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QUANDO A URGÊNCIA NÃO TEM DIA NEM HORA

Diário do Alentejo

2026-05-15 21:07:51

Falta de médicos e enfermeiros não permite assegurar todos os turnos no SAP do hospital de Serpa Carência de médicos e enfermeiros tem levado, sobretudo, desde o início do mês, ao encerramento do serviço de atendimento permanente do Hospital de São Paulo, em Serpa. FOTO RICARDO ZAMBUJO ASanta Casa da Misericórdia de Serpa (SCMS) está, uma vez mais, a ter dificuldades em completar as escalas do serviço de atendimento permanente (SAP) do Hospital de São Paulo , a designada “urgência” ,, o que tem obrigado ao seu encerramento durante alguns turnos. A provedora sublinha ao “Diário do Alentejo” (“DA”) que nunca se depararam com uma “situação tão instável” como a que se está verificar, sobretudo, desde o início do mês. “Temos uma escala preparada e obrigatoriamente tem de funcionar, das 08:00 às 24:00 horas, com médico e enfermeiro. [Agora] estamos a verificar as situações praticamente de semana a semana e mesmo quando temos as situações mais ou menos pensadas como seguras tudo pode deixar de funcionar. Basta não vir um médico ou um enfermeiro”, esclarece Isabel Estevens, frisando que “não há equipas de retaguarda”. Lembrando que para além do SAP , que tem “estado, substancialmente, a ser assegurado por prestadores de serviços, sejam médicos ou enfermeiros” ,, a misericórdia tem a funcionar “as quatro tipologias da rede de cuidados continuados integrados” , convalescença, paliativos, longa e média duração ,, a provedora realça que a “baixa médica por parte de alguns enfermeiros, do quadro de pessoal da instituição, e a rescisão de contrato de outros”, originou “uma quebra significativa” destes profissionais de saúde que prestam serviço nas várias valências da SCMS, o que levou a que, “no último mês e meio, dois meses”, a “necessidade de prestadores de serviços enfermeiros tenha sido substancialmente maior”. Este decréscimo de enfermeiros do quadro de pessoal, “que se começou a verificar, principalmente, em convalescença e paliativos, em janeiro de 2025”, refere, provocou, igualmente, uma quebra “de receita em 2025” e “continua a provocar um decréscimo de receita em 2026” , na medida em que limita a entrada de novos utentes devido ao rácio utente/enfermeiro definido para a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados ,, situação que não tem permitido “cumprir com o pagamento” do subsídio de Natal de 2025 aos trabalhadores, o único valor, de acordo com Isabel Estevens, ainda por regularizar. Considerando a escassez de enfermeiros verificada “tanto a nível nacional, como regional e local”, a provedora frisa que “não há garantias” de que o SAP possa funcionar sem interrupções. A responsável realça, contudo, que “nunca, como nestes últimos tempos”, a SCMS , que gere o Hospital de São Paulo desde 2014 , teve um “apoio tão constante” por parte da Câmara de Serpa, com vista “a procurar, em conjunto, soluções”. PER ESTÁ A “DECORRER DENTRO DO QUE ESTÁ HOMOLOGADO EM TRIBUNAL” Recorde-se que a SCMS tem a decorrer um processo especial de revitalização (PER), homologado no ano passado pelo tribunal, uma “medida exigente”, nas palavras da Isabel Estevens, mas a “única solução” para “proteger a santa casa, os trabalhadores e os fornecedores”, considerando “a situação financeira” da instituição, agravada “pelo atraso no início da atividade cirúrgica” na unidade médico-cirúrgica, inaugurada em janeiro de 2024 e suspensa na sequência do termo do acordo de gestão em parceria com a União das Misericórdias Portuguesas (UMP)”, em dezembro desse mesmo ano. Segundo a provedora, o PER “tem estado a decorrer dentro do que está proposto e homologado em tribunal”. Recentemente, na sequência de uma reunião com a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, o deputado do PSD eleito pelo círculo de Beja, Gonçalo Valente, revelou ao “DA” que o Governo prevê “agendar uma reunião” com a UMP, de forma “a encontrarem um entendimento para que a mesma assuma a gestão do equipamento, que já tinha contratualizado, mas que não teve sucesso”. Confrontada com esta intenção, a provedora diz não dispor de “qualquer informação sobre o assunto”. MOVIMENTO EM DEFESA DO HOSPITAL CONTINUA A DEFENDER REGRESSO AO SNS Duarte Lobo, membro do Movimento em Defesa do Hospital de São Paulo, sublinha, por sua vez, que “o problema é o tipo de gestão que tem sido feito ao longo dos anos, que tem empurrado [o hospital] para uma situação muito volátil, numa subcontratação, [em que] os médicos são contratados, basicamente, à hora, portanto, não há uma equipa estável”. E adianta: “Infelizmente, a Santa Casa da Misericórdia de Serpa também passa por uma grave crise, com o PER, com muitas dificuldades, [o] que também não ajuda na solução [do problema]. Ultimamente, isto é quase o dia a dia, já são mais as horas que a urgência está fechada do que as que está aberta”. Duarte Lobo acrescenta que não restam dúvidas de que o SAP “é um serviço muito útil à população” e que, segundo informações de que dispõe, “há períodos de encerramento [também] no Centro de Saúde de Moura, que assegura uma parte da urgência”, pelo que “toda a margem esquerda do Guadiana fica muito deficitária do ponto de vista da Saúde”. Sublinhando que no concelho de Serpa existem, atualmente, “cerca de três mil pessoas sem médico de família”, lembra que o centro de saúde “não tem consultas de recurso”, pelo que “as pessoas que não têm médico de família vão recorrer às urgências ou ao privado, não há outra opção, mesmo para episódios mais simples”. A situação é agravada pelo facto de se tratar “de populações relativamente envelhecidas, que não têm muita capacidade de transporte”. O movimento voltou, entretanto, a solicitar reuniões com a SCMS, Ministério da Saúde e Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo, aguardando, agora, por respostas. Contudo, sublinha Duarte Lobo, o que o movimento continua a defender é o retorno do hospital à esfera do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Caso “a situação se prolongue”, avança, o movimento irá encontrar “formas de lutar” contra o fecho da unidade. “A verdade é que este hospital funcionava Poderia ser muito útil a aliviar o hospital de Beja, que está completamente sobrecarregado. Podia funcionar como retaguarda para a margem esquerda do Guadiana”. Sublinhando que a câmara está preocupada com a situação da SCMS “num todo”, porque “é uma instituição muito importante , a segunda maior empregadora no concelho”, Francisco Picareta, presidente da autarquia, revela que têm participado em reuniões quer com a misericórdia, quer com a “entidade que a tutela, a diocese de Beja, na pessoa do bispo, D. Fernando”, e demonstrado “toda a disponibilidade para colaborar na procura de soluções”. O autarca frisa, contudo, que “cabe à Santa Casa da Misericordia de Serpa e à entidade que a tutela encontrarem uma solução”, “porque há cuidados que têm de ser providenciados à população”. E conclui: “Temos colaborado, [estamos] sempre disponíveis, em diálogo total e aberto, mas acreditamos que a diocese estará a tratar da situação para que rapidamente consigamos ter uma solução de estabilidade na santa casa e, consequentemente, nos serviços que ela presta à comunidade”. [Agora] estamos a verificar as situações praticamente de semana a semana e mesmo quando temos as situações mais ou menos pensadas como seguras tudo pode deixar de funcionar. Basta não vir um médico ou um enfermeiro”. ISABEL ESTEVENS PROVEDORA DA SCMS NÉLIA PEDROSA