TRIBUNAL DE CONTAS: FISCALIZAÇÃO OU PURO LOBBY?
2026-05-15 21:09:19

O Tribunal de Contas está furioso com o Governo e a acusação de lobby paira no ar. E ainda, o braço de ferro na reforma laboral e o "papão" da privatização do INEM. Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões. E o vencedor é na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, as com a Judite de França, o António Costa e o Anselmo Crespo. Hoje em destaque as declarações de Marco Rubio sobre Portugal e a base das Lajes e a reação apaixonada dos partidos da oposição. Ainda há notas para a ministra do Trabalho, para a reforma do setor empresarial do Estado. Mas Judite, vamos começar por uma troca azeda de palavras entre o Tribunal de Contas e o PSD. O Tribunal de Contas está zangado. Está. O Tribunal de Contas está zangado com o governo, porque há uma proposta de alteração de lei exatamente sobre o trabalho do Tribunal de Contas, que deu entrada no Parlamento. E o Tribunal de Contas diz, de uma forma muito firme e muito contundente, que esta proposta de alteração da lei desmantela o controle integrado e articulado da gestão pública, promove a desregulação financeira do Estado e desresponsabiliza os gestores públicos de forma radical. São 30 páginas, mais ou menos, deste tom, portanto, um tom muito pouco amigável, sobre a proposta do governo de reformar a lei orgânica do Tribunal de Contas. É daquelas coisas que se escrevem com fúria. Mesmo, com fúria. Sem parar. Diz que é inconstitucional, que é contraditória, que é perigosa, que cria vazios de controle. E há uma questão prévia aqui, que me parece que é importante, que é se deve o Tribunal de Contas pronunciar-se sobre a lei que regula o próprio Tribunal de Contas. Eu tenho algumas dúvidas sobre isso. Acho que há um problema de princípio. O tribunal existe para controlar as contas do Estado, não para definir em que condições é que esse controle é exercido. Ou seja, uma coisa é matéria de política pública, em que é matéria do Parlamento decidir. E o Parlamento é que deve decidir o que acha que o Estado deve ser controlado, onde, quando, como, e então depois tem um organismo que o faz. Agora, quando uma instituição emite um parecer sobre a legislação que regula os seus próprios poderes, não é propriamente fiscalização, é lobby, está a fazer lobby pelos seus próprios poderes. Eu não digo que não esteja fundamentado juridicamente, não é esse o ponto, mas não deixa de ser lobby e é o tribunal a ser juiz em causa própria, no fundo. Isso não se aconselha normalmente. António, desculpa, pensei que tinhas terminado. Não, mas posso terminar. Eu acho que, de fato, o Tribunal de Contas não devia ter entrado neste jogo, que o fragiliza, aliás. Eu vou a dois pontos que não te contrariam, mas que acrescentam. De acordo com o próprio parecer, este parecer foi pedido pelo presidente da Assembleia da República e, portanto, não foi iniciativa do Tribunal de Contas, mas foi a pedido do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar Branco. Portanto, concordo contigo nesse ponto. Desculpa, ainda que a presidente do Tribunal de Contas já tenha dado a sua opinião. Sem interferência do PSD. Mas eu diria que desta vez o Tribunal de Contas pôs-se numa posição, de fato, politicamente muito difícil. Tu dizeste: "Pôs-se numa posição política." Pois. E depois difícil, mas também pôs o Parlamento e os deputados sob uma pressão complexa, porque o que está aqui em causa, de fato, como tu dizias, Judite, é o tribunal a defender corporativamente os seus próprios poderes. Eu acho que diferente seria a presidente do Tribunal de Contas, individualmente, como jurista, alertar, como alertou, disse publicamente, para os problemas que via. Quando o Tribunal de Contas se põe nesta posição de instituição, coloca-se aqui num problema muito complexo, porque vamos fazer um cenário: a lei passa. A presidente do Tribunal de Contas mantém-se em funções, depois do que subscreveu. O parecer é do Tribunal de Contas, do conselho do tribunal e não da presidente, mas a presidenta obviamente subscreve aquilo e se calhar até provavelmente iria mais longe se fosse ela própria a escrever em assinatura própria e não comprometendo o Tribunal de Contas. Mantém-se em funções. Em que posição é que fica, de fato? Nós parece que estamos a assistir a uma segunda versão da concertação. Isto é, nós tivemos uma reforma laboral de concertação social. Agora temos uma reforma do Tribunal de Contas, com um novo espaço de concertação, que é a concertação com o próprio Tribunal de Contas, o que é estranho. É estranho e não é desejável, porque, de fato, há seguramente pareceres, por exemplo, há pontos que o Tribunal de Contas... Eu estou a falar do ponto de vista político, porque o governo também tem que responder a algumas das observações que aqui estão. Uma coisa não invalida a outra. Isto é, quando o Tribunal de Contas, neste parecer, indica, por exemplo, que há entidades públicas que deixarão de ser escrutinadas pelo Tribunal de Contas, eu diria, o governo tem a obrigação de responder a esse texto, responda a verdade ou não, porque não é desejável que isso aconteça. Mas aqui vai mais longe. É um assumir de posição. Não, é de confronto total com uma matéria que é da esfera de decisão política. E, portanto, eu acho que ultrapassou a sua esfera do que deve ser a participação do próprio tribunal numa discussão que, em sentido político, podemos dizer, envolve todos.Anselmo. Eu gostava, como ponto prévio, de dizer o seguinte: eu não tenho a certeza, e não tenho porque não sou obviamente especialista na área, eu não tenho a certeza que esta decisão do governo relativamente aos contratos até 10 milhões seja a mais correta, no sentido em que eu não sei se devia ser até 10, se devia ser até cinco, se devia ser até dois, não sei. Sei uma coisa: sei que tal como está a lei atualmente, ela não garante, e o Tribunal de Contas claramente até hoje não consegue garantir que os investimentos públicos que se fazem neste país não derrapem nos valores, não derrapem nos prazos, não violem a lei. Portanto, o visto prévio, objetivamente, não nos salvou das derrapagens sucessivas e até das violações permanentes da lei. Se a solução passa por deixar de ter visto prévio e passar a ter um controle a posteriori, eu não tenho a certeza, porque obviamente todos nós queremos que o nosso dinheiro seja fiscalizado, seja bem gasto e que não haja propriamente aqui uma espécie de bar aberto relativamente a isso. Também queremos que as coisas funcionem, não é? Também é certo que a maior parte dos países não tem visto prévio. Pronto. Agora, eu acho que o governo lançou uma boa discussão. Também parto do pressuposto que o governo não é dono da razão, portanto, o governo pode estar a ver um caminho e é exatamente para isso que existem os partidos, o Parlamento, os contributos que as várias partes podem dar para esta nova lei. É para isso que serve a discussão. O que não parece fazer sentido nenhum é o Tribunal de Contas assumir uma posição claramente política, e não técnica, e decidir entrar no combate político. Isso não me faz sentido rigorosamente nenhum, não apenas neste parecer, mas nas várias declarações da presidente do Tribunal de Contas. Vamos às vossas notas, Anselmo. Podes começar. Eu dou à ideia de mexer nisto, eu dou um 12, e espero que da discussão nasça uma lei melhor do que aquela que temos até agora. Eu prefiro esta alteração. Obviamente, a discussão surgirá, se o mais adequado são os 10 milhões, os cinco ou os oito, mas eu dou um oito à presidente do Tribunal de Contas, que passou, de facto, uma linha de intervenção. Nós já tivemos, entre os momentos políticos do país, confrontos institucionais. Nós passamos a ter um confronto institucional entre o governo, a maioria parlamentar, ou melhor, uma parte do Parlamento, o PSD, e o próprio tribunal. Eu dou um oito também a este parecer do Tribunal de Contas. E vamos, Anselmo, às declarações de Marco Rubio sobre Portugal e a base das Lajes e a reação dos partidos da oposição. Sim, para notar uma grande ironia que é, de repente, para os partidos da esquerda, Marco Rubio passou a ser uma pessoa para levar a sério. É um resultado que fala sempre a verdade, não é? Fala sempre a verdade. Daqui a pouco o Trump diz qualquer coisa e vamos ouvir o Bloco de Esquerda achar que faz sentido ter em conta o que o Donald Trump diz. Enfim, acho que a declaração de Marco Rubio merece obviamente um escrutínio e merece obviamente uma resposta por parte do governo, que já surgiu. E veio logo. Se o governo não tivesse respondido, eu estaria neste momento a dizer: "Bom, há base para nós acreditarmos no que Marco Rubio disse." Agora, até prova em contrário, eu confio mais em Paulo Rangel do que em Marco Rubio. Vou pôr a coisa assim. O que eu acho extraordinário: do Bloco de Esquerda, não me espanta. Do PCP vir pedir uma comissão de inquérito, apesar de achar exagerado, também não fico muito espantado. Mas do Partido Socialista, ouvir Eurico Brilhante Dias dizer: "O governo acabou por conduzir o país a uma humilhação de dimensão planetária", diz Eurico Brilhante Dias, líder da bancada do Partido Socialista. "O governo português agachou-se sempre, ficou sempre nas encolhas." Ora bem, para além de eu achar um claríssimo exagero, eu ainda queria acreditar que o Partido Socialista era um partido, até pela história que tem e pelas responsabilidades governativas que teve neste país, que está agora no papel de oposição e deve fazer oposição e deve fazer perguntas, como é óbvio, e deve fazer críticas se achar que as deve fazer. Mas é sério? Esta declaração de Eurico Brilhante Dias podia ter sido feita por Fabien Figaredo. Acho que nem Fabien Figaredo foi tão longe como Eurico Brilhante Dias. Da forma como falou, não. E eu queria só recordar uma coisa: se o Partido Socialista estivesse no poder durante a intervenção no Irão, teria acontecido rigorosamente a mesma coisa. Eu não tenho uma dúvida e eu acho que ninguém tem dúvidas nenhumas sobre isso. Obviamente, quem está no governo, perante uma situação destas, tem que saber distinguir o que é a presidência ou o presidente dos Estados Unidos, dos Estados Unidos, a relação entre Portugal e os Estados Unidos, e já agora entre a União Europeia e os Estados Unidos, daquilo que é a relação pessoal ou das opiniões pessoais entre quem está no governo em Portugal e quem está na administração norte-americana. Eurico Brilhante Dias, que até já exerceu cargos governativos, tinha a obrigação de saber isto melhor do que ninguém. E, portanto, parece-me tudo isto mais um sinal de um discurso dentro do Partido Socialista, claramenteMuito mais radicalizado à esquerda e que me parece que vai jogar contra o próprio Partido Socialista, mas o PS é que sabe. Eu concordo com tudo. De facto, quando eu ouvi Eurico Brilhante Dias, pensei: mas agora Marco Rubio é uma pessoa séria e acredita-se naquilo que diz. Não faz sentido absolutamente nenhum, não pode servir para ser criticado ou para ser desacreditado, ou para não se acreditar em nada de vez em quando e outras vezes, então aquilo que diz é a verdade. Não faz sentido. António, queres também? Sim, eu acho que parece haver uma certa urgência do PS, que eu até enquadro na entrevista que José Luís Carneiro deu esta semana à CNN, onde o Anselmo também esteve presente, de uma certa aceleração, que é preciso criticar e é preciso criar aqui confronto por tudo e todas as oportunidades são boas. Ora, nem todas as oportunidades são boas e esta manifestamente é uma péssima oportunidade para o PS, para fazer política. Tem tanto por onde criticar o governo e exigir respostas, que eu acho que Marco Rubio, de facto, e Trump não serão as melhores soluções. Só porque não é muito frequente eu elogiar Rui Tavares, eu acho que Rui Tavares colocou a questão nos termos certos. Pediu ao governo que à porta fechada ou à porta aberta, como o governo entendesse, apresentasse no Parlamento a documentação que possa sustentar aquela que tem sido a versão do governo. Desde o início. Desde o início. E eu acho que isto, sim, é o papel de um partido da oposição. Eu acho excelentemente que a oposição faça perguntas ao governo, não é isso que eu estou a questionar, mas nos termos certos, não é nesta espécie de blockização do PS. E a tua nota, Anselmo? A minha nota vai para a blockização do Partido Socialista de um sete, porque eu acho que é para aí que o Partido Socialista está a caminhar, é para um sete e depois para um seis. Judite, queres classificar? Quero classificar a reação do Partido Socialista, mas também do PC e do Bloco de Esquerda e vai tudo corrido a um seis. E tu, António? Eu ia dizer que estava a pensar. Parece blockização, mas eu acho que é mesmo aceleração. E dou um oito à aceleração do PS, assim de repente, parece que se calhar passou a conduzir aqueles carros elétricos que têm aquele binário, que arranca logo. José Luís Carneiro dizia que não tinha pressa, mas se calhar afinal tem. Afinal tem. Hoje temos a Judite França, o António Costa e o Anselmo Crespo. E António, tu ainda tens aí um tema surpresa? Surpresa porque estava aqui a ouvir com tanta atenção o noticiário, agora das 18h30, e a pensar comigo mesmo que merecia uma nota. A ministra da Saúde, olha, eu estou como o Anselmo, não é muito hábito elogiar a ministra da Saúde. Vamos aproveitar que está. Vamos aproveitar. Nunca se sabe quando é que vai haver uma próxima oportunidade. Porque acho que é de elementar bom senso que identificando-se que o INEM não tem condições de resposta, que se façam, eu não alinho na, se me permites, claro, Ricardo. Claro. A questão privatização. É sempre uma coisa que parece um papão: "Ui, que vão privatizar. Parece que vão privatizar, alguém vai fugir com as ambulâncias, porque vão privatizá-las." Não. Vão fazer, eu arrisco dizer, não sei qual é a figura jurídica, mas virtualmente uma parceria público-privada no âmbito do INEM para transporte de doentes, designadamente não urgentes. E eu acho que é elementar, como acontece já hoje em tanta coisa quando, por exemplo, passam determinados prazos para operações, para exames e o Estado tem contratualizado com os hospitais privados, resposta que obviamente deveria ser o Estado a dar em tempo útil, mas se não pode dar em tempo útil, que pague. Tem que arranjar quem dê. Porque há aqui uma coisa que às vezes é uma grande confusão de perceber, muito rapidamente. Ser o Estado a dar esse serviço ou ser um privado, regra geral, até no privado é mais eficiente, custa menos, mas custa dinheiro. Isto é, o facto de nós não pagarmos quando vamos ao Serviço Nacional de Saúde, não quer dizer que o Estado não gaste cinco, seis mil euros numa operação. Pagar esses cinco ou seis mil euros a um privado para que ele o faça de forma mais útil é pensar nos utentes. Aqui também. Portanto, esta ideia de que há aqui um problema porque vão privatizar o serviço do INEM, eu acho que finalmente, vamos ver se a ministra acerta, porque já vai para aí na terceira ou quarta reforma do INEM. Neste país, tudo o que envolva privados é uma privatização. Qualquer coisa que envolva privados. Eu vou dar um três assim rapidamente à ministra, só assim, um parêntesis. Então e à ministra do Trabalho, Anselmo? Olha, a ministra do Trabalho esteve ontem na TV e na CNN a tentar explicar a proposta de lei que foi aprovada no Conselho de Ministros. E eu tenho duas notas, não duas notas para lhe dar, mas duas notas sobre a intervenção dela. A primeira, porque achei e acho que ela fez uma evolução bastante significativa, não só na comunicação, mas na gestão política. Enfim, se calhar é normal, ela não tinha grande experiência política quando assumiu a pasta, entre o início deste processo, que sensivelmente está a fazer um ano agora no verão, e a data de hoje.Porque acho que ela está, por um lado, mais polida na forma como comunica. A pergunta mais óbvia agora todos os dias é: isso é uma derrota, se isto não for aprovado é uma derrota. Eu acho que ela está a colocar, do ponto de vista político, a questão nos termos certos. Não é uma derrota dela, apesar de obviamente nós sabermos que há ali um cunho muito grande dela, mas é uma derrota do governo. Por outro lado, dizendo uma coisa que também me parece óbvia, o mundo não acaba se a reforma laboral não for aprovada. Portanto, do ponto de vista político, eu acho que o discurso dela está muito mais polido hoje em dia. Mas depois sobre a substância, sobre aquilo que consta do documento. Eu tenho desde o início muitas dúvidas, para não dizer certezas, de que esta reforma laboral não resolve ou não responde muitas das, ou pelo menos até agora, ainda ninguém me conseguiu explicar, vou pôr assim para não parecer arrogante, em que é que as linhas vermelhas e as grandes medidas desta reforma laboral vão resolver o problema da produtividade. E essa foi a pedra de toque dela ontem na entrevista, foi tentar explicar, com factos, com números, que Portugal tem um déficit de produtividade, que ela diz que de acordo com um estudo que até já é bastante antigo, é de 2020 relativamente a 2019, tem 30% abaixo da média europeia, com salários quase 35% abaixo da média europeia. Mas é uma coisa que, independentemente do número, que também interessa, é uma coisa que é objetiva. Acho que ninguém contraria isso, acho que nem os partidos à esquerda contrariam isso. Aqui a questão é saber se este pacote laboral e estas medidas e sobretudo aquelas que para o governo são críticas neste pacote laboral, o alargamento dos contratos a prazo, o outsourcing, o banco de horas, se estas três medidas, até acho que mais do que a reintegração dos trabalhadores por despedimento ilícito, não parece que seja essa a medida que vai resolver a produtividade. A questão é: estas três medidas, que são as medidas mais polêmicas, eu ainda não consegui que o governo me explicasse de que forma é que elas vão ajudar. Estava aqui a pensar se ia ter a ousadia de tentar suscitar o governo a explicar ao Marcelo, mas eu não vou. Honestamente, a minha opinião é: os contratos a prazo. Tem a liberdade total, vocês fazem o que quiserem. Se os contratos a prazo não fossem mexidos, eu acho que isso não era um problema. Sendo mexidos, eu também acho que não é um problema. Eu não acho que isso aqueça nem arrefeça, sinceramente. No caso do outsourcing e do banco de horas, eu nem sequer percebo a discussão. Nós estamos há 20 anos a discutir o outsourcing e o banco de horas. Já ouve banco de horas. Já ouve banco de horas. Acho que é uma coisa completamente aceite, não sei se por todos os trabalhadores, mas por muitos trabalhadores e empresas. O outsourcing a mesma coisa, nem sequer percebo como é que nós em 2026 estamos a discutir isto. Nem sequer entendo. Essa para mim é a parte mais importante, que é: o país vai estar um ano, se não mais, mas um ano vai estar seguramente a discutir uma reforma laboral. Com o grande argumento: nós precisamos de melhorar a nossa competitividade e a nossa produtividade. E a parte da conclusão está certa. A questão é se este pacote laboral é o que vai resolver a parte referente à produtividade. Também se calhar devíamos aumentar a produtividade no que toca à discussão do próprio pacote laboral, não é? Isso seguramente. E no fim desta história toda, eu acho que nós não estamos a ter a discussão certa sobre as medidas que de facto iam olhar para o futuro, inteligência artificial, novas gerações, tudo aquilo que temos estado a falar. Eu não estou a dizer que não tem, eu não vejo aí medidas muito disruptivas que eu perceberia que o país estivesse a discutir ardentemente para responder exatamente a esses desafios. E corre-se o risco de- E acho que podemos estar a perder tempo ...e corre-se o risco de se ficar a discutir a negociata, ou seja, a medida A, a medida B, a medida C. Sim, é evidente que eu acho que a ministra tem, nesta fase, arrisco dizer, uma segunda oportunidade para uma primeira boa impressão política na gestão do dossiê agora no Parlamento. Creio que corrigiu muito, é muito evidente a recuperação da posição de fragilidade em que estava depois daqueles meses iniciais. Isso não garante, longe disso, que venha a haver um acordo, mas pelo menos que a própria se percebe que o país passou a olhar para a ministra, não como uma ministra a prazo, que estava condenada a ter que sair, mas para uma ministra que, mesmo que isto não passe, continuará a fazer o seu trabalho noutras áreas. Se ela quiser. Se quiser, obviamente. Agora, o que me parece é, vamos lá ver, para já, eu acho que é importante dizer, e para ser justo, eu nunca ouvi a ministra dizer isso, aliás, ouvia dizer mais coisas, que este pacote laboral ou esta reforma, este conjunto de medidas, são a única resposta e por causa disto a produtividade vai melhorar, se não houver isto, a produtividade não vai melhorar. Isto é, a produtividade dependerá de muita coisa. Depende de muita coisa. Depende também de um mercado laboral que funcione de forma mais saudável. Nós temos um mercado laboral com muita precariedade, muita. A rotatividade que o Mário Centeno trouxe à discussão é um tema interessante, interessante em vários níveis e do ponto de vista político, porque o Mário Centeno mistura a rotatividade como sinônimo de flexibilidade, quando a rotatividade está em dois grupos: nos precários, que mudam muito, e infelizmente no mercado português, porque creio que já tive a oportunidade de dizer isso aqui, é a mudança de emprego que permite saltos salariais, ao contrário de outros mercados onde há flexibilidade e, portanto, há uma dinâmica normal, aqui não existe. Eu creio que a reforma Os princípios são muito importantes por si, substantivamente. O que é flexibilidade? Quando se fala: "A flexibilidade é a flexibilidade para despedir mais depressa." Não. Se aceitamos que é para despedir mais depressa, então também temos que aceitar que é para contratar mais depressa, porque uma empresa que possa despedir mais depressa, também obviamente contrata mais depressa. Mas eu nem sequer ponho a discussão assim. A flexibilidade serve para trabalhadores e empresas, ou empresas e trabalhadores ajustarem o que é força de trabalho de forma mais rápida, tão rápida quanto possível, ao ciclo de produção que precisam ter. No caso do banco de horas, é preciso de repente responder a uma encomenda. Isso dá mais produtividade. É isso que vai mudar. É isso por si só que vai mudar. Não, obviamente que redução de impostos é importante, é evidente que a formação de gestores e trabalhadores é importante. Também a capacidade das próprias empresas darem condições a quem trabalha de aumentarem a produtividade. Com certeza, do investimento de capital. Com meios rudimentares de trabalho. Capital, investimento, inovação, tudo isso é muito importante. O que eu acho que o país perde uma oportunidade por não fazer uma mudança laboral, porque é uma das componentes, obviamente, estamos a falar de produtividade, mercado de trabalho e da própria lei laboral, que se perde uma oportunidade de dar mais aqui um passo, sendo que é preciso dizer que nós também não vivemos num mundo isolado. Há outros países a fazer coisas. Eu ia só fazer uma pergunta ao António, mas a Judite não falou. Diz lá. Eu ia só perguntar onde é que está nesta reforma laboral uma medida que facilite os despedimentos. Não está. Eu ouço o argumento: "Esta reforma laboral facilita os despedimentos." Ok, estou preocupado, digam-me lá onde. Digam-me lá onde é que está a medida. É por causa da reintegração? Desculpa. É também por causa da reintegração. Mas é isso que facilita os despedimentos. Não é isso que facilita os despedimentos, mas a questão da reintegração é uma questão relativamente importante que não ficou resolvida. Sim, certo, mas concordamos que não facilita os despedimentos. Não facilita os despedimentos. Ninguém diz assim: "Agora que eu não sou obrigado a reintegrar o outro, já consigo despedir mais facilmente." Se o trabalhador quiser processar a empresa, processa na mesma. Sim, e a reintegração demora tempo. É preciso dizer, a reintegração é decidida por um juiz, não é decidida pela empresa. É decisão em tribunal que decide, à luz do que está hoje na proposta. Mas à luz do que está hoje na proposta, a empresa pode decidir não reintegrar. Não pode, isso é mentira. Desculpa, mas não pode. Não pode? Não, não pode. A empresa pode decidir não reintegrar, o trabalhador decide que quer ser reintegrado. Ah, se o trabalhador for para tribunal. Está bem. O tribunal decide se o trabalhador será reintegrado ou não. Isto é, não é uma decisão unilateral que tem a última palavra sobre a reintegração. Não é a última palavra, mas a empresa tem esse poder e o trabalhador, se não quiser, tem que ir para tribunal. Não, quando diz "tem que ir", parece que é uma coisa má. "Tem que ir." Claro, estamos em Portugal, sim, é uma coisa péssima. Não, o Tribunal do Trabalho hoje em dia não é o que era antigamente. Mesmo assim, não é o que era antigamente. As decisões do Tribunal do Trabalho, até essas demoram agora. Portanto, a decisão da reintegração eu acho que é talvez é daquelas que devesse ser melhor explicada, mas só uma questão: ninguém quer ser reintegrado ou ninguém deveria querer ser reintegrado numa microempresa, não é? Certo. Não faz sentido absolutamente nenhum. Mas eu vou dar outro argumento: é que as grandes empresas também têm microdepartamentos. Pois têm. E há uma pessoa que sai de uma grande empresa, de um departamento que tem cinco pessoas. É verdade. E tem ali uma situação, de fato, difícil para o próprio, para os outros trabalhadores, para todos. Que ainda assim entende, legitimamente, que quer ser reintegrado, porque tem esse direito. É o tribunal que decide. E a empresa é obrigada a reintegrá-la. Sim, claro, no conto final. Eu não tinha mais nada para acrescentar. Ah, não? Não. Pronto. Se quiseres continuamos a falar. Eu respondo à mais pergunta que o Anselmo... Mas não falamos do setor empresarial do Estado. Não, já não temos tempo. Ainda não vamos falar. A não ser que o António consiga em 30 segundos resumir o seu pensamento sobre a reforma do setor empresarial do Estado. Daí a tua lista. Por onde é que começavas? Exato, há um bom princípio do ministro das Finanças, porque os resultados de 2025 mostraram que nós somos muito impressionados, obviamente, pelos resultados da Caixa Geral de Depósitos, e ainda bem, é melhor ter uma Caixa Geral de Depósitos com 1900 milhões de lucro do que 1900 milhões de prejuízo. A pesola. Mas isso em Portugal não é consensual, como sabes. Eu sei. Mas entre lucros e prejuízos que venham os lucros da Caixa. E a Caixa também é preciso recordar, já devolveu todo o dinheiro, ao contrário da TAP, que não devolveu nem vai devolver. Mas isto para dizer que é muito importante esse princípio. Eu creio que até já vai tarde, mas é importante que seja mesmo executado, porque já ouvimos outros ministros das Finanças dizerem que é desta que vão garantir que as empresas públicas entregam a tempo e horas as contas, que são despersonalizadas, que sabe quantos trabalhadores nas empresas públicas é que temos, que há governação, conselhos fiscais. E vamos ver, este ministro promete que vai fazê-lo, e isso é até o mais importante, e não foi por acaso que o ministro veio trazer esta discussão. Enfim, vamos acabar como começamos, por causa precisamente da lei da revisão da Lei do Tribunal de Contas. E como o António Costa não conseguiu dizer tudo o que pensa neste "O Vencedor É", ele vai regressar amanhã. A propósito, por causa disto. Depois das 10h30 da manhã, nas manhãs 360, estará cá o António Costa. Setor empresarial do Estado é amanhã. Amanhã, a segunda parte, e vai ter por companhia a Eunice Lourenço. Bom fim de semana. Ricardo Conceição, Judite França