuel Rodrigues Gomes, que tinha vindo da Clínica Mayo. Foi ele quem lhe disse para ir ter a Lisboa com o cirurgião cardíaco Manuel Machado Macedo , que entre 1978 e 1984 foi presidente do Colégio de Cirurgiões Torácicos da Ordem dos Médicos e, mais tarde, director dos serviços de cardiologia e de cirurgia cardiotorácica do Hospital de Santa Cruz. Queiroz e Melo regressou a Portugal, mas com a ideia de ir para o estrangeiro, onde poderia aprender mais. Esteve em Londres, no National Heart Hospital, e nos Estados Unidos, onde trabalhou na Universidade de Portland e no Children s Hospital em Harvard como senior resident, antes de Machado Macedo lhe dizer e ao cardiologista Ricardo Seabra Gomes para regressar, “porque o Santa Cruz ia abrir”. Ainda levou um pouco de tempo. A inauguração do Hospital de Santa Cruz decorreu a 23 de Abril de 1980, depois de os dois médicos terem pedido ao então secretário de Estado da saúde (que era médico) que se marcasse a data da inauguração. Machado Macedo ia caminho da Austrália para uma reunião. “Quando aterrou em Sydney, os altifalantes diziam Macedo call Melo in Portugal urgent ” , recorda Queiroz e Melo, que, no retorno da chamada, lhe disse ter “boas e más notícias”: a boa era que o Santa Cruz ia abrir, a má, que Machado Macedo tinha de estar cá. “Foi ao hotel [em Sydney], tomou um banho e veio embora.” No hospital começaram por “fazer coisas muito simples, como pacemakers”, e depois outras “muito mais complexas do que o transplante cardíaco”, diz o médico, recordando que a sua “grande formação era trabalhar com crianças com doenças congénitas”. No início da década de 1980, são apresentados internacionalmente os primeiros resultados da ciclosporina, um medicamento imunossupressor. “Naquele tempo foi a grande revolução. Fez com que a mortalidade [pós-transplante], que era de 60%, passasse a sobrevida de 60%”, conta.com vista a avançar com o transplante cardíaco, o médico levou duas enfermeiras a Londres para estagiarem no Yorkfield Hospital, “que era o grande centro de transplantações de Inglaterra”, e ele voltou aos Estados Unidos por “oito ou dez dias para perceber todos os detalhes” da intervenção. Por cá, o ambiente não era o mais favorável depois da publicação do livro O Escândalo dos Transplantes, “em que se dizia que o conceito de morte cerebral era uma coisa inventada pelos médicos para ganharem dinheiro” com os transplantes. Eva Pinto já estava internada há cerca de um mês em Santa Cruz quando um dia chegou uma chamada do hospital de Coimbra a dizer que havia um coração disponível. Queiroz e Melo pôs-se a caminho. “Quando lá cheguei de helicóptero, o piloto diz-me que não tinha gasolina para regressar porque não tinha sido avisado de que era preciso voltar a Lisboa”, e teve de ir a Tancos abastecer. A janela de tempo tem de ser muito bem cronometrada até ao transplante para assegurar a viabilidade do órgão, e o médico pediu que se atrasasse a colheita até estar tudo pronto. Na praça da universidade, um antigo colega vê-o “a correr para o helicóptero com uma mala frigorífica na mão”. A “notícia do transplante saiu na rádio de Coimbra ainda nesse dia”, quando em Lisboa ninguém sabia o que estava prestes a acontecer. O voo de regresso faz-se pelo cair da noite. “Não foi fácil, porque o helicóptero não tinha orientação nocturna”, nem o heliporto de Santa Cruz que se mantém no mesmo sítio, mas agora com outras condições tinha iluminação. “Telefonou-se via rádio da base aérea para Santa Cruz, e a Maria José Rebocho [responsável médica pelo transplante cardíaco e da unidade de cuidados intensivos] organizou os carros das pessoas que se puseram à volta do heliporto com os faróis acessos para sabermos onde se aterrava.” Depois do transplante, nessa madrugada de dia 19 “eram uma ou duas da manhã” , Queiroz e Melo, Machado Macedo, Seabra Gomes e Fernando Maymone Martins (chefe da cardiologia pediátrica do Hospital de Santa Cruz) e as respectivas mulheres acabaram o dia a jantar na Cervejaria Trindade. São 38 anos de coração novo Dois anos e 25 transplantes depois daquela data marcante para o país, Manuel Camões também ganhou nova vida no Hospital de Santa Cruz. Tinha 50 anos na altura, hoje, 87, e enverga o título do transplantado cardíaco vivo há mais tempo daquela unidade: 38 anos. “Em Portugal é mesmo o mais antigo”, diz a filha Ana, que partilha com o pai a gestão do negócio da família. Entre bicicletas, equipamento agrícola e motas, na loja destaca-se uma antiga e recuperada Vespa com o sinal vendido. Manuel Camões, apaixonado por motas, guarda-a com toda a estima há alguns anos à espera de que o neto, com 25 anos, a queira usar. Manuel começou como mecânico e fez crescer o próprio negócio para a parte das vendas. Um negócio que passou de individual a empresa familiar quando já estava internado e muito doente por causa de miocardiopatia “o coração não bombeava” que pareceu surgir do nada. Sentado na cadeira do escritório, e com o livro do cirurgião José Fragata que lhe realizou o transplante a 10 de Julho de 1988 em cima da mesa, Manuel recorda que estava de férias com a família em Salir do Porto (Caldas da Rainha), onde iam passar uns dias. A mulher, Georgina, sofria na altura de um problema de pele grave e diziam por ali havia água doce de uma nascente boa para o problema. Mas a que só se acedia com a maré baixa. Manuel chegou, comeu e dormiu bem. No domingo, “agarrámos em dois garrafões, meti os pés na areia e não tinha força. Não era capaz de andar.” Só acabou por ver um médico, na sua terra, na sexta-feira seguinte. “O que se passa contigo, Camões?”, perguntou-lhe. E Camões respondeu: “Não tenho forças.” O médico observou-o, mediu-lhe a tensão e rematou: “Senta-te na cadeira antes que me fiques nas mãos!” A situação era grave e Manuel foi encaminhado para o Hospital de Santa Cruz. Fez mais do que um cateterismo e foi sabendo, desde o início, que não era solução definitiva. Esteve “à volta de um ano” na lista de transplantes, mas nessa altura “quase não se falava sobre o tema”. Sabia da cirurgia de Eva Pinto e de outras feitas na África do Sul, país onde se realizou o primeiro transplante cardíaco do mundo em Dezembro de 1967 nesse caso, o doente sobreviveu 18 dias. De olhos castanhos amendoados e óculos pendurados ao pescoço, Manuel recorda que a saúde se foi agravando ao ponto de ter de voltar ao Santa Cruz para ficar internado. “Estava mesmo mal. Disse à minha mulher para chamar os empregados para me despedir deles” antes de vir a caminho de Lisboa, conta. Era uma quinta-feira e nesse fim-de-semana apareceu um coração. Ainda teve um episódio de rejeição ao fim de oito dias, mas disseram-lhe: “Não tenha problemas que se resolve!” Teve “quatro ou cinco” enfermeiras à cabeceira a dar-lhe medicação e a meta foi cumprida. Aquela foi “uma fase um pouco difícil, mas passou-se”. O cardiologista Ricardo Seabra Gomes disse a Georgina: “Temos homem para mais oito ou dez anos”, recorda Manuel Camões. Já lá vão muitos mais, salientam pai e filha. Ana tinha 23 anos e alguns detalhes da altura do transplante foram-se esfumando com o tempo. Lembra-se, quando ela, o irmão e a mãe foram para visitar o pai mas já não o conseguiram ver porque ia entrar para o bloco, de esperar que tudo corresse bem e da “vaga ideia de o verem, depois, através de um vidro”. “Não havia expectativa” dos anos de vida que podiam ser ganhos. Mas houve um sentimento que esteve sempre presente. “Acho que nunca deixei de acreditar que era possível. Nunca tomou conta de mim a sensação de que ele não ia voltar”, diz Ana, que destaca o importante papel de cuidadora que Georgina assumiu no pós-operatório do marido. “Fui enfermeira, mulher e mãe. Da época dele não está cá nenhum, e ele está”, diz Georgina. As agruras da vida não lhes roubaram o sorriso, nem a boa disposição. Todos os dias, logo pela manhã, Manuel desce à loja e só sai quando a noite chega. Ao fundo do espaço, perto da entrada para o escritório onde se vê uma foto do casamento de Manuel e Georgina, está o balcão onde Manuel já atendeu muitos clientes e que agora, na maioria do tempo, é ocupado pelos funcionários. O som do rádio e de um motor a ser testado revela, uns passos à frente, a oficina onde uma antiga Sachs arranja um pneu. Numa das paredes, em cima, está pendurado o capacete de mota que o filho Francisco usava em competição. “Tenho muitos dias em que nem me lembro de que fui transplantado, nem a cicatriz se nota”, diz Manuel. Continua a fazer medicação todos os dias e consultas de cardiologia a cada seis meses. As análises mostram que está tudo bem. O filho Francisco, que morreu com 22 anos, dizia-lhe que com o coração novo o pai ia chegar aos 100 anos. Manuel Camões está empenhado e cada vez mais próximo de cumprir o pedido. “A doação é a vida” Entre 1986 e 1995, no Hospital de Santa Cruz realizaram-se 83 transplantes cardíacos. Nas duas décadas seguintes foram 75 e 74, respectivamente. Queiroz e Melo, que é um apaixonado pelos Caminhos de Santiago “Fui a pé de Mértola até Trancoso, marcando o caminho pelo interior do país” , conta que, “todos os dias” de manhã, a equipa fazia uma reunião em que falavam do que “tinha acontecido da véspera, o bom e o mau, para se aprender”. No Santa Cruz, os blocos operatórios ainda são no mesmo sítio, mas estão renovados. No percurso circular que dá acesso às cinco salas uma é híbrida, permitindo que cirurgiões e cardiologistas de intervenção trabalhem em simultâneo , um ecrã grande exibe as cirurgias do dia. Os blocos estão equipados com máquina de circulação extracorporal, mais do que um ecrã para acompanhar os sinais vitais do doente e, no centro da sala, a marquesa fica sob a claridade das luzes cirúrgicas. No mesmo ano em que Queiroz e Melo se reformou, 2010, Marta Marques, actual directora de serviço de cirurgia cardiotorácica, fez o seu primeiro transplante cardíaco como cirurgiã principal. “Há nervosismo, apesar de termos passado por vários transplantes. Quando acabamos de fazer as anastomoses as conexões entre os vasos , desclampamos a aorta e o sangue entra nas coronárias, o que permite que o coração volte a bater, é uma emoção muito grande.” “A doação é a vida”, diz a médica, destacando o “enorme acto de altruísmo” de quem permite que se possa melhorar outras vidas. Receptores e dadores “não sabem a identidade uns dos outros” para que não se criem condicionalismos sociais e emocionais, nem se transfira a dor da família do dador para quem vai receber o órgão. “A vida do receptor continua a ser a sua, com um órgão novo”, diz Marta Marques, explicando que podem ser várias as situações que levam à necessidade de um transplante cardíaco. Podem ser questões “genéticas que provocam alterações do músculo e que, em situações-limite, levarão a uma insuficiência cardíaca”, “doenças das coronárias, em que há uma morte do músculo e o ventrículo perde função”, e doenças das válvulas que evoluem também para insuficiência cardíaca e situações infecciosas, “sobretudo virais, em que há uma lesão do miocárdio irreversível”. A lista de inscritos para transplante é gerida pelo IPST e a escolha do receptor mais adequado cumpre vários critérios: a compatibilidade imunológica, de peso e altura com o dador, o grau de urgência atribuído ao doente e o tempo em lista de espera. Em termos cirúrgicos, não existiram grandes alterações nos últimos 40 anos. Marta Marques destaca o “avanço tecnológico importante nas máquinas de circulação extracorporal”, nos imunossupressores e nas “técnicas de protecção miocárdica” após a colheita que permitem que coração “tenha o menor risco possível de lesão”. Outro avanço são os equipamentos que “permitem substituir o coração ou parte da função cardíaca e o doente fazer a sua vida em casa”. “O HeartMate 3 permitiu este avanço”, diz, faltando agora que se consiga evoluir para “uma estrutura totalmente implantada no corpo”. “Nascemos os dois ao mesmo tempo” Miguel Carvalho, 65 anos, sabe bem o que é usar esse aparelho que “mais parece de ficção científica” e cujas baterias pesam quatro quilos e têm uma duração de 18 horas. “Tem piada porque uma pessoa deixa de ter pulso e tensão arterial”, e em vez de se ouvir os batimentos do coração no peito, o que se ouve é um som “como se fosse uma turbina”. Miguel usou o estetoscópio emprestado pela cunhada Teresa, que “foi enfermeira na equipa do primeiro transplante”, para o fazer. Já Helena, a mulher, não quis. “Fazia-me impressão”, diz, explicando que também ela teve de aprender a funcionar com o “coração artificial”. Não era a solução perfeita em termos de liberdade de deslocação e quando houve o apagão em 2025 só não foi susto maior porque compraram um gerador, que nunca usaram , mas para Miguel permitiu-lhe respirar como já não conseguia. “Quando acordei, ainda sob o efeito da anestesia, conseguia respirar. Fartei-me de encher o peito de ar e fiquei logo de bem com o aparelho”, brinca. Miguel, que trabalha na área dos seguros, teve um enfarte em 2007, quando tinha 47 anos (o pai morreu aos 48 anos de enfarte). Era fim-de-semana e estava em casa. “Julguei que fosse uma congestão”, mas era algo bem mais grave, e a Via Verde Enfarte levou-o directo para Santa Cruz. Fez um cateterismo, passou a ter consultas de seguimento, dois anos mais tarde teve de colocar um pacemaker. Até que em 2024 a solução possível passou a ser o “coração artificial”. Não sabe exactamente quando entrou na lista para transplante e chegou a pensar que o “coração artificial seria definitivo”. Mas 2025 foi “um ano especial” para o Santa Cruz, com a realização de 21 transplantes cardíacos, “o número mais elevado já realizado num ano” naquele hospital, salientou a unidade. Um deles foi o de Miguel. A sala de jantar, que às vezes também serve de escritório, enche-se de luz à medida que as nuvens dão uma folga. Arya, que “veio de um abrigo”, e Big, que “foi apanhado na rua abandonado” os dois cães da casa , também querem participar na conversa. “Ele adoptou-me”, diz Miguel. “Fui jantar com dois amigos e, quando saímos do restaurante, colou-se a mim. Liguei para a minha mulher e disse-lhe: Vou levar um cão. ” Big fica por uns momentos ao lado do dono para receber uma festa, enquanto Miguel assinala a data em que ganhou um novo coração: 7 de Setembro de 2025. A filha e o genro viviam em Inglaterra e a neta tinha nascido uma semana antes. Miguel tinha vontade de ir conhecer a pequena, mas decidiu não ir. “Fiquei a pensar que, se estivesse lá e me chamassem, era algo que me ia marcar para o resto da vida.” Levou Helena ao aeroporto e “no outro dia, à noite, ligaram-me do hospital a dizer que havia um coração para mim”. “Liguei ao meu filho para vir tomar conta dos cães e à minha mulher que estava em Inglaterra”, conta, dizendo que ele e a neta nasceram “os dois ao mesmo tempo”. De camisa azul às riscas, Miguel está sentado em frente ao computador. Diz que foi “superdescontraído” para a sala de operações e que ainda brincou com o médico a dizer que “para abrir era só seguir o picotado” as marcas das intervenções anteriores. Já com o seu coração novo, quando acordou no recobro sentia-se “estranhamente bem”. “É como se fosse meu desde sempre”, diz, rematando em seguida: “Também não sei do que estava à espera de sentir.” Helena lembra-se de que acordou “à uma da manhã com o telefonema” de Miguel, a dizer que ia para o hospital. “Foi complicado por estar tão longe. A viagem de regresso estava marcada para daí a dois dias. Ligava e falava com a enfermeira, deram-me sempre notícias”, conta. As visitas também estavam limitadas e a primeira vez que se voltaram a ver havia um vidro entre os dois. Miguel afirma-se um optimista que se prepara para o pior, mas ao terceiro dia já estava a fazer pequenos exercícios, recordam os dois. “Há muito que a equipa não via uma recuperação tão rápida”, disse uma das enfermeiras do serviço a Miguel. Ele pediu-lhe para dizer o mesmo à sua mulher, não fosse Helena achar que era só o optimismo de Miguel a falar. “Desde que fez o transplante voltou a ser a pessoa que era antes”, diz Helena. O regresso ao trabalho foi “feito de forma tranquila”, e seis meses após o transplante começou a fazer algumas visitas a clientes, mas com todos os cuidados. “Sigo à risca os conselhos do concessionário”, brinca, dizendo que é agora “um clássico com um motor novo”. As refeições são feitas pelos dois em casa, faz caminhadas e perdeu cinco quilos. Está à espera de fazer um ano de transplante para ganhar mais algumas liberdades. Tem três desejos para cumprir: nadar na praia, comer um peixe grelhado num restaurante e viajar com a mulher ao Japão em 2027. Manuel Camões recebeu um coração há 38 anos e continua activo e a trabalhar na oficina da família Quando lá cheguei, o piloto diz-me que não tinha gasolina para regressar porque não tinha sido avisado de que era para voltar a Lisboa João Queiroz e Melo Cirurgião Miguel Carvalho Foi transplantado em Setembro de 2025. Antes da cirurgia usava um “coração artificial” (à esquerda) Eva Pinto Foi a primeira pessoa a receber um coração em Portugal, em 1986. Em baixo, o médico Queiroz e Melo com colegas e as respectivas mulheres jantam de madrugada, após a cirurgia DR João Queiroz e Melo O cirurgião cardíaco na unidade de cuidados intensivos acompanhado por enfermeira; em baixo, junto à entrada do bloco operatório (à esquerda) Manuel Camões É actualmente o doente transplantando com maior longevidade do Hospital de Santa Cruz. Recebeu um coração há 38 anos (à direita) Marta Marques Directora do serviço de cirurgia cardiotorácica durante uma cirurgia cardíaca Tenho muitos dias em que nem me lembro de que fui transplantado, nem a cicatriz se nota Manuel Camões Transplantado Ana Maia