ESTE AVISO DE FALTA DE MEDICAMENTOS REVELA ESTADO “NUNCA VISTO” DO SNS? A SIC VERIFICA
2026-05-14 21:06:33

Circula na rede social X (antigo Twitter) uma imagem que mostra um dispensador de senhas da Unidade Local de Saúde São José, com um papel afixado onde se lê “Faltas 04/05/2026” seguido de uma lista de medicamentos alegadamente indisponíveis. A alegação é de que esta ausência revela o estado "nunca visto" do SNS. A SIC Verifica. A alegada falta de medicamentos na Unidade Local de Saúde (ULS) São José demonstraria um estado “nunca visto” de degradação do Serviço Nacional de Saúde (SNS). É isto que se alega num tweet partilhado no dia 4 de maio de 2026. A mesma publicação expõe uma imagem que dá conta da indisponibilidade de vários medicamentos e, na caixa de comentários, há quem lembre o dinheiro gasto do orçamento do SNS para medicamentos. “Mais de um quarto do orçamento do SNS é para o fornecimento de medicamentos, totalizando mais de 4 mil milhões, tendo duplicado em uma década", lê-se. Esta informação é verdadeira e consta do Orçamento do Estado para 2026, na página 376, onde se lê que "as crescentes pressões associadas ao envelhecimento da população, ao aumento da quantidade e complexidade das doenças crónicas e à inovação exercem uma pressão ascendente sobre o crescimento da despesa em saúde, em particular com medicamentos“. Nesse âmbito, ”numa década, este valor quase duplicou, representando mais de um quarto (25,9%) do total da despesa do SNS". Quanto à imagem, será que comprova o estado “nunca visto” do SNS? A imagem revela que haveria falta de várias medicamentos no dia 4 de maio. Tal verifica-se através da data presente no monitor do dispensador, que bate certo com a data do aviso. No entanto, não comprova se esta falta é temporária, se os medicamentos estavam indisponíveis apenas naquele serviço e apenas naquele dia, nem quem colocou o aviso e em que contexto operacional. Além de que esta, por si só, não chega para sustentar um “estado nunca visto” do SNS. Em fevereiro deste ano, o Público noticiava que já havia hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) sem fundos para comprar medicamentos e material de consumo clínico, uma situação atípica no primeiro trimestre do ano que estava a obrigar as administrações a assumirem responsabilidades financeiras para assegurar a resposta aos doentes. À SIC, a ULS de São José esclarece que "a fotografia terá sido tirada na farmácia de ambulatório do Hospital Curry Cabral". Na origem do problema não estaria um problema de dinheiro, como se sugere nos comentários. “No dia 4 de maio, alguns dos fármacos referidos na imagem encontravam-se indisponíveis, a aguardar entregas dos fornecedores", clarifica a ULS. Ainda assim, a unidade confirma que "pontualmente, pode ocorrer a indisponibilidade de determinados medicamentos, quer na quantidade necessária, quer no momento exato". Os motivos são vários, "nomeadamente falhas generalizadas de mercado, conforme tem sido amplamente divulgado pela comunicação social, bem como dos mecanismos de contratação pública cujos procedimentos legais nem sempre são tão céleres quanto o desejado". "Em circunstância alguma, os constrangimentos referidos se devem a problemas orçamentais", reforçou a ULS de São José. Apesar de existir evidência de dificuldades no acesso a alguns medicamentos hospitalares, a imagem não revela uma situação inédita que demonstre um estado “nunca visto” no SNS. Aliás, já em 2016, a Ordem dos Farmacêuticos alertava para “falhas de abastecimento de medicamentos” que afetavam “a generalidade das farmácias e mais de metade dos utentes”. A SIC Verifica que é... Uma publicação nas redes sociais alega mostrar um retrato do estado "nunca visto" do SNS devido a uma imagem que revelava a falta de medicamentos na ULS São José. A ULS esclareceu que se tratava de uma situação relacionada com fornecedores numa farmácia de ambulatório do Hospital Curry Cabral, e não com problemas orçamentais, como se sugere nos comentários. A imagem foi retirada de um contexto concreto para dar a ideia de que aquele seria o estado generalizado do SNS. Envie-nos as suas sugestões de fact-checks através do Whatsapp - 925 325 121 - ou do endereço de e-mail sicverifica@sic.pt Marta Ferreira