A DESTRUIÇÃO DAS PALAVRAS
2026-05-15 21:09:22

á dias, numa crónica do Expresso online, interroguei-me sobre o modo de caracterizar as ações hediondas, intoleráveis, bárbaras de agentes da PSP contra sem-abrigo e imigrantes. ê difícil, depois de estas palavras terem sido gastas com casos menores, em metáforas ditirâmbicas, delirantes, descrever um ato que ultrapassa tudo o que já foi dito com essas mesmas palavras. Um caso recente que serve apenas de exemplo , foi quando o líder da UGT acusou os autores do pacote laboral de quererem introduzir em Portugal um “regime esclavagista”. Numa crónica no “Observador”, a jornalista Helena Garrido chamou-lhe “radicalização laboral”. Tem razão, mas o problema vai muito para lá da questão laboral. Também Francisco José Viegas referiu o mesmo problema, evocando palavras como “resiliência” como sinónimo (que não é) de resistência, ou a designação de ativista como se fora uma profissão, ou a palavra “tóxico” para designar o que não gostamos. E termina a crónica em que escreve estes exemplos (no “Correio da Manhã”) de um modo subtil: “Esta coluna é vista como tóxica por certos ativistas . Não diz as coisas da moda.” Também está cheio de razão, mas isto, do meu ponto de vista, é mais do que moda. Mais do que a radicalização ou adesão a modas sem nexo, o que já de si é funesto, a utilização de palavras cada vez menos exatas e cada vez mais frenéticas para vincar distâncias políticas ou comportamentais contribui voluntariamente para o afastamento do outro, para a impossibilidade de diálogos frutíferos, para a criação de barreiras e linhas por onde apenas passam os da nossa tribo. o exemplo mais acabado deste estilo foi dado esta semana pelo presidente da associação de médicos tarefeiros, que acusou o Governo, e em particular a ministra da Saúde, de “tentativa de homicídio” das populações do interior. Este médico, Nuno Figueiredo e Sousa, deve saber minimamente o que é uma tentativa de homicídio e, caso não se deixasse entusiasmar pelas palavras, como na moda da radicalização, cairia em si e veria que a acusação é absurda. Tão absurda como a do esclavagismo. o problema é que provavelmente este médico, ao mesmo tempo (ou mesmo antes) de ser médico, é ativista . E não pode deixar de subir a parada em todas as intervenções. Curiosamente, já ouço algum leitor dizer que é deste estilo que a comunicação social gosta, é este tipo de frases ribombantes a que dá destaque. ê verdade, mas a comunicação social deveria ser um mediador e os agentes políticos, sindicais e associativos não deviam correr atrás da manchete , mas sim da razão que podem ter os seus argumentos. O caso da Saúde é, na verdade, um assunto de estudo. O SNS é sempre apresentado como estando pior. E, objetivamente, é verdade que as listas de espera aumentaram, principalmente o tempo de espera em cardiologia e oncologia. Também deve ser verdade a desorganização e excesso de burocracia. Mas quando se discute O SNS há aspetos raramente abordados. O envelhecimento da população, o aumento de utentes, contando com os imigrantes (que, obviamente, têm todo o direito), as práticas médicas sempre mais complexas e caras, tal como os meios auxiliares de diagnóstico. os medicamentos também mais complexos, eficazes e de elevado preço. Se o Pacto da Saúde, proposto pelo Presidente da República, conseguir uma visão geral e propuser respostas a todos estes problemas, utilizando as palavras exatas e não as da propaganda ativista , será um feito extraordinário. hmonteiroexpresco@gmail.com ANTES QUE ME ESQUEÇA COMPL EXIDADES As notícias, do modo como são dadas, parecem incompreensíveisd ou fruto de desgoverno. ê o caso do aumento das listas de espera na Saúde ou dos atrasos em cirurgias, mesmo as tão yimportantes como cardíacas ou oncológicas. Mas nem todas as notícias são iguais; o Expresso, num artigo bem estruturado de Vera Lúcia Arreigoso, que há anos se dedica aos temas de Saúde, explica que a redução das cirurgias se deve principalmente ao travão na atividade adicional dos médicos, após a descoberta de irregularidades no trabalho extra de um dermatologista no Hospital de Santa Maria. As suspensões que decorrem do maior cuidado nas horas adicionais representam 30% ou mais das suspensões de cirurgias. Ou seja, há menos oferta porque os hospitais foram mais escrupulosos no controlo das horas que as equipas médicas faziam para além das contratadas Ao mesmo tempo, nomeadamente em novembro e dezembro do ano passado, havia falta de camas devido não só a surtos de gripe como ao chamado internamento social (pessoas com alta, mas sem meios para in para outro lugar). ê sempre mais simples a explicação da incompetência ou do impulso homicida dos responsáveis. Mas, como diz o POvo, às vezes por “bem querer, mal fazer”. Foi o caso da redução da atividade adicional que as direções dos hospitais impuseram. MINISTRA Ana Paula Martins merece uma medalha. Não tanto pelo que fez, mas sobretudo pelo que não fez: demitir-se e deixar os problemas para outrem, que iria tentar ser diferente e resolvendo uns problemas descobriria outros. As fragilidades do SNS não são fáceis de suprir e ser responsável da Saúde é, em si, um ato de coragem. os que pedem a demissão da ministra têm melhores soluções? Quais? Basta ver a confusão dos tarefeiros e das horas adicionais para entender que os problemas são bem mais difíceis do que aquilo que é propagado de forma simples, mas errónea, própria de populistas e de quem quer tirar vantagens políticas de problemas muito sérios. E ainda falta falar-se da Segurança Social, onde há outro imbróglio. A novilíngua é a única linguagem do mundo em que o vocabulário diminui todos os anos George Orwell (1903-1950) Escritor britânico, autor da célebre distopia "1984", de onde é retirada esta frase A novilíngua era a forma de expressão totalitária Henrique Monteiro