POSICIONAR A REGIÃO NO CENTRO DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA
2026-05-17 21:10:09

POLíTICA “A ONOMIA FAZ BEM A SAUDE” Adalberto e Sobrinho Simões defendem ciência, prevenção e literacia em saúde e alertam para desafios da medicina e dos sistemas de saúde odrumond@dnoticias.pt Na conferência 50 Anos de Autonomia Saúde , realizada no Auditório da Reitoria da Universidade da Madeira, o ex-ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandac e o médica natalngicra Manuel Sobrinho Simões defenderam uma mudança estrutural ono modelo de saúde, centrada na ciência, na prevenção e numa nova organização dos cuidados, num contexto marcado pelo envelhecimento populacional, pelo aumento dos custos e pela transformação tecnológica. à margem e durante a conferência, Adalberto Campos Fernandes sublinhou que o futuro da saúde depende da articulação entre ciência, inovação e governa-ção, considerando que o novo Hospital Central e Universitário da Madeira representa uma oportunidade estratégica. “Estamos no limiar das fronteiras de um tempo novo.com a inteligência artificial, a ciência dos dados, a inovação tecnológica”, afirmou, defenden1naa «n hospital An Arara não que vai ser o hospital em que nós estudámos e onos formámos”. O ex-governante destacou ainda que a Madeira pode afirmar-se como um espaço de referência na investigação e formação, integrando cuidados clínicos e produção de conhecimento. «e uma oportunidade para posicionar a Região no centro da investigação científica, da inovação e da formação de quadros”, referiu, sublinhando a importância de redes internacionais e cooperação institucional. Já em conferência, Adalberto Campos Fernandes alertou para os impactos da urbanização na saúde pública, apontando a calçada portuguesa como “o desastre que é a calçada portuguesa”, devido ao número de quedas e internamentos associados, sobretudo em populações mais envelhecidas. Defendeu que as cidades devem ser pensadas como “espaços de saúde”, onde mobilidade, segurança e envelhecimento se-jam integrados no planeamento urbano. O antigo ministro sublinhou que decisões em saúde devem ser baseadas na evidência científica e não em impulsos políticos. “A autonomia faz bem à saúde”, afirmou, defendendo que maior provimiaa antcAra pode Hrodr zir-se em melhores resultados para as populações. Adalberto alertou ainda para desigualdades persistentes no acesso aos cuidados e para os desafios da transformação digital, nomeadamente na telemedicina e na inteligência artificial. Embora reconheça o potencial destas ferramentas, advertiu para riscos na literacia digital e na protecção de dados clínicos, defendendo uma governação mais eficiente e orientada para resultados. Na mesma linha, defendeu uma mudança estrutural na forma de organizar o sistema de saúde, com foco na prevenção e na saúde pública. “Se caímos apenas na ratoeira de ir atrás da despesa, não teremos sucesso”, afirmou, acrescentando que “estamos a cair na ratoeira da indústria farmacêutica, que é ir atrás da doença”. Investigação, sobrediagnóstico e medicina centrada nas pessoas Já o médico patologista Manuel Sobrinho Simões defendeu na conferência uma nova medicina centrada nas pessoas, sublinhando a articulação entre investigação científica, prática clínica e impacto social. “Temos de evoluir numa coisa muito simples: compreender e personalizar”, afirmou, alertando para os riscos do sobrediagnóstico e da utilização excessiva da palavra cancro sem enquadramento clínico. O especialista destacou o projecto do Centro Internacional de Investigação do Cancro na Madeira, associado ao futuro hospital, considerando que a Região tem uma “hipótese única de salto de qualidade”. Sublinhou que a insularidade pode ser uma vantagem científica, permitindo estudar alterações genéticas de forma mais precisa. “Nas ilhas, quando há alterações genéticas, podemos estudá-las melhor porque ficam confinadas”, explicou, defendendo que a Madeira pode tornar-se um laboratório natural para investigação em saúde. Sobrinho Simões reforçou ainda que o essencial do sistema de saúde não é apenas a investiga-ção, mas o impacto directo nas pessoas. “o mais importante é o apoio aos doentes e às famílias”, afirmou, defendendo modelos mais próximos, com diagnóstico precoce, rastreios e acompanhamento continuado. O médico alertou ainda para o crescimento das doenças crónicas e para a necessidade de equipas multidisciplinares, sublinhando que viver mais não significa necessariamente viver melhor. Defendeu igualmente que a inteligência artificial será uma ferramenta relevante, mas não substitui a decisão clínica, devendo ser integrada como apoio ao médico. No final, ambos os intervenientes convergiram na ideia de que o futuro da saúde dependerá da capacidade de integrar ciência, tecnologia e organização dos sistemas, com maior literacia em saúde, mais prevenção e uma medicina centrada nas pessoas. O repto foi deixado pelo ex-ministro da saúde, Adalberto Campos Fernandes. Na conferência 50 anos de Autonomia , foram abordados os desafios da inovação tecnológica, do financiamento e da sustentabilidade do sector, num debate em que a calçada portuguesa foi apontada como “desastre para a saúde pública” P.2E3 ADALBERTO: “CALçADA PORTUGUESA e UM DESASTRE PARA A SAuDE PuBLICA” ALBUQUERQUE Sustentabilidade da saude em debate “Qual a solução para a sustentabilidade dos sistemas de saúde?” e “como convencer o doente de que nem sempre é necessário intervir em lesões de pequena dimensão?” foram as questões colocadas pelo presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, na sessão aberta da conferência 50 Anos de Autonomia = Saúde . Na resposta, Adalberto Campos Fernandes defendeu que o sistema não pode “cair na ratoeira de ir atrás da despesa”, alertando também para a influência da indústria farmacêutica na orientação dos cuidados. “Por cada euro que metemos na pro- moção e prevenção, poupamos dez euros”, afirmou, defendendo um reforco claro da prevenção e da saúde pública. o ex-ministro sublinhou ainda que “ os custos vão subir e vão subir mais rápido”, apontando a necessidade de reorganizar o sistema, onde “metade dos portugueses têm cuidados a mais e metade têm cuidados a menos”. Já o patologista Manuel Sobrinho Simões alertou para o risco do sobrediagnóstico em oncologia, defendendo maior prudência na linguagem clínica. “Não podemos utilizar a palavra cancro sem enquadramento da sua gravidade”, afirmou, sublinhando a im- portância de reforçar a literacia em saúde para evitar alarmismo e intervenções desnecessárias. Ambos destacaram ainda a necessidade de maior precisão clínica e reforço da comunicação com os doentes num contexto de crescente pressão sobre os sistemas de saúde. à margem da conferência, Albuquerque voltou a sublinhar que o novo Hospital Central e Universitário da Madeira deverá integrar investigação científica e cooperação internacional, com uma área dedicada de cerca de cinco mil metros quadrados e aposta em tecnologia avançada e cirurgia robótica. Conferência 50 Anos de Autonomia Saúde abordou os desafios da medicina, da investigação e dos sistemas de saúde FOTOS HeLDER SANTOS/ASPRESS SOBRINHO SIMoES: “O MAIS IMPORTANTE e O APOIO AOS DOENTES E àS FAMíLIAS” MUDANçA DE MENTALIDADE 10 presidente da Estrutura de Missão do Hospital Central e Universitário da Madeira, Pedro Ramos, defendeu uma mudança de mentalidade no sector da saúde, sublinhando a importância da literacia, da prevenção e da reorganização do sistema. No encerramento da conferência, afirmou que a tecnologia e a informação digital exigem novas formas de decisão. “Temos de alterar mentalidades”, disse o ex-secretário regional da Saúde, defendendo que a literacia em saúde deve ser responsabilidade dos sistemas e profissionais. O responsável sublinhou que mais literacia significa melhores decisões clínicas e maior segurança para os doentes, reforçando a aposta na “protecção, prevenção, predição e personalização”. Defendeu ainda uma visão de futuro para a Região, apontando a construção de uma Madeira “saudável, segura, sustentável e solidária”, bem como uma adaptação aos desafios da digitalização e da transição demográfica. MAIS FINANCIAMENTO O presidente da Estrutura de Missão para as Comemorações do 50.0 aniversário da Autonomia da Madeira, João Cunha e Silva, defendeu o reforço das contrapartidas financeiras do Estado para a Região no sector da Saúde, alertando para um défice estrutural no modelo de financiamento. Na abertura da conferência, recordou que a regionalização na Madeira começou em 1977, quando existiam três unidades de saúde, sublinhando a evolução para as actuais 51 unidades. Ainda assim, afirmou que o crescimento do sistema não foi acompanhado pelo financiamento adequado. “ Hoje em dia, qualquer Câmara Municipal não aceita qualquer transferência de competências se não vier acompanhada de contrapartida financeira”, referiu. Cunha e Silva alertou para os “custos de insularidade” e defendeu o seu reconhecimento no financiamento estatal. “ somos uma região insular ultraperiférica”, disse, sublinhando as dificuldades no transporte de pessoas, bens e energia. o responsável considerou que o actual modelo gera um défice persistente e deve ser renegociado com o Estado. “Não podemos deixar que isto continue assim indefinidamente”, afirmou. Criticou ainda a falta de compromisso negocial de Lisboa: “O Estado não luta, não senta, não conversa, não se compromete”. Defendeu por fim um consenso político e institucional para corrigir o que classificou como um bloqueio histórico no financiamento da autonomia. ORLANDO DRUMOND