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RAMIRO BRITO, PRESIDENTE DA AEMINHO - MINHO É O MOTOR DA ECONOMIA DO PAÍS

Diário do Minho

2026-05-17 07:03:04

entrevista Fotos André Arantes Ramiro Brito Presidente da Direção da Associação Empresarial do Minho «O Minho é, factualmente, o motor da economia do país» Ramiro Brito, presidente da AEMinho, faz o balanço dos cinco anos da associação, defende uma voz empresarial livre e independente e aponta a burocracia, a carga fscal e a falta de mão de obra como grandes entraves ao crescimento. Diário do Minho (DM) , A AEMinho nasceu há cinco anos com a ambição de unir os empresários da região. Qual foi a principal conquista? Ramiro Brito (RB) , A principal conquista foi superar aquilo a que nos propusemos. Nascemos com o propósito de unir os empresários e criar uma comunidade empresarial com sentimento de pertença, integrando Braga e Viana do Castelo numa visão comum do Minho. Cinco anos depois, superámos claramente as expetativas. Não apenas pelo mérito dos fundadores, mas sobretudo pe-la resposta da comunidade empresarial. O maior mérito é das empresas, que deram solidez, sustentabilidade e voz à associação, na região e no país. DM , A associação surgiu num período difícil, marcado pela pandemia, inflação e instabilidade internacional. Como é que essas crises moldaram a atuação da AEMinho? RB , Nascemos num contexto adverso, mas muitas vezes é nesses contextos que surgem grandes feitos. Uma comunidade empresarial coesa, ativa e estruturada tem o poder de transformar a sociedade. A AEMinho foi forjada nessa necessidade de união. Percebemos que a comunidade empresarial precisava de uma voz ativa nas grandes decisões da região e do país, uma voz construtiva e ouvida. Nascemos sob o princípio da liberdade: uma associação livre, autónoma e autofinanciada. Essa liberdade tem sido usada a favor de uma comunidade empresarial mais forte e de uma região mais dinâmica. DM , O que distingue os empresários minhotos na sua capacidade de adaptação? RB , Os empresários minho-tos estão habituados a fazer pela vida. Construímos o nosso caminho sem contar com grandes alavancas externas, e isso dá-nos força, resiliência e disciplina. O Minho é uma região de portas abertas, feita de pessoas focadas, esforçadas e disponíveis para cooperar. A nossa capacidade de cooperar, resistir e projetar o futuro é praticamente única no país. DM , Nestes cinco anos, as empresas passaram a trabalhar mais em rede? RB , Sim. Logo na primeira reunião da futura direção da AEMinho, duas pessoas conheceram-se e daí resultou a aquisição de uma empresa que ia fechar, salvando dezenas de postos de trabalho. Esse é talvez o maior legado: termos criado uma comunidade. Um espaço comum onde as empresas sentem que pertencem, pensam em conjunto, querem contribuir e procuram transformar a economia e a sociedade. O sentimento de pertença das empresas em relação à AEMinho é, talvez, o maior barómetro destes cinco anos. DM , A internacionalização tes diplomáticos de várias geografias para criar novos laços comerciais. DM , Muitos empresários apontam a carga fiscal, os custos energéticos e a burocracia como obstáculos. O que falta mudar? RB , Nessas dimensões, falta praticamente tudo. A burocracia é um cancro funcional do país. Mata, asfixia e alastra. Impede investimento, cria incerteza e torna tudo imprevisível. Também temos de mudar a relação entre o Estado e os cidadãos. O Estado parte muitas vezes do princípio de que cidadãos e empresas são potenciais infratores, enquanto ele próprio se coloca numa posição de perfeição. ca não pertence apenas às empresas tecnológicas. É transversal à indústria, à agricultura, à metalomecânica, ao calçado, à logística, aos transportes e aos serviços. Temos empresas com maturidade tecnológica invejável e uma diversidade industrial muito relevante em Braga e Viana do Castelo. Se houver apoio adequado, o Minho pode multiplicar essa transformação de forma muito eficiente. DM , A escassez de mão de obra qualificada é hoje um dos maiores desafios? RB , É um desafio nacional. Portugal tem falta de mão de obra qualificada e de mão de obra em geral. Vamos precisar de importar As empresas do Minho têm o espírito dos Descobrimentos é um dos pilares da associação. As empresas do Minho estão mais preparadas para competir fora? RB , As empresas do Minho são fiéis depositárias do espírito dos Descobrimentos. Entram num avião, vão para geografias desconhecidas e abrem caminho. A AEMinho não criou essa dinâmica, porque ela já existia. O nosso papel é evidenciar caminhos, abrir portas e aproximar empresas de novas oportunidades. O Minho tem um histórico muito positivo lá fora. Quando dizemos que somos do Minho, muitas vezes já existe uma reputação de seriedade, persistência e capacidade de criar valor. Não vamos para fora apenas retirar recursos; vamos para fazer parte desse mundo. No aniversário da AEMinho, na Cimeira da Indústria, vamos promover um almoço de diplomacia económica, juntando empresários e representan-Na fiscalidade, o problema é igualmente grave. As empresas trabalham vários meses por ano apenas para pagar impostos. Além disso, a arquitetura fiscal é quase impossível de compreender sem literacia fiscal avançada. Isso não é por acaso: torna mais difícil questionar o sistema. É preciso reformar tudo. Pela primeira vez, vejo sinais positivos numa verdadeira reforma do Estado. O ministro Gonçalo Matias fez um retrato realista do país, e a AEMinho está totalmente disponível para colaborar nessa transformação. DM , O Minho tem forte tradição industrial. Como avalia a capacidade das empresas para acompanhar a inovação e a digitalização? RB , O Minho pode liderar a transformação tecnológica em Portugal. Não temos os milhões de Lisboa, mas temos diversidade económica e industrial. A transformação tecnológi-trabalhadores, mas também de redesenhar a formação. Durante décadas vendemos a ideia de que todos tinham de ser licenciados, mestres ou doutores, criando um estigma em relação ao ensino profissional. Hoje faltam quadros médios e técnicos. Um canalizador, por exemplo, pode ganhar mais do que muitos licenciados. Preci-samos de alinhar a oferta formativa com aquilo que o mercado precisa, sempre com os olhos postos na realização dos trabalhadores. A AEMinho tem procurado trabalhar essa proximidade com a Universidade do Minho, o IPCA e o IPVC. DM , A AEMinho tem procurado afirmar-se como voz independente. As preocupações do Minho são hoje mais ouvidas em Lisboa? RB , Lisboa não está a 200 e tal quilómetros; em termos de comunicação, está a uns dois mil. Mas hoje temos uma voz mais ouvida do que há cinco anos. Ainda não estamos no ponto de chegada. Estamos no caminho. A independência da AEMinho é uma mais-valia para o poder político, porque está ao serviço da região e do país, não contra ninguém. Não somos agentes políticos nem queremos interferir na política. Queremos ser vistos como uma entidade que acrescenta. Mais do que ser ouvidos, queremos ser respeitados. Hoje é fácil fazer barulho, mas a AEMinho não quer fazer barulho por fazer. Quer contribuir com seriedade, humildade e sentido de responsabilidade. DM , A desaceleração económica, os juros elevados e a incerteza política estão a afetar as empresas? RB , A desaceleração não é apenas europeia, é mundial. E nós estamos nesse barco. Mas a economia minho - ta tem caraterísticas que podem ser uma vantagem: somos um tecido empresarial de especialidade, criador de valor e com grande flexibilidade. Isso permite maior capacidade de adaptação. No financiamento, o problema é sério. A banca tradicional em Portugal não é suficientemente amiga da economia. Exige garantias muitas vezes impossíveis e, quando uma empresa tem dificuldades, a primeira reação é agravar juros. Nenhuma empresa escala sem financiamento. Ferramentas como private equity e fundos de capital podem ajudar, e a AEMinho tem procurado ser ponte nessa matéria. Mas isso não substitui o papel que a banca tradicional deveria ter. DM , O Estado reconhece o peso económico do Minho? RB , O Estado, funcionalmente, não reconhece devidamente as empresas como ativo económico e social. Muitas vezes trata-as como fonte de financiamento dos seus próprios caprichos. A relação das empresas com a administração pública é ridícula, cheia de processos intermináveis e imprevisíveis. Um investimento pode perder-se simplesmente porque o Estado demora anos a decidir. Portugal precisa de ser atrativo para o investimento. Isso não se faz apenas com turismo, campos de golfe ou uma boa embalagem. Faz-se com previsibilidade, eficiência e respeito pelas empresas. O Estado tem de fazer as pazes com as pessoas e com as empresas. DM , Que visão tem para a próxima década da AEMinho? RB , Queremos ser, cada vez mais, o ponto de encontro das empresas do Minho. Essa é a nossa matriz e a nossa missão. O maior legado será um tecido empresarial que cresça, se transforme, se multiplique e seja cada vez mais ativo. O Minho é, factualmente, um motor da economia do país. E nós queremos acelerar. Queremos que a AEMinho seja a identidade real em que as empresas do Minho se reveem. Mais do que ser ouvidos, queremos ser respeitados. O legado da AEMinho deve ser esse: tornar-se, ao longo da sua existência, o grande ponto de encontro da comunidade empresarial minhota. Lisboa ainda está longe, mas hoje o Minho já é mais ouvido A entrevista foi feita no Muzeu, em Braga Ana Oliveira