pressmedia logo

COMUNIDADES DE ENERGIA A GANHAR FORÇA EM PORTUGAL, COM PROMESSA NA REDUÇÃO DE CUSTOS E EMISSÕES

Ambiente Magazine Online

2026-05-15 21:09:19

Projetos-piloto em Caxias e modelos industriais mostram como plataformas digitais, baterias comunitárias e envolvimento dos consumidores estão a transformar a gestão energética Durante a Portugal Smart Cities Summit 2026, que decorreu em Lisboa de 12 a 14 de maio, a ATE , Aliança para a Transição Energética organizou uma conferência dedicada à digitalização e descarbonização rumo às cidades inteligentes, com um dos painéis focado nas soluções de comunidades de energia. Rita Paleta da Mota-Engil Energia foi uma das oradoras da sessão e explicou que o modelo “Energy as a Service” desenvolvido pela empresa procura transformar a energia de um simples custo operacional num ativo estratégico, especialmente em ambientes industriais. “Esta estrutura das comunidades de energia, aplicada não só ao setor residencial, mas principalmente também ao industrial, tem trazido muitas vantagens”, afirmou, acrescentando que atualmente “não há indústria nem serviço que não queira baixar a sua fatura energética”. Segundo a responsável, a Mota-Engil Energia começou por trabalhar comunidades energéticas ligadas a clusters industriais, desenvolvendo plataformas capazes de gerir fluxos complexos de energia entre diferentes clientes e ativos. A empresa destaca ainda a integração de novos vetores energéticos, como o biometano, nos seus projetos de descarbonização. Além da poupança económica, o modelo permite ganhos ambientais e maior eficiência na utilização da energia. “Há também a questão da alocação da energia de um cliente para o outro, minimizando desperdícios”, explicou. Caxias Living Lab testa o futuro das comunidades energéticas Um dos exemplos apresentados foi o Caxias Living Lab, projeto desenvolvido pela Galp no município de Oeiras. A iniciativa funciona como um laboratório vivo para testar tecnologias e modelos de gestão energética em contexto real. A comunidade energética integra 20 edifícios, incluindo um centro comunitário, uma escola e o mercado local, contando com produção fotovoltaica, baterias descentralizadas e uma bateria comunitária central. Pedro Miguel Ferreira, da Galp, explicou que o projeto foi desenvolvido em várias fases, começando pela otimização do consumo dentro das habitações e evoluindo depois para a gestão coletiva da energia: “antes de conseguirmos otimizar o consumo da comunidade, tivemos primeiro de dominar aquilo que está dentro de casa”, afirmou. O projeto utiliza coeficientes dinâmicos para distribuir energia entre os membros da comunidade de forma mais eficiente e recorre também a bombas de calor elétricas para substituir equipamentos a gás. Segundo Pedro Ferreira, uma das principais conclusões do projeto foi perceber que os consumidores estão mais disponíveis para alterar hábitos energéticos do que inicialmente se pensava. “Muitas vezes existe a dúvida se as pessoas estão mesmo disponíveis para alterar os seus padrões de consumo para obter poupanças económicas. O que vimos em Caxias foi que sim”, afirmou. O responsável destacou ainda a importância do envolvimento local e da confiança entre vizinhos para o crescimento destas comunidades: “quando a palavra é passada por um vizinho, ela tem muita força”, disse, explicando que o projeto conseguiu rapidamente atrair novos participantes através da recomendação direta entre moradores. Plataformas digitais tornam-se infraestrutura crítica A dimensão tecnológica foi outro dos temas centrais do debate. Lurian Klein, gestor de projetos de inovação da Cleanwatts Digital, defendeu que as plataformas digitais são essenciais para o funcionamento das comunidades energéticas. “Sem uma plataforma digital que consiga integrar, gerir, coordenar e orquestrar tudo isto, é impossível operar uma comunidade energética de forma eficiente”, afirmou. A empresa, sediada em Coimbra, desenvolveu a camada digital do Caxias Living Lab, responsável pela integração de baterias, painéis solares, carregadores de veículos elétricos e diferentes tipos de consumidores. Segundo o especialista, estas plataformas não servem apenas para monitorizar dados, mas também para tomar decisões inteligentes com base em algoritmos preditivos. “Os modelos de otimização conseguem prever consumo e produção com base em dados históricos e informação futura”, explicou. A empresa desenvolveu ainda interfaces destinadas tanto aos gestores das comunidades como aos utilizadores finais, procurando transformar informação técnica complexa em dados acessíveis e intuitivos. Confiança e literacia energética continuam a ser desafios Apesar dos avanços tecnológicos e das poupanças já demonstradas, os participantes reconheceram que ainda existem desafios importantes para a expansão destas soluções. Pedro Miguel Ferreira destacou que muitos consumidores continuam a encarar as comunidades energéticas como um conceito complexo, sobretudo porque passam a coexistir diferentes relações contratuais ligadas ao fornecimento de energia. “Existe aqui um caminho importante ao nível da formação e da literacia energética”, disse. O responsável defendeu também uma maior aposta na proximidade local e no contacto direto com os cidadãos para acelerar a adesão. Já a representante da Mota-Engil Energia sublinhou que, no setor industrial, o principal desafio continua a ser conquistar confiança e demonstrar resultados concretos. “Os clientes industriais querem perceber claramente se aquilo traz vantagem ou não”, comentou. Ainda assim, acredita que a combinação entre gestão inteligente da energia, plataformas digitais e participação comunitária está a criar um novo paradigma energético, tanto para empresas como para cidadãos. Diana Fonseca