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SALVAR A MGF É SALVAR A RELAÇÃO MÉDICO-DOENTE

HealthNews Online

2026-05-18 21:09:13

Em entrevista exclusiva ao HealthNews, Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos, defende que o acesso aos cuidados de saúde primários não pode ser confundido com digitalização sem vínculo humano. Para o bastonário, a Medicina Geral e Familiar precisa de planeamento estratégico, incentivos reais e valorização da relação médico-doente, sob pena de colapsar o SNS HealthNews (HN) , No Dia Mundial do Médico de Família, a WONCA estabeleceu como tema para 2026 “Cuidar com compaixão num mundo digital”. Face aos mais de 1,7 milhões de utentes sem médico de família atribuído em Portugal, qual a conciliação que a Ordem defende entre a inadiável expansão do acesso e a preservação do vínculo de confiança e de uma medicina de proximidade na era digital? Carlos Cortes (CC) , Não há qualquer contradição entre alargar o acesso e preservar a relação de confiança entre médico e doente, entre o médico e a pessoa. Pelo contrário, o acesso só é verdadeiramente digno quando existe proximidade humana e responsabilidade clínica. A atribuição de médico de família não pode ser um mero ato administrativo numa base de dados, deve significar que cada pessoa tem um médico e uma equipa que a conhecem, acompanham, orientam e protegem ao longo da sua vida. O Médico de Família é muitas vezes o primeiro rosto do SNS, aquele que acompanha gerações inteiras de uma família, conhece o contexto social, económico e emocional da pessoa, antecipa problemas, previne doença e evita sofrimento desnecessário. É talvez a especialidade que melhor traduz a essência humanista da medicina. Quando um cidadão tem um médico de família, sente-se mais protegido, mais ouvido e mais seguro na complexidade do sistema de saúde. A digitalização deve servir esse vínculo, e até reforçá-lo, não substituí-lo. Um utente sem médico de família não precisa apenas de mais uma aplicação, de um chatbot ou de um ato administrativo, precisa de uma resposta clínica responsável, próxima e segura. A tecnologia pode ajudar muito na gestão de listas, na identificação de risco, na renovação simples de terapêuticas, na monitorização de doença crónica e na articulação entre níveis de cuidados. Mas a Medicina Geral e Familiar continua a assentar numa dimensão insubstituível que é a relação médico-doente, ou médico-pessoa, um dos pilares fundamentais da medicina hipocrática milenar. A inteligência artificial nunca substituirá a empatia, a atenção clínica, o silêncio atento de quem escuta ou o olhar de quem percebe que há sofrimento para além dos resultados dos exames. A medicina não é apenas ciência e técnica, é também confiança, ética, compaixão e humanidade. HN , A Ordem já denunciou que dezenas de jovens especialistas em Medicina Geral e Familiar terminam a sua formação sem conseguir aceder a uma vaga no SNS precisamente nas zonas onde fazem falta. Que medidas concretas defende para garantir acesso universal a médico de família e reforçar os cuidados de saúde primários, designadamente no que toca à abertura de todas as vagas existentes e à fixação de profissionais nas regiões mais carenciadas? CC , A Ordem dos Médicos tem defendido uma medida elementar, urgente e de justiça para as populações: abrir todas as vagas carenciadas existentes de Medicina Geral e Familiar nas zonas onde efetivamente são necessárias. É incompreensível que jovens especialistas terminem uma formação altamente exigente e diferenciada e não consigam aceder a uma vaga no SNS precisamente nos locais onde faltam médicos de família e onde, muitas vezes, realizaram o seu Internato Médico, criaram equipas, conheceram as populações e desenvolveram laços de proximidade clínica e humana. Isto não resulta da falta de médicos formados. Resulta sobretudo de falhas graves de planeamento, de gestão e de ausência de visão estratégica. O país não pode continuar a investir anos na formação médica para depois não atrair e até afastar esses médicos do SNS, no momento em que estão preparados para cuidar das pessoas. Esse inaceitável desperdício é humano, científico, financeiro e também ético. O Médico de Família é um dos pilares mais importantes de qualquer sistema de saúde moderno. É ele que acompanha a pessoa ao longo da vida, promove prevenção, diagnostica precocemente, coordena cuidados, reduz internamentos evitáveis e cria uma relação de confiança que melhora a adesão terapêutica, a segurança clínica e até os resultados em saúde. Quando falha a Medicina Geral e Familiar, todo o SNS entra em maior pressão. As urgências enchem-se, os hospitais ficam sobrecarregados e os cidadãos sentem-se abandonados pelo sistema. Por isso, é essencial criar concursos céleres, previsíveis e regulares, articulados com o final da formação especializada. É igualmente importante manter abertas as vagas não preenchidas, simplificar processos de contratação, permitir mobilidade transparente e desenvolver incentivos verdadeiramente eficazes para as regiões carenciadas. Esses incentivos devem ir muito além da dimensão remuneratória. Incluem apoio à habitação, condições de instalação familiar, estabilidade contratual, progressão na carreira, proteção da parentalidade, tempo protegido para formação e investigação e ligação às universidades e instituições de ensino superior. Fixar médicos não se faz apenas com suplementos financeiros. Faz-se criando condições de vida, perspetiva de futuro, valorização profissional e respeito pela dignidade do exercício médico. Também não podemos continuar a olhar para os médicos como números substituíveis numa folha Excel. A Medicina Geral e Familiar exige estabilidade, equipas coesas e tempo para construir relações de confiança com os utentes. A relação médico-doente continua a ser um dos instrumentos terapêuticos mais importantes da medicina. Defender os cuidados de saúde primários é defender um SNS mais humano, mais eficiente, mais sustentável e mais justo. Um sistema de saúde forte começa sempre perto das pessoas. HN , Cerca de 45% dos médicos de família inscritos na Ordem têm mais de 65 anos, o que se traduz num risco iminente de vaga por reforma, e 26% das vagas lançadas para especialistas ficam por ocupar. Para inverter este ciclo, que modelo de planeamento de recursos humanos e de incentivos a Ordem preconiza para atrair e reter novos especialistas? CC , Portugal precisa de abandonar a lógica reativa, do “espera para ver” ou do “logo se resolverá”. Não podemos continuar a descobrir, todos os anos, que há reformas previsíveis, vagas por ocupar e populações descobertas. A Ordem defende um planeamento nacional de recursos humanos assente em dados atualizados, com projeções a cinco, dez e quinze anos, por região, por ULS, por especialidade, por idade, por capacidade formativa e por necessidades reais da população. A navegação à vista já demonstrou o seu resultado: encalhou em recifes. Hoje estamos perante uma geração de médicos de família altamente diferenciada, extremamente qualificada, mas muitas vezes desmotivada por falta de perspetiva de carreira e de condições de trabalho. Os incentivos devem ser integrados e não medidas avulsas e pontais para satisfazer a propaganda. Defendemos uma carreira médica mais atrativa, com valorização remuneratória, progressão ao longo da vida baseada no mérito e na diferenciação, liderança clínica, tempo para ensino e investigação, e condições técnicas adequadas. Nas regiões mais carenciadas deve existir um pacote específico: majoração remuneratória, habitação, transporte, apoio familiar, estabilidade contratual e possibilidade de desenvolvimento profissional, clínico, de investigação e académico. Mas há um aspeto essencial que por vezes é esquecido, os médicos querem sentir que o seu trabalho é respeitado e que conseguem exercer medicina de qualidade. Nenhum profissional permanece motivado num sistema permanentemente em rutura, burocratizado e incapaz de reconhecer mérito. O erro seria pensar que basta aumentar listas ou sobrecarregar quem já está no terreno. Isso apenas adia o problema e prejudica todos, médicos e utentes. Médicos exaustos não conseguem cuidar com a qualidade e humanidade que os doentes merecem. HN , Tem defendido que a inteligência artificial deve ser uma ferramenta de apoio à decisão clínica, não um agente autónomo. Como vê o contributo da digitalização para otimizar a gestão da lista de utentes e reduzir a carga burocrática, sem desumanizar a consulta? CC , A inteligência artificial deve ser uma ferramenta de apoio à decisão clínica, nunca um agente autónomo a substituir o médico. Sou muito favorável à introdução de novas tecnologias e da Inteligência Artificial, mas têm de existir regras claras, supervisão humana e sobretudo um sentido ético e humanizado da utilização dessa inovação. Na saúde, a inovação tem de obedecer a critérios exigentes de evidência, segurança, responsabilidade, proteção de dados, auditoria e validação clínica. A decisão médica tem consequências humanas e não pode ser delegada em sistemas opacos cujos algoritmos ainda demonstram insuficiente transparência. A Ordem dos Médicos tem defendido a criação de uma Agência para a Inteligência Artificial na Saúde com o objetivo de avaliar, validar, monitorizar e decidir que aplicações podem ser úteis e seguras para o SNS. A digitalização pode ser decisiva para reduzir a carga burocrática nos cuidados primários, através da interoperabilidade real entre sistemas, automatização de tarefas repetitivas, melhor gestão das listas de utentes, sinalização de doentes vulneráveis, apoio à referenciação e eliminação de duplicações administrativas. Mas digitalizar a burocracia continua a ser burocracia. O objetivo não pode ser transformar médicos em operadores informáticos. A tecnologia deve libertar tempo médico para aquilo que é essencial: ouvir, observar, decidir, acompanhar e cuidar. Na consulta, o ecrã não deve competir com o olhar do doente. Um dos maiores riscos da medicina moderna é perder tempo com cliques enquanto se perde contacto humano com quem sofre. E um sistema de saúde que perde humanidade perde também qualidade, confiança e segurança. HN , Qual a reforma estrutural que a Ordem dos Médicos equaciona como prioritária para garantir a sustentabilidade financeira e organizacional dos cuidados primários? CC , A reforma estrutural prioritária é colocar os cuidados de saúde primários no centro efetivo do sistema. Durante demasiados anos, o SNS foi empurrado para uma lógica hospitalocêntrica e de urgênciocentrismo. Isso é financeiramente insustentável, clinicamente errado e socialmente injusto. É algo que todos, incluindo os decisores políticos, sabem há décadas. A sustentabilidade começa antes da doença agudizar, antes da ida à urgência, antes do internamento evitável. Começa na promoção da saúde, na prevenção da doença, na literacia em saúde, nos hábitos de vida saudáveis e no acompanhamento próximo das populações. O Médico de Família é o verdadeiro gestor clínico da proximidade. É ele que evita descompensações, reduz internamentos evitáveis, acompanha doença crónica, faz rastreios, promove vacinação, identifica sofrimento psicológico e coordena cuidados. Sem cuidados primários fortes, nenhum sistema de saúde é sustentável. Defendemos financiamento plurianual estável para os cuidados primários, reforço da autonomia organizacional que se está a perder, liderança médica nas ULS na área dos cuidados de saúde primários, equipas multiprofissionais completas, contratualização por acesso, qualidade e resultados em saúde, e integração efetiva com hospitais, saúde pública, cuidados continuados, saúde mental e respostas sociais. As ULS só serão úteis se integrarem cuidados na prática e não apenas no papel ou na promessa. Os cuidados primários não podem transformar-se num anexo administrativo do hospital. Precisam de autonomia, capacidade de decisão e valorização estratégica. Um SNS moderno não se constrói apenas com grandes hospitais ou tecnologia sofisticada. Constrói-se também com proximidade, confiança, prevenção e humanização. Constrói-se com base nos Cuidados de Saúde Primários. HN , Como reverter a perda de atratividade da Medicina Geral e Familiar e assegurar que o SNS oferece um ambiente de trabalho seguro e motivador? CC , A perda de atratividade da Medicina Geral e Familiar resulta menos da especialidade e mais das condições em que muitos médicos são obrigados a trabalhar. A MGF é uma das áreas mais nobres da medicina e aquela que talvez melhor reflita a sua génese hipocrática: acompanha a pessoa ao longo da vida, integra prevenção, doença crónica, saúde mental, contexto familiar e comunidade. O Médico de Família não trata apenas doenças. Trata pessoas na sua globalidade. Conhece medos, fragilidades, histórias familiares e contextos sociais. É muitas vezes o primeiro profissional a identificar sofrimento silencioso, violência, isolamento ou pobreza. Isso exige enorme competência técnica, mas também maturidade humana, ética e capacidade relacional. O problema surge quando essa missão é esmagada por listas excessivas, burocracia, falta de tempo, instabilidade, ausência de carreira e pouca valorização. Quando se tem a perceção de que muito do que foi conquistado por esta especialidade está a ser gradualmente destruído e descuidado. Para reverter este ciclo é preciso proteger os médicos para proteger os doentes. Isso significa equipas completas, sistemas informáticos funcionais, segurança e proteção nos locais de trabalho, apoio à saúde mental, condições para a formação médica, progressão na carreira e liderança médica. A emigração ou saída do SNS é muitas vezes a consequência de um sistema que não oferece futuro, não respeita o trabalho médico e não permite desenvolvimento profissional e pessoal. Se queremos médicos no SNS, temos de lhes dar razões para ficar. Precisamos de um SNS competitivo, moderno, humanizado e com argumentos sólidos para atrair médicos. Porque quando um médico abandona o SNS, quem perde não é apenas o sistema. São sobretudo os doentes. HN , Perspetivando o futuro a médio-longo prazo, quais os indicadores-chave que gostaria de ver instituídos para a governação da Medicina Geral e Familiar e que compromissos políticos considera inadiáveis para que estas métricas não fiquem apenas no papel? CC , A governação da Medicina Geral e Familiar deve assentar em indicadores públicos, simples, transparentes e consequentes. Indicadores de avaliação das políticas dos governos. Entre os principais, destacaria: percentagem de utentes com médico de família atribuído; tempo médio até consulta; dimensão e complexidade das listas com ponderações; população vulnerável sem acompanhamento; taxa de vagas preenchidas tendo em conta o número de candidatos; previsões de reforma; carga burocrática por médico; utilização evitável das urgências; internamentos evitáveis; controlo de doença crónica; vacinação; rastreios; satisfação dos utentes; segurança clínica; e retenção de especialistas no SNS. Mas há indicadores menos mensuráveis e igualmente importantes: continuidade de cuidados, estabilidade das equipas, tempo disponível por consulta e qualidade da relação médico-doente. A medicina não pode ser avaliada apenas pela quantidade de atos realizados, mas sim pelos resultados que produz. O país precisa de compromissos políticos claros: censos médicos nacionais regulares, planeamento de recursos humanos e das necessidades, abertura de vagas onde há efetivamente carência, incentivos legislados para zonas carenciadas, interoperabilidade digital para ligar aplicações informáticas dentro e fora do SNS, avaliação independente e publicação trimestral de resultados por ULS. Todo o sistema tem de ser auditado, os resultados publicados e a transparência melhorada. O documento “Rumo para a Saúde”, no qual a Ordem dos Médicos está empenhada, será mais do que uma reflexão. Deverá ser uma base para compromissos legislativos, governativos e orçamentais consistentes. Indicadores sem decisão política são apenas gráficos bonitos. E os doentes não são tratados com gráficos, são tratados com médicos motivados, equipas estáveis, tempo disponível, proximidade e condições adequadas para cuidar com qualidade, ética e humanidade. Carlos Cortes Bastonário da Ordem dos Médicos