NEM TUDO VAI MAL NA ENERGIA EM PORTUGAL: AFINAL O QUE ESTAMOS A FAZER BEM?
2026-05-14 21:06:15

No domínio da energia o país ainda enfrenta desafios relevantes para a prossecução de políticas viradas para uma economia verde, menos dependente do exterior e com custos de energia comportáveis para famílias e empresas. Os tempos de decisão são longos, os momentos de indecisão são frequentes e a expressão “problemas de licenciamento” está mais gasta que os tapetes de entrada das instituições públicas que cuidam, ou deviam cuidar, de receber, responder e resolver as pendências dos promotores de novos projetos que ajudem o país a descarbonizar a sua matriz energética. Mas é importante notar que nem tudo vai mal em Portugal. “O que funciona bem não é notícia”, lamentava esta quarta-feira António Vidigal, numa publicação onde realçava a “elevada fiabilidade” do sistema elétrico português e a capacidade do operador da rede de manter estabilidade “num sistema extremamente complexo”. Com efeito, não faltam bons exemplos do que Portugal foi construindo com competência ao longo dos últimos anos, muito visível na gestão técnica da rede elétrica (o apagão foi culpa de nuestros hermanos, e “Kristin” foi um fenómeno excecional), mas também na engenharia posta ao serviço da refinaria de Sines (o coração de um mercado energético ainda fortemente dependente dos combustíveis fósseis) e até na resposta que o mercado tem dado à procura crescente da mobilidade elétrica (há cada vez mais pontos de carregamento público no país, e mais potentes). As últimas duas décadas foram ricas em progressos. Não arriscamos uma análise exaustiva. Mas deixamos meia dúzia de notas sobre o que até temos feito bem neste cantinho da Europa. 1. Preços de eletricidade sob controlo Temos preços de eletricidade estáveis, que não comeram poder de compra às famílias na última década e cujo crescimento ficou bem abaixo da inflação desse período. Portugal também continua a suportar preços médios de eletricidade inferiores aos da média da zona euro. No segundo semestre de 2025, de acordo com os dados mais recentes do Eurostat, os consumidores domésticos em Portugal pagavam um total de EUR0,243 por cada kWh, o que fica quase 19% abaixo da média dos países do euro. Mais: no espaço de uma década, entre 2015 e 2025, o preço médio do consumo residencial subiu apenas 6,5% (na zona euro a inflação elétrica foi de 36%). O ligeiro agravamento da eletricidade fica aquém da subida geral de preços na economia portuguesa (que neste período foi de mais de 20%) e também abaixo do aumento da remuneração média dos trabalhadores em Portugal (que na última década subiu mais de 40%). 2. Elevada incorporação de renováveis Uma das razões pelas quais o preço da eletricidade em Portugal não subiu como subiu noutros países europeus é a elevada incorporação de fontes renováveis no sistema elétrico nacional. A incorporação renovável no consumo de eletricidade subiu de 47% em 2015 para 68% em 2025, segundo a REN. Essa trajetória tem sido o motor do reforço da quota de renováveis no consumo final de energia, que em 2024 atingiu os 36,5%, superando a meta do país para esse ano, que era de 34%. As renováveis têm há muito tempo um efeito conhecido na formação do preço grossista: quanto mais vento, sol e água existe num dado momento, mais barato é o preço do mercado diário, já que essa abundância renovável retira espaço às centrais a gás e às hidroelétricas para entrarem no casamento entre oferta e procura de energia, diminuindo o número de horas em que essas centrais podem marcar o preço. Por outro lado, o facto de Portugal ter apostado no passado em tarifas garantidas para boa parte dos produtores de eletricidade renovável (sobretudo eólica) levou a que uma fatia considerável da energia elétrica consumida em Portugal esteja imune a eventuais oscilações do preço grossista. Essas feed-in tariffs funcionam como um amortecedor: em anos em que o preço grossista suba muito (seja porque há seca e as hídricas cobram mais para turbinar a água, ou porque o custo do gás dispara, como em 2022) ou em anos em que o preço de mercado desça muito, a produção de remuneração garantida, ao ter um preço fixo, mitiga as variações para o sistema elétrico nacional. A integração de renováveis na rede portuguesa tem sido bem conseguida, sem pôr em causa a estabilidade e segurança do sistema elétrico, mas nos últimos anos a vontade e disponibilidade dos promotores para investir em mais potência renovável tem-se confrontado com dificuldades de licenciamento, lançando um ponto de interrogação sobre a capacidade do país de expandir a quota de eletricidade verde nos próximos anos. 3. Hibridização Construir uma rede elétrica eficiente implica otimizar os recursos existentes, evitando investimento adicional em novas infraestruturas que possam onerar desnecessariamente o consumidor final de energia. Se um parque eólico em média só produz durante 27% das horas do ano (considerando os dados da DGEG relativos a 2025) e uma central fotovoltaica só gera eletricidade durante o dia, porque não partilhar as infraestruturas para injeção de energia na rede? Essa hibridização está a acontecer em vários mercados e Portugal não é exceção (um exemplo recente é este projeto da Finerge). É um modelo em que ganham os produtores (que maximizam o uso do ponto de ligação à rede, diluindo os custos em que incorreram por um maior volume de megawatts hora gerados em cada dia) mas também os consumidores (que têm acesso a mais eletricidade renovável, que tende, como referido, a baixar os preços grossistas; e que evitam encargos adicionais na fatura, como sucederia se tivesse de haver mais linhas de transporte e distribuição de eletricidade para essa nova capacidade). 4. Descarbonização dos transportes Como ponto prévio, note-se que a incorporação de biocombustíveis nos transportes em Portugal tem evoluído lentamente. Em termos absolutos passou de 316 mil toneladas em 2017 para 391 mil toneladas em 2025, e em termos relativos representou cerca de 5,7% do combustível rodoviário em 2017 e 6,6% em 2025, o que evidencia que há ainda um longo caminho a percorrer. No entanto, há esforços de descarbonização em curso. É o caso do projeto-piloto da Carris para uma das suas linhas de autocarro usar 100% de biocombustível (o chamado B100), assente em óleo alimentar usado (o projeto chama-se Beato Biobus). O fornecimento de misturas com maior teor de biocombustível para os navios é outro exemplo dos esforços da indústria para a descarbonização. E o investimento que a Galp está a fazer na refinaria de Sines para a produção de biocombustíveis avançados e hidrogénio verde é um outro exemplo de uma transição energética em marcha. Globalmente em termos de bioenergia os transportes ainda têm muito potencial para explorar. Mas se nos biocombustíveis o progresso tem sido tímido, já a eletrificação tem avançado a bom ritmo. Em 2021 o peso dos carros totalmente elétricos nas vendas de ligeiros de passageiros em Portugal era de 79%. Em 2025 os elétricos fecharam o ano com uma quota de 23,2% (esta cifra não inclui os veículos híbridos). E os dados da ACAP , Associação Automóvel de Portugal indicam que nos primeiros quatro meses de 2026 a quota dos elétricos ascendeu a 23,5% (só atrás 30,9% de quota dos híbridos, e à frente da fatia dos carros a gasolina). A popularidade dos carros elétricos tem sido crescente, evidenciando uma maior predisposição dos consumidores portugueses para a mudança. Com o volume de vendas de elétricos a exceder amplamente o número de cheques de apoio à compra destes veículos, torna-se cada vez mais claro que a prioridade da subsidiação deverá ser direcionada para as famílias de menores rendimentos e para acelerar ainda mais a eletrificação do transporte pesado (em 2021 tinham sido vendidos apenas quatro pesados elétricos, em 2025 foram 329; mas o seu peso nesta categoria é ainda residual, tendo avançado de 0,1% para 4,4%). 5. Concorrência Portugal é um mercado pequeno, mas no que toca à eletricidade e ao gás natural a liberalização e a “iberização” levadas a cabo nas últimas duas décadas tiveram efeitos benéficos para os consumidores. Há mais de duas dezenas de comercializadores de eletricidade para clientes domésticos em Portugal, que nas várias combinações dos seus tarifários somavam no primeiro trimestre mais de 260 ofertas comerciais à escolha das famílias portuguesas. Dados da ERSE , Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos mostram que a maioria dos comercializadores de eletricidade têm ofertas mais competitivas do que a tarifa regulada (no gás natural já não é assim), com potencial de poupança face ao mercado regulado que ia de 1% a 20%. A diversidade da oferta e a facilidade de mudança de fornecedor permitem aos consumidores portugueses a cada momento saltar para um novo comercializador e economizar mais alguns euros por mês. Além do retalho, também a montante da cadeia de valor há um contexto concorrencial importante (e favorável ao consumidor de energia): na última década, à boleia da expansão das renováveis, cresceu o número de produtores de eletricidade, que tornou mais diverso o leque de atores do sistema elétrico, competindo para colocar a sua energia no mercado. Embora ainda se mantenha relevante no mercado, a EDP Produção tem hoje uma quota menor do que a do passado na capacidade instalada e na eletricidade injetada na rede, fruto de um mercado ibérico mais aberto, com mais produtores e compradores de energia. 6. Redução da dependência energética do exterior Os números falam por si: a dependência energética que Portugal tem do exterior tem vindo a reduzir-se, tirando partido da aposta na eletrificação renovável, caindo de 76% em 2015 para 64% em 2024. Ainda há uma extensa caminhada para trilhar (a ministra do Ambiente e Energia quer cortar a dependência energética para metade em oito anos), mas vale a pena lembrar que há duas décadas a dependência energética do exterior era de quase 89%. Acentuar a redução implicará esforços elevados para descarbonizar os transportes e a indústria, com um cabaz de soluções que vão do biometano ao hidrogénio verde, passando pela eletrificação, o que implica que o Governo tenha capacidade para desbloquear as muitas situações que têm travado o desenvolvimento de projetos. Com uma menor dependência energética do exterior virá uma redução das emissões de gases com efeito de estufa e também uma menor vulnerabilidade do país aos choques externos e a fenómenos como o disparo dos preços dos produtos petrolíferos e do gás. Isso não só joga a favor da balança comercial do país, como também reforça a soberania energética de Portugal e poderá ser benéfico para famílias e empresas, menos sujeitas à volatilidade dos combustíveis e mais expostas à previsibilidade de custo dos eletrões. DESCODIFICADOR: Intensidade energética. É outro indicador acompanhado pela Direção-Geral de Energia e Geologia em que Portugal tem registado progressos. É usado para medir a eficiência energética da economia, a energia necessária para cada milhão de euros de produto interno bruto (PIB). E tem vindo a diminuir: Portugal está a conseguir gerar mais riqueza gastando menos energia. Em 2006 o país consumia 103 toneladas equivalentes de petróleo (TEP) por cada milhão de euros de PIB, mas em 2023 já só consumia 78 TEP, um corte de 24%. E VALE A PENA LER: A ACER , Agência para a Cooperação dos Reguladores de Energia da União Europeia publicou esta semana um relatório de monitorização sobre o desenvolvimento do mercado europeu de gás natural liquefeito (GNL), que alerta para uma exposição crescente da Europa aos riscos do mercado global, depois de ter fechado 2025 com um recorde de importações de GNL. O documento pode ser consultado aqui. Esta edição da newsletter fica por aqui e a próxima chegará aos assinantes do Expresso a 28 de maio. Se tiver sugestões, críticas ou outros comentários, pode enviar um e-mail para mprado@expresso.impresa.pt. Tenha um excelente resto de semana! Miguel Prado Editor de Economia Miguel Prado