OPINIÃO - NEM SÓ DE CIÊNCIA SE CONSTRÓI O CUIDADO: CONTRIBUTO DA ESPIRITUALIDADE PARA A PROMOÇÃO DA SAÚDE
2026-05-14 21:06:27

Na doença grave/crónica, há uma verdade que a ciência não pode ignorar: nem tudo o que importa se mede, e nem tudo o que cura é visível. A medicina evoluiu de forma extraordinária. Hoje, conseguimos prolongar vidas, controlar sintomas e oferecer respostas antes impensáveis. Ainda assim, permanece uma questão essencial: o que sustenta uma pessoa quando a doença muda tudo? Nos cuidados de saúde primá- rios, esta pergunta ganha peso todos os dias. O enfermeiro de família acompanha pessoas ao longo do ciclo de vida, conhece histórias, vínculos e fragilidades. É neste contexto de proximidade que se torna evidente que cuidar não é apenas tratar a doença, mas olhar a pessoa e a família na sua globalidade. A espiritualidade, muitas vezes associada exclusivamente à religião, é na verdade uma dimensão mais ampla. Refere-se àquilo que dá sentido à vida - a forma como cada pessoa organiza a esperança, a dor e o seu lugar no mundo. É o que permite continuar quando o futuro deixa de ser garantido. Perante uma doença grave/crónica, tudo se transforma: o corpo falha, os planos são interrompidos, a identidade é abalada. A família também é afetada - adapta-se, reorganiza-se e sofre. No meio desta realidade, emerge uma necessidade silenciosa, mas profunda: encontrar sentido. É aqui que a espiritualidade se revela um recurso importante de coping. Não como fuga, mas como sustentação. Para alguns, manifesta-se na fé; para outros, nos afetos, na natu-reza, na memória ou na simples vontade de continuar. O enfermeiro de família ocupa, neste cenário, um lugar vital. Pela relação de confiança e continuidade, é frequentemente quem reconhece aquilo que não é verbalizado: o medo, a fragilidade, a procura de significado. Escutar estas dimensões exige mais do que competência técnica - exige presença, disponibilidade e empatia. Integrar a espiritualidade nos cuidados de saúde não significa ultrapassar limites éticos nem impor crenças. Significa, antes, reconhecer a singularidade de cada pessoa e a forma única como vive a doença. Apesar disso, esta dimensão continua muitas vezes ausente da prática clínica, como se fosse dispensável. Contudo, em muitos casos, é precisamente a espiritualidade que sustenta a adesão ao tratamento, a resiliência emocional e a capacidade de enfrentar a doença ao longo do tempo. Cuidar em enfermagem, sobretudo nos Cui-dados de Saúde Primários, não é apenas intervir. É acompanhar, reconhecer e estar. Num sistema cada vez mais técnico e orientado por resultados, o grande desafio é não perder o humano no centro do cuidado. Porque, no fim, a ciência controla a doença. Mas é o sentido - tantas vezes invisível-que ajuda a pessoa a viver com ela.. ENFERMEIRA ESPECIALISTA EM SAÚDE INFANTIL E PEDIÁTRICA A medicina evoluiu de forma extraordinária. Hoje, conseguimos prolongar vidas, controlar sintomas e oferecer respostas antes impensáveis. ANABELA SAMPAIO DA FONSECA