A ARTE DOS HOTÉIS QUE TAMBÉM SÃO MUSEUS
2026-05-17 21:10:10

Na próxima segunda-feira assinala-se o Dia Internacional dos Museus. Pretexto para conhecer hotéis com arte contemporânea, achados arqueológicos e até automóveis clássicos em exposição. Luís J. Santos e Carina Fonseca (texto) e Rui Gaudêncio ( fotogra a) a O Dia Internacional dos Museus comemora-se desde 18 de Maio de 1977, e neste ano o tema não podia ser mais actual: “Museus a unir um mundo dividido”. A iniciativa, proposta pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM, na sigla inglesa), visa sensibilizar para a importância desses equipamentos na sociedade, enquanto espaços que incentivam o diálogo, a compreensão e, em última análise, a paz, ao estabelecerem ligações entre visões culturais, sociais e geopolíticas diversas. Existem muitas maneiras de celebrar, muitas exposições, oficinas e outras actividades a decorrer, país fora. E por que não combinar descanso e descoberta, lazer e aprendizagem? De Norte a Sul, há hotéis com museus incorporados; opções à medida de diferentes bolsas, com diferentes estilos e valências, para entusiastas da história e da arqueologia, mas também da arte contemporânea e dos automóveis. Sigamos, pois, viagem. projecto aos quartos, corredores, biblioteca, bares, restaurante onde até cocktails, menus e pastelaria se inspiram em obras do museu e no-las dão a comer e beber. Estamos numa cidadela artística e hoteleira, repartida entre um palácio do século XVIII (o do Condes da Ribeira Grande, que chegou a albergar liceus) restaurado ao milímetro e um novo edifício. As galerias do museu espalham-se pelos dois espaços, interligados por pátios. Vamos dormir literalmente por cima da arte. E envolvidos na arte. O nosso quarto é uma bela suíte no palácio, com vista para o pátio e o novo prédio de fachada branca de azulejos tridimensionais. Pelo corredor, admiramos obras, fotografias, pinturas, esculturas, colagens. À porta do quarto, um bem escolhido “O Existencialista” de Sara & André e Sara Mealha. Cá dentro, trabalhos de Matt Keegan, que incluem antigas imagens da TAP retrabalhadas. Bem visto, para um viajante. “Todos os quartos, todos os espaços, incluem obras originais”, há-de sublinhar-me a directora do hotel, Vera Cordeiro. Um directório lista a arte, para quem quiser aprofundar. As camadas dos tempos “Olhai, senhores, esta Lisboa de outras eras”, canta Maria Ana Bobone no palco da capela (dessacralizada) que agora é bar (o àCapela, com eventos e concertos abertos a todos). Atrás da fadista e dos músicos, uma obra de arte do espanhol Carlos Aires hipnotiza-nos: no altar-mor, um Cristo crucificado suspenso sobre vídeos e imagens que ora espantam ora perturbam. Ao meu lado, Armando Martins, o homem que criou o grupo Fibeira e responsável por obras como o Atrium Saldanha e que “há muitas décadas sonhava com isto”. “Isto” é “um sonho e um prazer imenso”, vai-me dizendo, bom anfi# trião, ele próprio mesmerizado com esta noite de fados entre a sua arte contemporânea numa capela reconvertida. O “isto” não é pouco e é muito pragmático: além de falar do “prazer de partilhar com as pessoas” a sua arte por vezes surpreendentemente vanguardista, da pintura à fotografia ou vídeo ,, o projecto, privado, de integrar hotel no museu nasceu para “dar sustentabilidade” a este último. São, realmente, dois luxos num só. E o conjunto permite até mais viagens na arte e na história. “É um prazer cantar aqui”, diz a fadista, “nesta capela do liceu onde eu estudei”. Um novo encontro entre camadas do tempo: afinal neste palácio o último liceu foi o Rainha Dona Amélia, encerrado em 2002. O projecto e “legado”, como destaca é tão pessoal que foi inaugurado a 22 de Março de 2025, dia em que Armando completou 76 anos e dia em que, 51 anos antes, comprou a sua primeira peça. Nunca mais MACAM Como dormir num hotel e acordar num museu Convenhamos que não é todos os dias que uma pessoa ao fazer o checkin no hotel recebe a chave do quarto e a “chave” do museu. Mas é assim mesmo no lisboeta MACAM, Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, de portas abertas há um ano no eixo Alcântara-Belém. Nascido da colecção privada de Armando Martins, engenheiro e empresário de obra feita, aumentada e evoluída ao longo de meio século (mais de 600 peças), este é, como nos dirão, “um museu com um hotel dentro”. E a “imersão” é realmente completa, não há cá museus a decorar hotéis nem vice-versa, somos tão hóspedes deste cinco estrelas como visitantes a viver a arte. Porque esta espalha-se realmente por todo o lado, viajando-nos por temas e artistas contemporâneos, do átrio que interliga os dois pilares do parou, sempre com o foco no contemporâneo. Este ano, no mesmo dia, recebeu a Medalha de Mérito Cultural, atribuída pelo Governo pelo seu “trabalho inestimável” pela arte e artistas. Neste seu MACAM, que é a sua “segunda casa”, vivem agora criações de artistas tão relevantes como Almada Negreiros, Paula Rego, Vieira da Silva, José Malhoa, Amadeo de Souza-Cardoso, Cabrita Reis, Julião Sarmento, Rui Chafes, José Pedro Croft, Lourdes Castro, Cesariny, Cruzeiro Seixas, Marina Abramovic, Olafur Eliasson e um etc. infindável e que continua a crescer com novas aquisições. Só o projecto do hotel-museu, refira-se, envolve um investimento privado de mais de 55 milhões de euros e já recebeu mais de 80 mil visitantes além, também, do Prémio Gulbenkian Património. A sua relação com a arte, nota-se, é íntima. “Hoje comi o seu quadro preferido”, digo eu ao sr. Engenheiro, como é tratado por todos. “A Mulher de Laranja? É uma delícia”, sorri. É uma das sobremesas do restaurante, inspirada num quadro (1913) de Eduardo Viana, para o qual Armando Martins já passou “muitos anos” a olhar. Uma vendedora de laranjas numa Lisboa de outras eras que pode ser admirada no museu, uma sobremesa de “texturas de laranja, citrinos, flor de laranjeira, chá Earl Grey” para devorar à mesa. É mais um exemplo dos “diálogos” locais entre arte e quotidiano. Cinco estrelas, espaço a espaço “Somos um projecto único em Portugal”, diz-me a directora do hotel enquanto passeamos pelos espaços nobres, salientando que muitos jornalistas internacionais têm comentado que até “único na Europa” nestes moldes. “Isto é arte por todo o lado”, sublinha-se. Como, já dizíamos, até nos quartos, entre o palácio e o edifício contemporâneo. São 64 quartos, com várias tipologias e vistas (rio, ponte, casario, jardim): dos Palace aos Contemporary, incluindo familiares, estúdios ou comunicantes, cada um único. E, aqui as cinco estrelas, fazem-se valer. Algumas notas de luxo: o mobiliário adapta-se com design e materiais nobres, os colchões são “produzidos artesanalmente”, “roupa de cama e atoalhados, almofadas e edredons, confeccionados em Portugal”, as nossas amenities de casa de banho são da marca icónica Benamôr, as nossas portadas são as de madeira do antigo palácio que estão como novas e, no caso, a nossa varanda mete-nos de corpo inteiro sobre o complexo. Não faltam as comodidades modernas que se esperam de um 5* e mimos: sirva-se do vinho do Porto Dona Antónia, oferta da casa. Não experimentámos, mas abriu-nos o apetite o singular quarto Panoramic: fica no torreão único do palácio, circular, com vista 360º... Vamos agora pelos corredores, eles próprios como se fossem galerias privadas para os hóspedes, passamos o ginásio (pequeno mas de boas vistas), chegamos à biblioteca, que é um mimo, realmente palaciana, restaurada e recriada, uma sala oval repleta de peças e livros de his-tória e arte, onde não faltam os jornais de cada dia (outro detalhe histórico: João Zarco da Câmara, poeta e dramaturgo, por curiosidade também engenheiro, nasceu neste edifício em 1852; a biblioteca tem o seu nome). Mais ao fundo, outro espaço só para nós, um lounge que é um pequeno “honesty bar” em redor de uma abertura circular que nos põe a olhar para o bar àCapela, dois pisos abaixo, e ter direito a ver e ouvir o que lá se passa. No topo, a piscinatanque, que tem toda esta Lisboa ribeirinha à luz de semear, um postal infinito de ponte, Tejo e tudo. Entre o palácio restaurado e o novo edifício de fachada impactante e que formam uma espécie de U com jardim ao centro as artes interligam-se através de pátios. Cuidado por um grande veado branco, uma chamativa escultura de Miguel Branco que é estrela das selfies, está o restaurante Contemporâneo, que prolonga na cozinha a “inspiração das obras do museu”. A ementa tem, actualmente, a particularidade de ser muito directa: “Bacalhau, grão, coentros”, “Captura do dia” (o peixe do dia, era uma bela posta de corvina), “Pato, castanhas, foie-gras” ou “Povo, batatas, especiarias”. A direcção da cozinha está agora em transição (sai Tiago Valente, entra Diogo Quintas?) e as novas cartas, já em Junho, estão no segredo dos deuses. Com uma carta de vinhos bem apetrechada (se quiser um Barca Velha também há), as sobremesas apelam à arte graças à criatividade da chef pasteleira Lara Figueiredo: do “Maio de 68” (mousse, bolo e ganache de café”) à abençoada “Mulher de Laranja” ou, ficou-nos debaixo de olho, uma misteriosa “A Batata” (infusão delicada, casca crocante e puré de batata”). É de ficar de água na boca para as novidades. Há horta e padaria própria e o museu tem cafetaria com pastelaria, salgados, refeições leves, petiscos. Pela manhã, será no Contemporâneo que temos direito a outro momento de culto, um pequeno-almoço avantajado, que vai dos queijos, frutas, cereais, salmão e carnes, omeletes e pratos quentes a pedido a bolos e pastelaria da casa. A rematar a estadia no hotel, o must do local: passear pelo museu, admirando as obras coleccionadas por Armando Martins, as suas “meninas-do-olho”. Uma visita guiada darnos-á muito mais alimento para o espírito. “Aqui, todas as obras entram em diálogo”, diz-nos o nosso guia especialista Rodrigo Rodrigues, que também nos mostra a sala onde se fazem workshops eoficinas eque os hóspedes também podem aproveitar. Diríamos até que aqui, tudo, pelo hotel e museu, entra em diálogo. É outra arte. L Luís J. Santos i Dia e noite dos museus Nos dias 17 e 18 há programação especial e entradas gratuitas.com visitas orientadas às exposições e reservas, conversas, leituras, menu exclusivo no restaurante “inspirado nas obras da colecção”. Domingo: horário alargado, entrada grátis 19h/22h. Segunda: entrada gratuita, 10h/19h. Cartão hotel-museu A marcar o Dia dos Museus, um novo cartão de membro interliga entradas gratuitas todo o ano com descontos em serviços do hotel, loja e restaurante. Custa 60 euros (20% desconto este fim-de-semana de lançamento). CABE O MACAM passa a integrar o roteiro de artes contemporâneas do eixo Belém-Alcântara, Contemporary Art Belém. Um bilhete de 40EUR dá acesso a este museu e também ao MAAT, MAC/CCB e Pavilhão Julião Sarmento. Exposições Além da exposição permanente, há temporária até 1 de Junho. Pela primeira vez, convida-se outra colecção particular, a de José Carlos Santana Pinto, que no caso inclui obras de 51 artistas contemporâneos portugueses e estrangeiros em múltiplos suportes, de Chafes ou Cabrita Reis a Blaufuks ou Jaar?. Hotel e museu MACAM R. da Junqueira 66 1300-343 Tel.: 218 727 400 E-mail: hotel@macam.pt Site: macam.pt Preços: Alojamento desde cerca de 340 euros, dependendo de período e tipologia (há promoções no site). No restaurante, os pratos principais entre 28 e 34 euros, entradas 7/20EUR, sobremesas 9/15EUR. Museu: Aberto 10h-19h. Encerra terça-feira. Exposição permanente: 8,64EUR (50% dos 13 a 18 e +65, grátis até 12 anos, outros descontos). Exposições temporárias: 6,48EUR (descontos iguais). Bar à Capela: eventos de entrada livre e concertos e outros com entrada paga (para programa e bilhetes: macam.pt/pt/acapela) Hotel Museu Mértola Vista para o Guadiana e para diferentes tempos históricos A morada, na Rua do Castelo, não engana: o Marvão Hotel e Museu, inaugurado em Março, fica bem no centro da vila muralhada do Alto Alentejo. Nasceu num edifício histórico que já dava nas vistas pela janela manuelina que ostenta, e chegou a servir de habitação, mas foi sendo esvaziado de gente. “Estava em ruínas há mais de 20 anos”, conta Jorge Rosado, o empresário marvanense que o adquiriu, reabilitou e converteu em unidade hoteleira. O hotel espelha o território em que se insere, desde logo pelo recurso a matérias-primas e lavores tradicionais da região, como o granito ou os bordados com casca de castanha que decoram os 12 quartos. Aqueles bordados saem das mãos experientes de Adelaide Martins, e “nenhum é igual”. O ambiente tornase ainda mais acolhedor se pensarmos que muitos dos móveis foram recuperados e contam a história da família do proprietário como o berço de madeira que era do avô. Essa preservação da memória coexiste com confortos modernos, de que é exemplo a banheira de hidromassagem com água salgada instalada no terraço. O Marvão Hotel e Museu disponibiliza ainda um serviço de transfer gratuito que permite “melhorar a experiência do cliente”, convidado a estacionar fora das muralhas e a seguir num veículo eléctrico até ao alojamento. Algo que contribui, igualmente, para retirar automóveis do coração da vila, inserida no Parque Natural da Serra de São Mamede. Uma das marcas do projecto é a aposta no turismo acessível: Jorge Rosado faz questão de que todos possam desfrutar dos mesmos bens, incluindo as vistas dos quartos superiores. Alguém que se desloque em cadeira de rodas não fica limitado ao piso térreo: tem opções com paisagens mais cativantes, e de diferentes tipologias; um dos quartos está certificado como sendo para mobilidade reduzida e outros podem ser adaptados em função das condicionantes pessoais. Acresce que todo o edifício tem plataformas de acesso às diferentes valências, sejam rampas ou elevadores. “Uma pessoa com mobilidade reduzida pode ir ao terraço, pode entrar no restaurante, pode usar a sala panorâmica”, nada lhe está vedado, concretiza o empresário, empenhado em fazer daquele um destino inclusivo, apesar da localização numa antiga fortaleza militar. E, como lembra, uma pessoa com mobilidade reduzida pode ser uma grávida, alguém a recuperar de uma cirurgia ou de uma simples entorse. A pensar no público invisual, também são disponibilizados conteúdos em Braille, desde logo no museu. A existência de um espaço museológico é outro traço distintivo deste hotel de quatro estrelas, que conserva vestígios do passado até nos quartos. Isso mesmo atesta a suíte das talhas, com talhas romanas à vista, resgatadas da pequena adega outrora existente. O novo Museu da Rua do Castelo, focado na história desta zona da raia e na sua relação com a vizinha Espanha, tem patente a exposição “Da Pedra à Pólvora”, que permite mergulhar mais a fundo no território. “Dá a conhecer a evolução histórica desde o momento em que o Homem usou a pedra para fazer fogo e triturar os alimentos”, sintetiza Jorge Rosado. Entre as peças exibidas, além de documentos e outros objectos, está uma colecção privada de armas de fogo originais vindas do lado de lá da fronteira, “de enorme valor histórico” e simbólico, já que, “ao longo da história militar, foram usadas aqui, tanto do lado português como do espanhol”. A intenção é receber exposições temporárias de artistas da região. O museu, com entrada independente e aberto todos os dias, das 9h às 21h, está acessível aos hóspedes, sem custos, pelo interior do alojamento. Aos demais visitantes cobra-se um valor simbólico, 1,90EUR. Outro atractivo do Marvão Hotel e Museu é o restaurante Guarita, que vai buscar o nome ao abrigo estratégico que permitia ver bem o inimigo. Propõe uma cozinha de autor, a cargo do chef Daniel Almeida, tem apenas 20 lugares e chama-se assim porque quer ser “um espaço de abrigo”. C.F. É um edifício que leva séculos de existência e tem muito para contar, este que alberga o Áurea Museum, hotel de cinco estrelas com uma importante vertente museológica. Tanto, que quase todos os dias há visitas, orientadas por guias formados em História ou Arqueologia, para desvendar facetas menos conhecidas da cidade. Inês Ribeiro, arqueóloga, historiadora e co-autora do livro Segredos de Lisboa, é quem conduz a presente viagem, apoiada nas descobertas resultantes de escavações arqueológicas. Os vestígios mais antigos remontam há cerca de 7000 anos, o que permite atravessar múltiplas camadas históricas num só lugar. Estamos dentro de um antigo palácio do século XVI, construído no período da expansão marítima (há referências ao tema na decoração dos quartos). Esses palácios tinham um entreposto comercial no piso térreo, sendo o piso superior habitado por uma família nobre. Após a Guerra da Restauração, o palácio ficou na posse de D. Francisco Mascarenhas, 1.º Conde de Coculim, mas perdeu a sua função original devido ao terramoto c A construção do Hotel Museu Mértola, junto ao rio Guadiana, levou quase uma década: teve início em Maio de 2002 e só foi inaugurado em Maio de 2011. Para tal, muito contribuíram os vestígios de ocupação romana e islâmica que as obras puseram a nu. Esses achados arqueológicos atrasaram a abertura do equipamento, no centro daquela vila alentejana, mas também o tornaram mais especial. “Adaptámos o hotel às circunstâncias”, resume a directora, Maria Paula Palma, lembrando que foram uma surpresa e, ao mesmo tempo, um desafio, pelos cuidados que implicaram. Certo é que “valeu a pena”: as descobertas, visíveis da recepção, funcionam agora como atractivo extra. O núcleo museológico do hotel, de acesso livre, engloba uma área de aproximadamente 100 metros quadrados. Pode ser apreciado pelos hóspedes até à meia-noite, estando acessível a visitantes externos somente até às 16h30, para não perturbar o descanso de quem ali fica alojado, explica a directora. Outra possibilidade é fazer a visita com um guia local, por marcação prévia, para melhor compreender o que se exibe: as ruínas preservadas de um armazém romano e de um bairro islâmico, fruto da escavação arqueológica que se seguiu à abertura das fundações do edifício, naquela zona ribeirinha. Entre as peças protegidas por vitrinas estão objectos decorativos e utilitários, como tesouras, brincos, fivelas de cintos ou utensílios de pesca. O Hotel Museu Mértola, de três estrelas, disponibiliza 24 quartos, incluindo quartos triplos (a pensar nas famílias) e um adaptado a pessoas com mobilidade condicionada. Alguns oferecem vista para o rio, outros para o castelo. A piscina exterior deixa ver o Guadiana, e o bar tem refeições ligeiras na ementa. Quem quiser aliar ao património arqueológico as mais-valias naturais do território pode optar por experiências ao ar livre, como passeios de barco, observação de aves ou aluguer de canoas e bicicletas. Carina Fonseca Hotel Museu Mértola Rua Dr. Afonso Costa, 112, Mértola Tel.: 913 244 155 Site: hotelmuseu.comPreços: desde 85EUR de 1755. Já no século XX, deu lugar a um armazém da família Sommer, que vendia material industrial, e nos anos 1990 passou para as mãos do Estado. Escavações arqueológicas foram trazendo à luz valiosos achados, e o espaço, entretanto adquirido pelo grupo Eurostars, abriu, em 2018, como hotel-museu. De segunda a sábado, às 10h, partem da recepção visitas guiadas gratuitas para hóspedes, também acessíveis a não-hóspedes, mediante pagamento. Nesta segunda-feira, a propósito do Dia Internacional dos Museus, está agendada uma visita às 18h30. Começamos por admirar as ruínas de uma casa romana construída no século II d. C., de que subsistem pinturas na parede e piso em mosaico. Neste último surge representada Afrodite, a deusa do amor e da boa viagem, a descalçar uma sandália. Tratase, mais especificamente, de Afrodite Euploidia, a sua faceta de deusa protectora dos viajantes e dos mareantes, pelo que pode ter vivido ali um comerciante. A casa terá sido destruída por volta do século IV, aquando da construção da muralha defensiva da cidade na zona ribeirinha, que ainda é visível, em parte, na sala onde se serve o pequeno-almoço buffet. Neste núcleo arqueológico estão expostos os mais diversos objectos: cruzes, anéis, moedas romanas e portuguesas de diferentes séculos e até cachimbos vindos de Inglaterra e da Holanda, que deverão estar ligados ao entreposto comercial e se encontram na zona do lobby. Há também copos de medida para cereais e especiarias (comprava-se a granel) e um pequeno conjunto islâmico que pode ter pertencido a uma família que escondeu os seus pertences durante o cerco de Afonso Henriques, calcula a historiadora. Com o avançar da visita, quase esquecemos que estamos num hotel. Sobretudo perante as diferentes estruturas de uma antiga cidade romana devolvidas à luz. Vê-se com nitidez parte de uma rua que dava acesso a um fontanário e a um poço (com marcas de uso na pedra), a qual, provavelmente, continuaria em direcção ao rio. Mas o vestígio mais antigo em exposição diz respeito a um enterramento do Neolítico, o esqueleto de uma mulher junto do qual repousavam cerâmicas um vaso terá quase 7000 anos. E, dando um salto no tempo, chega-se a uma preciosa inscrição fenícia, uma estela funerária. “Não há nada escrito mais antigo na parte oeste da Península Ibérica, ou seja, Portugal”, subli-montadas, como testemunham os azulejos num salão da casa senhorial que nos acena à chegada. Dos 21 hectares, seis estão hoje afectos à produção de vinho, mas há muito mais a descobrir nesta quinta com montanhas no horizonte, em Ancede, no concelho de Baião. Atravessada pelo rio Ovil, afluente do Douro, povoada de animais e árvores de espécies autóctones, com horta e pomares de produção biológica, funciona também como hotel. Eis o Lavandeira Douro Nature & Wellness, que não se esgota nos nove quartos da imponente casa brasonada; cada vez mais rente à natureza, vão surgindo casas de diferentes tipologias: Vinha (com vista para o vinhedo), Origo (“origem”, em latim, por terem na base velhas habitações ou moinhos) e Branda (suspensas, revestidas de madeira). São refúgios que aliam granito e madeira; que se debruçam sobre as águas correntes; que casam com oliveiras e jardins de ervas aromáticas; que se querem, enfim, de mãos dadas com as riquezas locais. Ao todo, entre quartos e casas, há 27 unidades de alojamento; e até Junho deverão ser 36, porque vão ser construídas mais (inclusive, habitações familiares). Os planos de crescimento estendem-se ainda à adega, com a criação de uma loja e experiências de enoturismo. No Lavandeira Douro Nature & Wellness, a vida é para saborear com calma, e prova disso é o restaurante Elmo, no lugar da antiga cavalariça, baptizado em honra de um cavalo bastante apreciado. A dirigir a cozinha está o chef Paulo Magalhães, que recorre a produtos locais, muitos deles com origem na quinta, para confeccionar pratos de conforto assentes em sabores da região, em especial, anho e vitela. Acrescem à oferta o bar, espaço lounge, spa com piscina interior aquecida, duas piscinas exteriores, trilhos e um passadiço. Mais surpreendente poderá ser, ainda assim, o Museu do Carro Clássico logo à entrada da propriedade. Em rigor, aquele museu reúne automóveis e outros veículos, podendo ser visitado por qualquer pessoa, gratuitamente, das 10h às 20h (encerra mais cedo nos meses de Inverno). Jorge Eiras, director, garante que “não há quem fique indiferente” a tão sedutoras máquinas, ainda mais com o devido contexto. “Toda a gente fica muito surpreendida por ver um museu num projecto destes: os miúdos adoram e os graúdos também.” A colecção particular exposta abrange nove carros, dez motos e uma carruagem que nos faz recuar ao século XVIII. Esta última “destaca-se pela sua capota dupla retráctil, dividida ao meio, que permite fechar totalmente ou abrir de forma independente”, segundo informações da casa. “Historicamente, era considerada uma carruagem de luxo, com dois bancos interiores frente a frente e, por vezes, tracção animal dupla.” A época mais representada é, contudo, o século XX. Entre os exemplares que podem ser admirados está um Porsche 356, o primeiro carro de produção em série da marca. Esse modelo, fabricado entre 1948 e 1965, foi idealizado por Ferry Porsche, filho do fundador, Ferdinand Porsche, que desejava ter um carro desportivo à sua medida. Merecedor de destaque é, por outro lado, um Volvo P1800, que ganhou um lugar na história da televisão e do cinema devido à série britânica O Santo, com Roger Moore na pele de Simon Templar entre 1962 e 1969. “O modelo branco utilizado na série (matrícula original NUV 648E, mais tarde alterada para ST 1) era, em certas fases, propriedade do próprio actor Roger Moore”, faz saber o hotel, defensor dos conceitos de slow life e slow food. Acelerar, aqui, só mesmo na ficção. C.F. Lavandeira Douro Nature & Wellness Rua da Lavandeira, Ancede, Baião Tel.: 910 905 093 Site: lavandeiradouro.comPreços: a partir de 220EUR (quartos) 380EUR (casas) Marvão Hotel e Museu Rua do Castelo, 1, Marvão Tel.: 245 240 990 Site: marvaohotelmuseu.comPreços: desde 125EUR Áurea Museum O luxo de dormir num antigo palácio rente ao Tejo Marvão Hotel e Museu História e laços entre hermanos Os vestígios protegidos, em Mértola; e a janela manuelina, em Marvão. Na pág. 12: Áurea Museum, em Lisboa, e o Lavandeira Douro, em Baião Toda a gente fica muito surpreendida por ver um museu num projecto destes: os miúdos adoram nha a guia. “É extremamente rara.” Um luxo, portanto. A acompanhar os 91 quartos, de diversas tipologias, alguns com vista para o Tejo, ao dispor dos hóspedes.com direito ainda a bar, restaurante, ginásio e spa munido de piscina interior. C.F. Áurea Museum Rua Cais de Santarém, 52, Lisboa Tel.: 211 166 100 Site: eurostarshotels.com.pt/ aurea-museum.html Preço: O grupo Eurostars prefere não revelar o valor mínimo da estadia Lavandeira Douro Nature & Wellness Uma colecção de carros clássicos entre vinhas e montanhas Estamos numa propriedade secular, em tempos usada pela nobreza para Luís J. Santos; Carina Fonseca