pressmedia logo

O ESTADO TENTOU TRAVAR A ENTRADA DO MERCADO NA SAÚDE - E ACABOU POR TORNÁ-LO CAÓTICO

Diário de Aveiro

2026-05-17 21:10:09

Atentativa de controlar administrativamente a medicina criou um sistema que desvaloriza quem garante estabilidade e paga excessivamente pela gestão da crise. O debate sobre os salários médicos em Portugal é frequentemente reduzido a caricaturas ideológicas Uns insistem que O SNS está a ser destruído pelo mercado. Outros defendem que o problema é apenas falta de dinheiro. Mas, a realidade é mais complexa. O verdadeiro problema é que Portugal construiu um sistema disfuncional: demasiado centralizado para premiar mérito, responsabilidade e diferenciação, mas suficientemente desorganizado para criar distorções de mercado. Durante anos, o sistema foi-se tornando pouco capaz de distinguir adequadamente diferentes níveis de responsabilidade, penosidade e diferenciação técnica. A lógica parecia virtuosa: proteger a igualdade dentro da profissão médica e impedir desigualdades excessivas. Mas a re-sistência ideológica à diferenciação remuneratória e organizacional acabou por reduzir a capacidade do sistema de reconhecer, de forma clara e consistente, diferentes níveis de responsabilidade, desgaste e escassez. O resultado foi precisamente o contrário. Hoje, especialidades estruturais para o funcionamento do sistema de saúde , como medicina interna, cirurgia geral, medicina intensiva, anestesiologia, medicina de urgência e medicina geral e familiar vivem sob enorme pressão, dificuldade de retenção e desgaste acumulado. são áreas que asseguram continuidade assistencial, capacidade de resposta permanente e estabilidade organizacional. Ño entanto, muitos dos profissionais que suportam estas áreas sentem-se progressivamente desvalorizados dentro do próprio sistema. Enquanto médicos do quadro acumulam anos de urgências, noites e responsabilidade contínua com progressões lentas e remuneração pouco diferenciada face ao nível de responsabilidade, muitos hospitais tornaram-se progressivamente dependentes de contratação externa para assegurar escalas que deixaram de conseguir preencher de forma estável. O paradoxo tornou-se evidente: o sistema tem dificuldade em valorizar e reter equipas permanentes, mas aceita pagar muito mais para resolver falhas imediatas através de soluções tem-porárias, criando a sensação de que uns carregam diariamente o piano, enquanto o maior reconhecimento fica reservado para quem aparece apenas na hora do concerto. Num mercado funcional existem regras previsíveis, transparência e incentivos relativamente estáveis. O que temos atualmente é outra coisa: uma economia de escassez permanente, onde a remuneração depende frequentemente do grau de colapso iminente. O sistema não recompensa necessariamente os mais competentes, os mais dedicados ou os que assumem maior responsabilidade estrutural. Recompensa os mais escassos no momento de maior fragilidade organizacional. Mesmo os sistemas públicos mais respeitados da Europa incorporam mecanismos de diferenciação, autonomia e responsabilização. A ideia de que um serviço nacional de saúde forte exige uniformização rígida e controlo administrativo centralizado não encontra grande paralelo nos modelos europeus mais bem sucedidos. Portugal, pelo contrário, permaneceu demasiado tempo preso a uma visão excessivamente centralizada da gestão da saúde. A desconfiança ideológica em relação à diferenciação remuneratória, à autonomia de gestão e aos incentivos individuais contribuiu para um sistema pouco flexível, lento a adaptar-se e frequentemente incapaz de responder à escassez de profissionais e ao aumento da complexidade assistencial. O resultado acabou por ser paradoxal. Ao tentar limitar mecanismos transparentes de diferenciação e concorrência regulada, o sistema abriu espaço à forma mais desorganizada e dispendiosa de mercado: a negociação permanente em contexto de urgência, a dependência de contratação externa e a valorização reativa da escassez em vez da estabilidade. O SNS é e continuará a ser um pilar essencial da sociedade portuguesa, mas não poderá sobreviver apenas com boas intenções ou discursos morais sobre dedicação. Precisa de incentivos inteligentes, capacidade de gestão, autonomia organizacional e valorização diferenciada do trabalho mais exigente, mais penoso e mais escasso. Nenhum sistema consegue sobreviver indefinidamente quando desvaloriza a permanência e recompensa excessivamente a exceção. O mercado entrou no SNS não pela porta de uma reforma liberal planeada, mas pela janela da emergência permanente. E enquanto continuarmos a apagar incêndios em vez de corrigir as causas da combustão, o sistema continuará preso a um ciclo de exaustão, improviso e desigualdade interna crescente. Médico especialista em Medicina Intensiva e Medicina Interna Membro do GCL da Iniciativa Liberal de Aveiro Eduardo Santos Ribeiro