AIR INVICTUS JÁ GARANTIU 5,39 MILHÕES DE APOIOS PARA VOAR SOBRE O DOURO, MAS AINDA AGUARDA AUTORIZAÇÃO
2026-05-18 18:24:08

Turismo de Portugal e quatro autarquias aprovaram apoios antes de autorização ser pedida. Evento que quer levar aviões às margens do Douro é organizado por empresa unipessoal criada em 2023. O Air Invictus, evento que promete levar de novo os aviões às margens do Douro nos dias 19 e 20 de Junho, já garantiu 5,39 milhões de euros de apoios públicos, embora ainda não tenha a autorização oficial da Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC) para acontecer. O pedido para a realização do evento foi entregue após os municípios aprovarem os apoios financeiros em reuniões dos executivos e muito depois de os anunciarem publicamente: as câmaras do Porto e Gaia darão 425 mil euros, as de Matosinhos e Maia entregarão 325 mil. O Turismo de Portugal concederá um apoio de 3,89 milhões. Há dias, após uma reunião com os organizadores do evento e a Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo (APDL), a Associação das Actividades Marítimo-Turísticas do Douro (AAMTD), presidida pelo empresário Mário Ferreira, sublinhou em comunicado uma posição “firme e inequívoca” face ao evento. Para os empresários do sector, o Air Invictus “não pode avançar sem que os seus operadores disponham de respostas concretas, formais e escritas sobre os impactos na navegação, nas infra-estruturas e na actividade económica de quem trabalha no Douro todos os dias do ano”. Ao PÚBLICO, o empresário Mário Ferreira nega uma oposição directa ao festival ou qualquer pedido de compensação financeira. Sobre os impactos do Air Invictus e a existência de um contacto prévio dos organizadores com as suas empresas do sector do turismo fluvial, afirma que lhes foi dito que o evento “não teria nenhum impacto directo na actividade dos cruzeiros” e “só muito recentemente foram as empresas de navegação no Douro chamadas a reunir na APDL e perceberam o que se estaria a passar”. A associação sublinhou o facto de ainda não haver uma “autorização definitiva” da ANAC, considerando que o calendário definido para que essa seja concedida é “simplesmente incompatível com a realidade operacional dos seus associados”. “Os operadores marítimo-turísticos do Douro planeiam a sua actividade com dois a três anos de antecedência, têm reservas confirmadas, contratos assinados e embarcações comprometidas com rotas licenciadas”. A ANAC confirmou ao PÚBLICO que o Air Invictus lhes foi apresentado a 3 de Março, mas que o pedido de autorização foi recebido apenas a 3 de Maio. A decisão ainda não foi tomada, estando a ANAC a “analisar o requerimento apresentado” e tendo “30 dias” para responder. Ou seja, a confirmação de que o evento pode mesmo avançar pode chegar já no mês para o qual está programado. O Air Invictus, espécie de sucessor do Red Bull Air Race, é organizado pela Bravimaginação, empresa unipessoal criada em Setembro de 2023 e que tem apenas um trabalhador associado, o próprio sócio-gerente, Luís Castro. O empresário, que já foi jornalista, preside a Casa do Pessoal da RTP e é apresentador de televisão, nomeadamente do programa Sociedade Civil da RTP 2. Em 2017, já havia fundado a Happiness Condition, também organizadora de eventos desportivos. Ao PÚBLICO, Luís Castro diz que o festival aéreo Air Invictus está a ser pensado desde Janeiro de 2025 “com verbas próprias”. A maior fatia do orçamento, porém, vem de apoios públicos, já que o evento está orçamentado em 7,5 milhões e 5,3 são concedidos pelo Turismo de Portugal e autarquias já referidas. A última edição do Red Bull Air Race custou seis milhões de euros, tendo os municípios do Porto e de Gaia concedido apoios de 225 mil euros, pouco mais de metade do que dão agora. Contestação nos municípios A aprovação dos apoios municipais não ficou isenta de contestação. No Porto, o vereador Miguel Corte Real votou contra a proposta, alegando que a mesma não assegurava uma série de requisitos, como a credibilidade da entidade promotora, a segurança e a compensação financeira do município. Além disso, não identificava os “custos indirectos” que deverão acrescer aos 425 mil euros de apoio. Numa declaração de voto, o representante do Chega sublinhou também que “70% dessa verba [do investimento público total], ou seja, mais de 3,7 milhões de euros, serão entregues meses antes da realização do evento a uma empresa unipessoal constituída em 2023, com apenas cinco mil euros de capital social”. Os vereadores do autarca Pedro Duarte e o PS aprovaram a proposta. Em Gaia, os socialistas tiveram outra opinião. João Paulo Correia votou contra o apoio anunciado por Luís Filipe Menezes ainda na campanha eleitoral, argumentando que os apoios indirectos poderão chegar a um milhão de euros. Em Matosinhos, a proposta passou com abstenções do PSD e do Chega. Na Maia, o Chega votou contra. Sobre os timings dos apoios, aprovados antes de haver garantia de que o evento pode acontecer, Luís Castro diz estar a cumprir os prazos exigidos pelas autoridades que regulam o sector e mostra-se optimista quanto à resposta: “A equipa que elaborou esse pedido de autorização é a mesma que tem liderado mais de 80% dos processos análogos referentes a todos os outros festivais aéreos efectuados em Portugal nas últimas duas décadas”, aponta. Acrescenta que “nunca qualquer pedido feito pelas equipas e empresas contratadas pela Bravimaginação foi negado” e os eventos por si organizados não registaram, até hoje, “qualquer acidente ou incidente”. No comunicado emitido há dias, a AAMTD exigia saber quais os impactes objectivos deste evento no turismo fluvial do Douro. Sobre isso, Luís Castro limita-se a dizer que os mesmos “estão a ser avaliados pelas entidades competentes”. O empresário refere que a Bravimaginação “tem experiência em grandes eventos”. Segundo dados públicos, a empresa organizou dois eventos com contratos públicos. Em 2024, geriu a passagem da Volta a Espanha por Lisboa com um contrato de 69 mil euros com o município; em 2025, a Câmara da Covilhã pagou 74.950 euros por serviços para o evento “Pedala Portugal Covilhã City Bike Tour”; a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária também já recorreu à Bravimaginação, mas para contratualizar a promoção de mensagens de segurança rodoviária, com um custo de 35 mil euros. O Air Invictus, “com compensação carbónica a 100%”, espera atrair um milhão de pessoas (300 mil estrangeiros) e ter um retorno económico de um milhão de euros, valor com o qual o ministro da economia, Castro Almeida, se congratulou, no final de 2025, considerando a iniciativa “relevante” para o “crescimento económico”. Na resposta enviada ao PÚBLICO, Luís Castro sublinha o facto de o evento ser de livre acesso (excepto nas áreas reservadas), envolver empresas portuguesas e gerar impostos que, garante, “ficam em Portugal”. No site, é possível comprar entradas paras as áreas VIP, com custos que variam entre os 180 e os 3500 euros. Os bilhetes estão praticamente esgotados. O festival tem 15 eventos associados, estando previstas demonstrações de corridas de aviões, acrobacias aéreas nas margens do rio, entre Porto e Gaia, uma exposição de trinta aeronaves na Maia, uma exposição e passagens de aviões militares, baptismos de voo para crianças, aeromodelismo com workshops e concertos. tp.ocilbup@otnip.anairam Aviões devem voltar às margens do Dourto em Junho, quase dez anos depois da última edição do Red Bull Air Race Manuel Roberto Mariana Correia Pinto