pressmedia logo

A VOZ CENSURADA: VOTEI MONTENEGRO; AGORA NÃO POSSO OLHAR PARA ELE

Página Um Online

2026-05-18 21:09:14

Mais de meio século depois do 25 de Abril, a RTP decidiu que a opinião de uma pensionista de 82 anos sobre os políticos não merecia permanecer em antena. Maria da Conceição Ferreira, eleitora ora do PS ora do PSD, e que nem sequer quer ver Ventura como primeiro-ministro, foi “cortada” de uma reportagem sobre o custo de vida por, segundo a direcção de informação do canal público, expressar uma visão “populista e desinformada”. O PÁGINA UM foi ouvir esta cidadã cuja voz o canal público entendeu dever silenciar. E há surpresas (ou talvez não) nesta conversa de cerca de oito minutos Nasceu em vésperas do fim da II Guerra Mundial, corria o ano de 1944, na terra que viu nascer a Revolta da Maria da Fonte: Póvoa de Lanhoso. Ali fez a escola. Começou a trabalhar, aos 13 anos, no Porto, como criada interna. Mudou-se depois para Lisboa, indo trabalhar em casa de uma família na zona de Alvalade. Quando casou, andava os tempos pelo ano de 1967, foi viver para a Musgueira Sul, numa habitação da câmara. O marido trabalhava na construção civil e, com o esforço conjunto, em 1982, já com dois filhos, compraram o andar de Benfica, onde, ainda hoje, vive. Maria da Conceição Ferreira não concluiu sequer a 4.ª classe, mas sabe ler e diz que é “muito boa em matemática”. Vota e tem opinião. Foi esta a cidadã que uma jornalista da RTP ouviu, no Mercado de Benfica, numa reportagem sobre o aumento do custo de vida no passado dia 1 de Maio. Saiu no Telejornal da RTP, mas as suas breves declarações sobre os políticos não duraram nem uma hora. Maria da Conceição Ferreira, aos 82 anos, no ano de 2026, foi censurada pela RTP por dizer: ““É tudo a comer, minha senhora. Os que estão no Governo, é tudo para o saco deles e os pobres cada vez mais pobres”. Foto: FDC. E se passam agora para a posteridade é porque, mais de 52 anos depois da Revolução dos Cravos, foram limpas pela direcção de informação da RTP liderada por Vítor Gonçalves, já não tendo saído nos noticiários seguintes. Em termos concretos, foram censuradas, provocando uma crise interna no canal do Estado. ? O jornalismo independente (só) depende dos leitores. Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro. O PÁGINA UM foi procurar a voz que, em pleno ano de 2026, o canal do Estado achou que deveria ser proscrita, porque desabafou contra os políticos. Quisemos saber quem era a pessoa que proferiu a passagem censurada, considerada desinformação pela RTP: “É tudo a comer, minha senhora. Os que estão no Governo, é tudo para o saco deles e os pobres cada vez mais pobres”. Após algumas diligências, conseguimos marcar encontro junto ao prédio onde vive, em Benfica, não muito longe do mercado onde prestou as declarações à jornalista da RTP, Soraia Ramos, no dia 30 de Abril. Depois de ouvirmos a descrição relativa ao seu percurso de vida , para constatar que na Revolução dos Cravos era uma jovem de 30 anos, e que teve de aguardar mais 52 para lhe cortarem a língua numa mesa de edição política ,, perguntámos-lhe o que pensava da censura às suas palavras. Esclareceu-nos, primeiro, que ainda nem tinha visto a reportagem, mas já sabia que tinha aparecido na televisão, por ter sido avisada por familiares em França. Mesmo desconhecendo que houvera um corte do vivo , o jargão televisivo para a eliminação de declarações , por razões políticas, riu-se por ser “famosa”, sobretudo por então ficar a saber do impacto que as suas palavras causaram na Direcção de Informação e no Conselho de Redacção da RTP ao ponto de provocarem esclarecimentos e comunicados. “A menina que me fez as perguntas, perguntou se eu estava contente com o Governo. E eu disse aquilo. E ela perguntou-me porquê. Eu disse, olhe, eu votei nele, no Montenegro , agora não posso olhar para ele , porque ele, na campanha, prometeu o Sol antes de ele nascer. Ia fazer muita coisa, e o que é que ele fez? Nada. E se fosse agora, não votava”, conta Maria da Conceição. O PÁGINA UM fez notar à octogenária que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, foi eleito há pouco tempo , mais concretamente, nas eleições antecipadas de Maio do ano passado ,, e ainda tem mais três anos para mostrar serviço. Mas, este argumento não a convence: “Quem torto nasce, torto morre”. Quisemos então aprofundar o pensamento político da pessoa cuja opinião a RTP achou que “não acrescentava informação relevante” e “lançava um anátema indiscriminado sobre a classe política”. Recorde-se que a Direcção de Informação da RTP, liderada por Vítor Gonçalves, defendeu que a inclusão das declarações de Maria da Conceição Ferreira na peça de Soraia Ramos, “teria como efeito amplificar uma visão populista e desinformada, sem qualquer enquadramento factual que a sustentasse”. “Eu não percebo nada de política”, esclarece Maria da Conceição quando lhe perguntámos sobre a diferença entre a sua vida antes e depois do 25 de Abril de 1974. Por isso, diz que, para si, a Revolução de Abril “não fez diferença”. No entanto, sente que, antes, “havia mais segurança, mais respeito”. O PÁGINA UM, em contraponto, expôs a Maria da Conceição o facto de haver agora um maior escrutínio público sobre os políticos, e isso tornava mais fácil a existência do discurso crítico em relação à classe. Em resposta, a entrevistada disse-nos que não gostava dos políticos e citou, a título de exemplo, a notícia que, ainda nessa manhã, antes do encontro com o PÁGINA UM, vira na televisão sobre um “político a braços com a Justiça”, referindo-se a um “cunhado”, que não soube bem identificar de quem. Será, adiante-se, o cunhado do ministro da Presidência, Leitão Amaro, pessoa que tem o pelouro da gestão da RTP: “O que sei é o que vejo na televisão. E acho que é tudo verdade”, concluiu. Apesar de admitir que não percebe nada de política, ainda assim, Maria da Conceição, que cumpre este ano 82 anos, tem uma opinião sobre os governantes que estiveram à frente dos governos democráticos. Diz que gostou de Mário Soares e, apesar dos cortes no tempo do FMI, nunca lhe faltou nada. Gostou de Ramalho Eanes, mas não tem a mesma opinião sobre Cavaco Silva, “quer como primeiro-ministro, quer como Presidente da República”. Não gostava de ver Balsemão na televisão e tem pouca memória de Sá Carneiro: “Lembro-me do acidente”, diz, para depois admitir que “eles dizem que foi atentado, mas não sei”. Quanto a José Sócrates, afirma: “Não posso olhar para a cara dele”. Quisemos então saber o que Maria da Conceição Ferreira pensava de outros líderes políticos mais recentes, como André Ventura. A entrevistada, assim que ouviu o nome, respondeu: “Nem me fale nele!” E explicou: “Porque ele fala muito. Não. Ele, para mim, não tem ”. Ao insistirmos na opinião sobre o líder do Chega, uma vez que as palavras do líder do Chega até tendem a aproximar-se daquelas que foram censuradas, Maria da Conceição esclareceu-nos: “Gosto mesmo muito de o ouvir falar, pois ele ataca os outros”. Mas, isso não lhe basta para merecer o seu voto: “Para primeiro-ministro, não gosto dele”, afirmou. Vítor Gonçalves é o diector de informação dos diversos canais da RTP que conta com 461 jornalistas. Foto: RTP. Com o peso da experiência de vida no Portugal democrático e dos tempos da outra Senhora, e mesmo insistindo que não percebe nada de política, Maria da Conceição também nos garantiu que não tem qualquer vontade de voltar a ver Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro. E até admitiu que, antes de votar no social-democrata Luís Montenegro, foi às urnas apoiar o socialista António Costa. No entanto, em relação a este último, que também mora em Benfica, tem também agora uma opinião negativa. Sobre mais preferências, votou em Marcelo Rebelo de Sousa para Presidente da República, “mas agora, para o fim, também já não gostava”. Quem Maria da Conceição apreciou, e votou para ser Presidente da República, foi o Almirante Gouveia e Melo , e teve “pena” por não ter sido eleito. Na segunda volta, a sua escolha foi António José Seguro, pessoa em quem deposita “esperanças”. Até ver Maria da Conceição Ferreira, que ao longo da vida sempre oscilou entre os partidos do chamado Bloco Central - PS e PSD -, está muito longe do retrato simplista de uma cidadã politicamente radicalizada ou capturada por discursos populistas automáticos. As palavras que proferiu e as escolhas eleitorais que foi fazendo ao longo das décadas mostram, antes, opiniões moldadas pela experiência de vida, nem sempre marcada por uma relação benevolente com quem governa. Para a RTP a censura pode sempre justificar-se se for justificada como combate à desinformação ou ao populismo, mesmo que seja de uma octogenária que confessa que votou Montenegro e nem quer ver Ventura como primeiro-ministro. Foto: Brian Wangenheim Ao PÁGINA UM, faz questão de sublinhar que “pensa assim” e que não está contente com o actual Governo, porque “prometeu e não faz nada”. Acrescenta que não deve favores a ninguém e recorda um episódio que, admite, lhe deixou amargura: durante a crise da covid-19, foi-lhe recusada uma operação à vesícula no Serviço Nacional de Saúde. Acabou por recorrer ao sector privado e suportou integralmente a despesa. “Paguei à volta de 10 mil euros. Não devo favores ao Governo”, disse-nos. Por isso, entende que a sua opinião deve contar quando fala à televisão. Frederico Duarte Carvalho