COMO O HANTAVÍRUS PODE AFETAR O SETOR DOS CRUZEIROS
2026-05-13 21:02:07

Cautela, aprendizagem com o Covid-19 e acompanhamento de perto. Os agentes do turismo global de cruzeiros esperam para ver. Em causa pode estar a perda de receitas de muitos milhões de euros. A crise sanitária de hantavírus a bordo do navio MV Hondius, da companhia neerlandesa Oceanwide Expeditions, continua a fazer soar os alarmes no setor do turismo e das viagens. É um negócio de muitos milhões de euros e de passageiros por ano que pode ser fortemente afetado, como já sucedeu em 2020, durante a pandemia de Covid-19. Cruzeiro MV Hondius atraca em Tenerife AP O Conselho Mundial de Viagens e Turismo (World Travel & Tourism Council - WTTC) reagiu de pronto a esta ameaça, afirmando que o setor está pronto para o novo desafio. A mensagem foi transmitida no início desta semana aos meios de comunicação social por Gloria Guevara, presidente do WTTC: “Hoje, estamos muito mais preparados porque, depois da Covid-19, aprendemos muito. Sabemos como gerir e enfrentar estas situações. (...) Sim, continuaremos a ter surtos. Isso é algo que, infelizmente, não podemos evitar”. Guevara foi mais longe na conversa com os jornalistas que teve lugar, curiosamente, a bordo de um navio de cruzeiro em Port Said, no Egito. Apesar de ainda não possuir “todos os detalhes da situação”, a executiva mexicana defendeu que “há protocolos para estas situações” , declarando-se confiante de que “estão a ser seguidos”. A SÁBADO contactou a MSC Cruzeiros, líder mundial de cruzeiros na Europa e América do Sul, no sentido de entender o que pode ser feito para enfrentar a situação e se a procura está a ser afetada. A companhia de cruzeiros remeteu para a posição da CLIA - Cruise Lines International Association, a associação comercial sedeada em Washington, nos EUA (com escritórios regionais na América do Norte e do Sul, Europa e Ásia Austral), e que representa a maioria das empresas de cruzeiro a nível mundial (mais de 90%). A organização da qual a MSC é associada "está a acompanhar de perto a evolução dos casos de Hantavirus associados a uma viagem recente num cruzeiro operado por uma empresa não-associada". Em relação a medidas práticas, a CLIA é clara: "A indústria global de cruzeiros mantém protocolos abrangentes de saúde, saneamento e assistência médica, concebidos para proteger a saúde e o bem-estar dos passageiros e da tripulação." E acrescenta a associação: "Os navios de cruzeiro estão também sujeitos à supervisão e inspeção das autoridades de saúde pública nas principais jurisdições. Além disso, as companhias de cruzeiro oceânicas membros da CLIA devem operar com instalações médicas a bordo e profissionais qualificados, equipados para gerir uma ampla variedade de questões de natureza médica. Como resultado da implementação destas medidas, os dados de saúde pública disponíveis indicam que as taxas de doença em navios de cruzeiro são baixas e, em muitos casos, inferiores às registadas em contextos comparáveis em terra." Sobre a quebra da procura por parte dos clientes, não houve comentários. Pedro Costa Ferreira é o atual presidente da APAVT - Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (está em funções desde 2012) e não se mostrou disponível, apesar de vários contactos, para esclarecer a posição dos seus associados e de que forma esta crise sanitária está a afetar a procura e o volume de negócios relacionados com o setor dos cruzeiros. O mercado global de turismo relacionado com os navios de cruzeiro tem um valor aproximado anual de 80 mil milhões de euros. Se a esse valor juntarmos os gastos diretos, as compras relacionadas com a cadeia de suprimentos (por exemplo, mantimentos) e os custos salariais, chegamos a um valor de cerca de quase 140 mil milhões de euros. É uma fatia considerável do impacto do negócio do turismo e das viagens no mundo, que já ultrapassa os 10 biliões de euros por ano. E os números não param de aumentar, em especial no pós-pandemia. Os dados da Organização Mundial do Turismo preveem um crescimento anual da indústria dos cruzeiros acima dos 10%, podendo ultrapassar os 170 milhões de euros na próxima década. Para isso, muito têm contribuído os mais de 37 milhões de passageiros que, todos os anos, embarcam nos gigantes dos mares em busca de férias, diversão e descoberta de novos destinos. O período de incubação do hantavírus é longo, variando entre uma a oito semanas e é aconselhado o contacto imediato com a linha SNS 24 (808 24 24 24) se regressou recentemente de uma destas viagens com sintomas de febre, dores musculares intensas ou problemas respiratórios. Os passageiros e tripulantes (cerca de 150, de 23 nacionalidades) que estavam a bordo do navio que chegou às Canárias no passado domingo foram entretanto enviados para os seus destinos originais. As medidas que cada país de origem está a implementar rondam os 42 a 45 dias de quarentena. Quase em simultâneo com o que se passou ao largo de Cabo Verde e das Canárias, foi também noticiada a existência de um outro vírus a bordo do cruzeiro Caribbean Princess, numa viagem entre a Florida, nos EUA e as Bahamas. Trata-se do norovírus, a forma mais comum de gastroenterite, mas a notícia difundiu-se com rapidez e alarme. Afetou cerca de 100 passageiros e 13 membros da tripulação num navio com mais de 3000 pessoas a bordo e levou a que fossem intensificadas as medidas de limpeza e desinfeção a bordo. O norovírus afeta adultos, crianças e idosos e é a “causa mais comum de gastroenterite viral aguda em todo o mundo”, de acordo com o Hospital da Luz, já citado pela revista SÁBADO. Os sintomas mais normais são diarreias, vómitos, dores abdominais, cólicas, dores de cabeça e/ou musculares, bem como febre. Estas reações tendem a surgir 12 a 48 horas após a infeção e podem durar até três dias. A propagação pode acontecer através do consumo de alimentos e água contaminados ou pelo contacto direto com pessoas infectadas ou superfícies contaminadas. No dia de ontem, as autoridades sanitárias francesas informaram que mais de 1.700 pessoas foram colocadas em confinamento a bordo do navio de cruzeiro Ambassador Cruise Line, que partiu das Ilhas Shetland (ao largo da Escócia), fez paragens em Belfast (Irlanda do Norte), Liverpool (Inglaterra) e Brest (oeste de França) e se encontra ao largo de Bordéus, no sudoeste francês. Entre os 1.233 passageiros, uma pessoa de 90 anos morreu e cerca de 50 apresentaram sintomas de norovírus, a já referida e comum gastroenterite. Ricardo Santos 19:21 Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login. Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito. Ricardo Santos