ESPAÇO PÚBLICO - ENFERMEIROS, UM CONGRESSO E QUATRO FRUSTRAÇÕES
2026-05-16 21:09:17

Éum congresso maior do que os partidários, com oito mil inscritos e com uma presença inédita: Luís Montenegro, primeiro-ministro, esteve ontem na plateia da reunião magna dos enfermeiros, em Gondomar, acompanhado pela ministra da Saúde. No último dia do encontro (hoje), vai ser apresentado o Livro Branco da Enfermagem, que faz o diagnóstico, compila as principais preocupações quanto ao futuro da profissão e propõe medidas a adoptar. “Autonomia profissional e responsabilidade clínica” e “Enfermagem em fuga?” são os temas centrais. Um apanhado de dados recentes (de diferentes fontes) mostra que em 2020 havia mais de 15 mil profissionais a exercer no estrangeiro (um aumento superior a 500% desde 2000), que, três anos depois, 60% dos novos inscritos sinalizaram a intenção de emigrar, que 30% apresentavam sintomas de depressão grave em 2024, que 35% das 1036 notificações de agressão contra profissionais de saúde em 2023 tiveram como vítimas enfermeiros. A questão é salarial, mas não só. Tem que ver com estatuto profissional, organização do trabalho, falta de previsibilidade de carreira, insegurança física e sensação de desvalorização, e subaproveitamento. Em resumo, os enfermeiros acumulam quatro frustrações, se não mais: uma carreira errática; horários exaustivos; falta de autonomia; e falta de reconhecimento. O seu objectivo é ocupar um novo lugar no sistema, que os apresente como um pilar em vez de mais uma peça. Dão como exemplo os modelos dos Estados Unidos, do Reino Unido ou de Espanha, que, embora diferentes entre si, defendem enfermeiros mais autónomos no diagnóstico, no prognóstico, na prescrição e até em algumas intervenções e funções clínicas. Para isso, e por isso, têm insistido na questão da autonomia. A ida de Luís Montenegro ao congresso de Gondomar foi revestida de uma importância simbólica. Mostrou que os ouvidos do Governo estiveram lá para realmente registar os anseios, as angústias e as propostas destes profissionais. E criou a expectativa de que o executivo quer ter uma palavra a dizer nesta matéria e está envolvido na procura de uma solução. O problema é que, neste momento, os enfermeiros também sofrem de outro mal: já não acreditam na capacidade de o Estado (que vai além do actual Governo) cumprir o que tem vindo a prometer. Restabelecer a confiança é uma prioridade. Editorial A questão é salarial, mas não só. Tem que ver com estatuto pro ssional, organização do trabalho, falta de previsibilidade de carreira, insegurança física e sensação de subaproveitamento Sónia Sapage