TRIBUTO A MANUEL ALEGRE - 90 ANOS DA FIGURA MAIS UNIVERSAL DE ÁGUEDA
2026-05-14 21:06:09

DE ÁGUEDA AO MUNDO, DA RESISTÊNCIA à POESIA, DA POLÍTICA à MEMORIA COLETIVA Manuel Alegre: o poeta que fez da palavra uma forma de liberdade Há escritores cuja obra marca uma geração. E há raros autores cuja palavra atravessa décadas, transforma consciências e entra na memória coletiva de um país. Manuel Alegre pertence a essa categoria singular. Poeta, romancista, resistente antifascista e protagonista cívico da democracia portuguesa, é hoje reconhecido como uma das figuras maiores da cultura contemporânea portuguesa , dentro e fora do país "ê de longe o poeta mais cantado e musicado de toda a história da literatura portuguesa", resume alguém que o acompanhou de perto ao longo de muitos anos, em jornadas políticas, culturais e pessoais. Os versos de Manuel Alegre foram transformados em canções por nomes como Amália Rodrigues, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Carlos do Carmo, Manuel Freire ou Francisco Fanhais, numa dimensão rara da literatura portuguesa. A explicação para essa popularidade talvez esteja na própria natureza da sua poesia: uma escrita simultaneamente erudita e popular, profundamente política sem deixar de ser íntima, e capaz de chegar “às bocas das pessoas”, como recorda o mesmo testemunho. Havia gente que nem sabia ler e sabia poemas dele de cor.” Os LIVROS QUE MUDARAM A VIDA” Entre a vasta obra de Manuel Alegre, há dois títulos constantemente apontados como decisivos na resistência à ditadura: Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), o último escrito durante o exílio em Argel. Livros proibidos, copiados clandestinamente, passados de mão em mão durante os anos do Estado Novo. 1/ Ha bitualmente diz-se que os livros mudam a nossa maneira de ver a vida. No caso dele, mudaram mesmo a nossa vida”, refere a mesma fonte. “Esses dois livros contribuíram decisivamente para o derrube da ditadura e para o 25 de Abril”. Praça da Canção, considerado por muitos o livro de poesia mais vendido da história editorial portuguesa, ultrapassou há muito a contabilidade das edições. Circularam cópias dactilografadas clandestinas, exemplares reproduzidos manualmente e poemas memorizados como forma de resistência. A força da palavra foi, aliás, uma constante no percurso de Manuel Alegre. Perseguido pela PIDE, exilado e obrigado a fugir do país, tornou-se símbolo de uma geração que fez da literatura uma arma política. 11 A palavra era a arma dele” / recorda o testemunho recolhido. “o regime tinha medo daquela força”. UM POETA EMPRESTADO à POLiTICA” Ao longo da vida, Manuel Alegre nunca separou completamente a literatura da intervenção cívica. Ele próprio definiu-se várias vezes como “um poeta emprestado à política”. Deputado durante décadas, histórico do Partido Socialista, protagonizou inúmeras divergências públicas com a própria estrutura partidária, assumindo posições solitárias em votações parlamentares e debates nacionais. Essa independência marcou-lhe o percurso político e, segundo pessoas próximas, também condicionou a receção da sua obra em determinados meios intelectuais. “Foi prejudicado por isso. Havia quem olhasse mais para o lado político do que para a dimensão literária", sustenta a mesma fonte. “Mas ele sempre teve uma enorme verticalidade. Dizia o que pensava, mesmo contra o próprio partido”. Essa frontalidade acompanhou-o também nas candidaturas presidenciais. Em 2006, avançou contra a máquina socialista e reuniu mais de um milhão de votos, ficando próximo da segunda volta. A segunda candidatura presidencial nasceu, curiosamente, em àgueda, cidade natal à qual nunca deixou de regressar. àGUEDA COMO ORIGEM E MEMõRIA Apesar da projeção nacional e internacional, àgueda permanece como referência permanente na biografia e na poesia de Manuel Alegre. “Quando se fala dele em qualquer parte do mundo, a primeira frase é sempre a mesma: Manuel Alegre nasceu em àgueda", lembra o testemunho. nnnke Mesmo vivendo há décadas longe da cidade, nunca deixou de regressar regularmente. Nos livros mais recentes , incluindo a obra publicada já aos 90 anos, elogiada pela crítica , continuam a surgir referências biográficas e afetivas à terra natal. Ao longo dos anos, várias cidades portuguesas dedicaram semanas culturais, conferências e festivais à sua obra. Em Penafiel, chegou a ficar inscrita no espaço público uma frase sua, num gesto simbólico de apropriação da sua memória literária. RECONHECIMENTO INTERNACIONAL A dimensão internacional da obra de Manuel Alegre é hoje incontornável. Em Itália, a Universidade de Pádua - uma das mais antigas do mundo , criou uma cátedra dedicada ao estudo da sua obra e da língua portuguesa. Em 2017, a mesma universidade atribuiu-lhe o doutoramento Honoris Causa em Línguas e Literaturas Modernas, Europeias e Americanas. Os seus poemas integram antologias internacionais ao lado de autores como Chico Buarque, Bob Dylan, Leonard Cohen ou John Lennon, cruzando literatura, música e intervenção política. Em Portugal, per-tence à Academia das Ciências de Lisboa e recebeu inúmeras distinções ao longo da carreira, entre elas a Medalha de Honra da Cidade de Lisboa e a Grã-Cruz da Ordem de Camões. O HOMEM POR DETRàS DA FIGURA PUBLICA Quem o conhece de perto descreve uma personalidade simultaneamente reservada e profundamente sensível. A imagem pública austera contrasta com um certo embaraço perante manifestações de reconhecimento popular. “Na Feira do Livro, há pessoas que lhe agradecem emocionadas por tudo o que fez pelo país. E ele fica sem jeito", conta um amigo próximo. Não sabe muito bem como reagir.” Talvez seja essa mistura de timidez, densidade intelectual e consciência histórica que continue a tornar Manuel Alegre uma figura singular na vida portuguesa: um homem atravessado pela política, mas movido sobretudo pela palavra. E talvez seja também por isso que, aos 90 anos, continua a publicar poesia original, mantendo uma lucidez criativa rara. Como se a escrita permanecesse, ainda hoje, a sua forma mais profunda de intervenção no mundo. AUGUSTO SEMEDO De Águeda ao Mundo, da resistência à poesia, da política à memória coletiva - o poeta que fez da palavra uma forma de liberdade DE àGUEDA AO EXiLIO Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu em àgueda a 12 de maio malo de de 1936, 1936, onde onde realizou a a instrução instrução realizou primária, antes antes de de primária, prosseguir prosseguir estudos estudos em em Lisboa, Lisboa, Porto Porto e e Coim-Coimbra. Licenciado Licenciado em em Di-Direito reito pela pela Universidade Universidade de de Coimbra, destacou-destacouCoimbra,-se desde cedo como dirigente estudantil e opositor da ditadura, tendo apoiado a candidatura do general Humberto Delgado. Em Coimbra, foi uma figura central da vida académica e cultural, fundador do CITAO e membro do TEUC, atleta da Académica de Coimbra e colaborador de várias publicações. A sua oposição ao regime levou-o à mobilização militar em 1961 e à participação em ações de contestação à guerra colonial. Em 1963 foi preso pela PIDE em Angola, onde permaneceu seis meses. Em 1964 parte para O exílio, vivendo 10 anos na Argélia, onde se torna dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional e VOz ativa na rádio A Voz da Liberdade”, símbolo da resistência antifascista. àgueda, Praça da República, 2 de ma PRINCIPAIS CONDECORAçôES E MEDALHAS Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, Portugal Orden Jugoslovenske Zvesde sa Zlatnim Vencem Condecoração atribuída pelo Reino de Marrocos Comenda da Ordem de Isabel, a Católica, Espanha . Grande Oficial da Ordem Bernardo O Higgins, Chile Ordem de Mérito Nacional da Argélia, "DJADIR", atribuída pelo Presidente Bouteflika Grande Oficial da Ordem "Stella Della Solidarietá” Italiana, atribuída pelo Presidente de Itália 10 Grau da Ordem Amílcar Cabral, Cabo Verde Medalha de Mérito do Conselho da Europa, de que é Membro Honorário Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores Medalha da Cidade de Veneza, durante o convénio internacional "La Porta d Oriente-Viaggi e Poesia" o Medalha de Ouro da Cidade de àgueda "II sigillo di Padova", Chaves da Cidade de Pádua, atribuídas a 19 de Abril de 2010, tendo sido agraciado com o título de cidadão honorário Medalha de ouro da Cidade de Coimbra, pelos 50 anos da Praça da Canção, Abril de 2015 PReMIOS LITERàRIOS ATRIBUIDOS 1998 - Prémio de Literatura Infantil António Botto, pelo livro As Naus de Verde Pinho 1998 , Prémio da Crítica Literária atribuído pela Secção Portuguesa da Associação Internacional de CrítiCOS Literários, pelo livro Senhora das Tempestades 1998 , Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, patrocinado pelos CTT, pelo livro Senhora das Tempestades 1999 - Prémio Pessoa, patrocinado pelo jornal Expresso e importante referência no panorama cultural português, pelo conjunto da Obra Poética 1999 - Prémio Fernando Namora, patrocinado pela Sociedade Estoril-Sol, pelo livro A Terceira Rosa 2008 , Prémio D. Dinis, patrocinado pela Fundação da Casa Mateus, pelo livro Doze Naus 2010 - Tributo Consagração atribuído pela Fundação Inês de Castro (FIC), instituição de Coimbra, pela totalidade da sua obra 2014 - Prémio Autor da Fundação Amália Rodrigues 2016 Prémio Vida Literária 2015/2016 da Associação Portuguesa de Escritores 2016 , Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores 2016 , Grande Prémio de Literatura dst pelo livro de poemas "Bairro Ocidental" 2017 , Prémio Guerra Junqueiro instituído pelo Freixo Festival Internacional de Literatura 2017 - Prémio Camões (instituído pelos governos do Brasil e de Portugal, o maior prémio literário da língua portuguesa) 2019 , Prémio Vida e Obra atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores 2019 - Prémio "Bibliotecando em Tomar" 2021 , Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa, atribuído pela Câmara Municipal de Faro pelo livro "Quando" 2025 , Grande Prémio de Literatura Biográfica Miguel Torga, atribuído pela Ass. Portuguesa de Escritores(APE) aio de 1974. O regresso de Manuel Alegre do exílio AUGUSTO SEMEDO