pressmedia logo

AS ANDORINHAS, A REFORMA PATRONAL E O TINTO BARATO QUE DUROU 40 ANOS

Público

2026-05-16 21:09:17

Elogio do vinho 1. Num lindo dia de sol, dois trabalhadores de roçadeira às costas cortavam erva numa vinha velha com quase 50% de inclinação. Ao mesmo tempo, várias andorinhas volteavam sobre o restolho, grinfando sem parar. Os homens sofriam para se manter em pé; as andorinhas divertiam-se em revoada, aproveitando o caos insectívoro provocado pelo corte das ervas para se alimentar em pleno voo e levar comida às suas crias. O campo, o campo dos animais e das plantas, espelho do mundo, é assim: o sacrifício de uns é a felicidade de outros. 2. Em Espanha, por exemplo, os CEO das maiores empresas cotadas em bolsa ganharam no ano passado, em média, 103 vezes mais do que os seus empregados. Por cá, ainda ninguém se deu ao trabalho de fazer as contas, mas não é muito diferente, como se sabe. Se calhar, não é apenas de trabalhadores mais produtivos que o país precisa, é também de melhores empregadores. De uma reforma patronal, portanto. 3. O casal Ramalho é curioso: ele, o marido, o banqueiro, sacou o máximo do Estado em favor do Novo Banco (e foi recompensado com um chorudo bónus); ela, a esposa, a ministra, tenta tornar a vida um pouco mais difícil aos trabalhadores, para o suposto bem do Estado. Uma mão a lavar a outra ou apenas mais um exemplo de um casal disfuncional, neste caso sem problemas de tesouraria e de emprego. 4. Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos após a apresentação de mais um lucro recorde do banco público no primeiro trimestre (397 milhões de euros): “Não estou pessimista em relação aos resultados da Caixa em 2026”. Era para estar? 5. Luís Montenegro não consegue falar sem sorrir, pelo que de certeza nem ele acredita no que diz, que o país está muito bem, que o mundo nos admira e elogia e que este Governo vai ficar na história. 6. Há dias, numa urgência de um hospital público da zona de Lisboa. Um homem tenta explicar o que lhe aconteceu mais ou menos nestes termos: “Eu bêbado. Polícia levar para a esquadra. Polícia bater. Eu não ouvir nada. Vir ao hospital.” O homem, segundo confessou, estaria bêbado e a falar alto. A polícia tê-lo-á chamado à atenção. Como não obedeceu, foi levado para a esquadra, onde terá sido agredido na cara e na cabeça. Deixou de ouvir de um dos ouvidos. No dia seguinte, já solto e sóbrio, foi ao hospital, onde lhe diagnosticaram uma ruptura total de um dos tímpanos. O homem, negro e pobre, foi tratado e medicado com antibióticos e mandado para casa, mas já referenciado para cirurgia, caso o tímpano não recupere. Os médicos fizeram o seu trabalho, o Serviço Nacional de Saúde cumpriu a sua função. Só faltou a denúncia do caso ao Ministério Público. O ódio ao negro, ao homossexual, ao sem-abrigo, ao emigrante pobre, ao cigano, a tudo o que em algumas cabecinhas possa soar a marginal, está a crescer no país, estimulado pelo discurso nacional-chegano. Querer devolver Portugal aos portugueses de bem, livrando-o de bandidos e parasitas, como defende o líder do Chega, dá nisto, nesta cultura odiosa e eugénica, que já infestou as próprias forças de segurança, como o demonstram as recentes detenções de vários agentes da PSP, suspeitos da prática de tortura e de outros crimes. O intolerante Ventura relativiza estes comportamentos “desviantes”, preferindo disparar contra o ministro da Administração Interna, por prometer tolerância zero aos abusos policiais. É típico do personagem, não surpreende, nem incomoda. O que incomoda é o silêncio dos polícias bons. Em vez de aplaudirem as detenções e as expulsões, para não se verem injustamente incluídos no mesmo saco, calam-se, deixando a sua defesa para o líder do Chega. Ah valentes! 7. J.M. Coetzee, o vencedor do Nobel da Literatura em 2023 que quase me fez vegetariano com o seu livrinho A Vida dos Animais, um misto de literatura e ensaio filosófico, era um apoiante de Israel. Agora, está no lado oposto, devido à campanha “para aniquilar Gaza”, apoiada entusiasticamente, diz, pela “vasta maioria da população israelita, incluindo as suas comunidades intelectuais e artísticas”. Aconteceu o mesmo com a Alemanha e o nazismo. Merecia outro Nobel. 8. A restauração e o sector do vinho (como muitos outros negócios) estão a enfrentar grandes desafios, com elevados aumentos de custos e contínuas quebras de procura. As causas podem ser várias: as guerras a sério, as guerras tarifárias, as mudanças dos hábitos de consumo e o excesso de oferta. Se temos um bolo para dez pessoas e aparecem 100, ou ficam alguns sem comer ou comem todos menos. Depois do período de expansão do pós-covid, parece estar a acontecer um ajustamento, uma espécie de selecção natural. Normalmente, os maiores operadores saem destes movimentos ainda maiores e os que mais sofrem nem são os muito pequeninos, são quase sempre os pequenos e médios. Contrariar uma selecção natural com apoios estatais é como querer apagar um grande incêndio florestal com vassouras de giestas. Ainda mais quando sabemos que comer em restaurantes ou beber vinho não são necessidades vitais. Defender o nosso quintal, sem pensar nos milhões de portugueses que vivem com grandes dificuldades, talvez não seja uma ideia muito popular e ajuizada. 9. Na última crónica falei do Barca Velha, um vinho com um preço inacessível ao comum dos portugueses. Há dias, num almoço de conterrâneos em Gaia, o anfitrião lembrou-se disso e fez uma surpresa. Calhou-lhe oferecer o vinho; os restantes levaram do Douro o cabrito assado, o folar, a bôla de carne e muitas memórias de juventude na terra. “Lembram-se daquela noite em que todos choravam, já com os copos? Um porque já não tinha mãe, outro porque já não tinha pai. Até o Ginho chorava. Mas tu ainda tens pai e mãe, porque choras? Rasguei as calças! ”. O primeiro vinho foi servido às cegas. Era um tinto de 1986 e da mesma família do Barca Velha. Estava belíssimo, apesar de já ter 40 anos, mas não era nem Reserva Especial, nem Quinta da Leda. Era o pequenote da Casa Ferreirinha, o Esteva, um tinto duriense que custa 3,50EUR em algumas superfícies comerciais. Quem diria! Não é só a Sogrape que consegue estes “milagres”. Há inúmeros vinhos de outros produtores no mercado que oferecem muita qualidade por pouco dinheiro. Colocando-me no lugar do consumidor, é este o lado bom das crises, que vão e vêm como as andorinhas migradoras, embora não com a cadência previsível das estações. Jornalista e produtor de vinho no Douro Uma mão a lavar a outra ou apenas mais um exemplo de um casal disfuncional Pedro Garcias