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O LABORATÓRIO DO TEMPO

Forbes Portugal

2026-05-12 21:06:09

A CENTENÁRIA MARCOLINO, UMA REFERêNCIA DA ALTA-RELOJOARIA, SITUADA NA CIDADE DO PORTO, LEVOU-NOS AOS BASTIDORES DA ARTE DE CONSERTAR RELOGIOS DE LUXO, PELA MÃO DE UM DOS SEUS MESTRES. DE BATA R VESTIDA E LUPA NA MâO, EMBRENHAMO NOS NO OFÍCIO DE SERMOS, POR UMAS HORAS, APRENDIZES U DE RELOJOEIROS. FOI NESSE LABORATORIO DO TEMPO QUE ENTENDEMOS, SEM FILTROS, A EXIGENCIA stamos na artéria mais comercial da cidade do Porto, a Santa Catarina, na zona em que a via se cruza com a Rua Passos Manuel. O movimento de transeuntes é grande. Apesar de as montras das diferentes lojas serem um chamariz para os olhares, há, porém, uma loja que leva mais pessoas a deterem-se. Sejam oriundos da Rua Passos Manuel, sejam vindos da Rua de Santa Catarina, os olhares fixam-se de forma mais magnética nas montras da Marcolino, uma das principais referências em Portugal da relojoaria e que tem sede na cidade do Porto. O edifício art nouveau da década de 1920 é, desde logo, um dos mais bem conservados da cidade, e as suas colunas neoclássicas exteriores no piso térreo são a moldura para vitrinas que expõem peças, também elas, de elegância intemporal, concebidas para atravessar gerações: relógios de luxo. A porta do número 84 da Rua de Santa Catarina dá acesso a um mundo onde os relógios se assumem como peças de coleção. Ali vendem-se autênticas obras de arte de 12 marcas de alto luxo e outras premium dessa arte que é medir o tempo. Ou, como os responsáveis da centenária Marcolino sublinham, e em particular Paulo Neves, CEO da empresa, ali vendem-se sonhos. Mas ali também se recuperam sonhos. Paredes-meias com a loja, no número 140 da Rua Passos Manuel, onde a Marcolino tem as instalações técnicas, os relógios que são deixados pelos clientes para reparar ganham nova vida. A Marcolino tem quatro relojoeiros e dois aprendizes para realizar as reparações que, na realidade, mais se aproximam de “intervenções cirúrgicas”: num ambiente calmo para garantir a máxima concentração, os mestres relojoeiros vestem batas brancas, calçam dedeiras de látex para proteger os mecanismos da mínima interferência hu-mana e evitar, assim, que os dedos possam colocar gordura, suor ou sujidade nas microscópicas peças que compõem os relógios. Os componentes são manuseados com precisão e pousados na mesa de trabalho com cuidado.com a ajuda de pinças ou chaves para apertar ou desapertar parafusos, os relógios são desmontados, peça por peça. Quando completamente desmontados, parece quase impossível que alguém seja capaz de voltar a reconstituir o relógio, dada a sua explosão numa infnitude de minúsculas peças, entre parafusos, molas, rodas dentadas. Mas, na verdade, é isso que sucede: os relógios são nova e meticulosamente montados, peça por peça. A Marcolino proporcionou-nos a experiência de sermos relojoeiros por umas horas, numa iniciativa em jeito de “piloto” do que será o projeto de Watch Clinic que a empresa, a festejar o seu centenário, está a implementar e que se traduz na possibilidade de visitantes não apenas observarem os profissionais a trabalharem, mas também participarem em workshops, experimentando, eles próprios, o artífice trabalho de desmontagem e montagem de relógios. No nosso caso, apesar da bata vestida, da lupa, das ferramentas de relojoeiro para mexermos no nosso relógio de calibre 6497 (o mais utilizado em cursos de relojoaria, por ser fácil de compreender e manusear) e, sobretudo, das instruções dos especialistas, ficou comprovado que. temos mais jeito para desmontar do que para montar um relógio! Brincadeira à parte, a experiência permitiu-nos conhecer mais de perto o mundo dos mestres relojoeiros. O watchmaker António Alves, no ramo desde 1992 e na Marcolino há três anos, explica que por dia conserta um a dois relógios, tarefa que pode executar entre 6 e 8 horas. Ainda assim, há relógios mais complexos que podem requerer 12 horas de desmontagem. Quando desmontados, os relógios veem as suas peças lavadas por produtos fornecidos pelas marcas, de características abrasivas. Há relógios que podem ser compostos por 600 peças ou mais. Máxima concentração e silêncio no atelier são requisitos. António conhece o interior de cada relógio como a palma da sua mão, recordando que, quando se formou, uma das disciplinas que teve foi desenho técnico à mão das peças dos relógios. O mestre relojoeiro da Marcolino refere que chega a ir para casa a recapitular mentalmente todo o processo de montagem de um relógio para se certificar de que toda a operação foi feita corretamente, seguindo os passos certos. António garante que não fica com dor de cabeça pelo facto de olhar todos os dias para peças tão pequeninas; ao invés, mergulhar no interior dos relógios é um exercício que o relaxa. Após montado e antes de ser entregue ao dono, o relógio é polido; se necessário, trocada a bracelete, e sujeito a testes de utilização e de controlos para aferir se funciona corretamente. Os relógios são submetidos a ensaios de estanquidade em ar, em máquinas que recriam situações de mergulho (profundidade). Para aferir se o movimento automático está a “dar corda” de forma correta, os relógios são colocados numa máquina que os faz girar para simular os movimentos do utilizador quando o relógio está no pulso. e claro que aqui também se trocam pilhas. Mas o que se faz na oficina de um mestre relojoeiro é muito mais uma combinação entre arte e ciência de precisão. Um relojoeiro é, em parte, também um engenheiro pelos conhecimentos que tem de ter de materiais e de física. António Alves refere que, para cada marca de relógios, há ferramentas próprias, inclusive para desapertar certos parafusos. Em matéria de pinças, por exemplo, António Alves refere que tem 12 a 14 diferentes, algumas das quais a custar 120 euros. E para os relojoeiros poderem trabalhar em relógios das marcas a que dão assistência é necessário terem certificações, as quais resultam de processos de formação feitos nas próprias casas-mãe. Se se der o caso de lhe pedirem um arranjo para uma marca da qual, porventura, não tem certificação, António diz que não aceita esse trabalho. E isso já aconteceu consigo. Quando os arranjos implicam a substituição de algumas peças, é à casa-mãe que são encomendadas para garantir a máxima fabilidade do processo de arranjo. E até para se poder ter acesso às peças, é necessário ter certificações. Luso-francês de 50 anos de idade que já trabalhou como relojoeiro na Suíça e na Noruega e com certificações em várias marcas (Rolex, Cartier, Panerai, IWC, Zenith, Hermés, Jaeger-LeCoultre, Audemars Piguet, Omega, Chronoswiss, Montblanc, Longines, além do curso de relojoaria), António Alves afirma que, quando está a repor os componentes, 80% do tempo se passa a colocar óleo. Explica este mestre que um componente de relógio pode ter até vários pontos de lubrificação, cada um dos quais a ter de ser posto em quantias diferentes. Em relógios mais elaborados, chega a ser necessário colocar 300 ou 400 pontos de lubrificação! “Tenho 15 tipos diferentes de lubrificantes, consoante a marca e especificações próprias das peças”, destaca António Alves. Ao receberem relógios para arranjar, já aconteceu os técnicos da Marcolino terem percebido que quem efetuou a intervenção anterior, noutro lado, não o fez corretamente, tendo aplicado força a mais e com isso entortou peças. “o relógio fala comigo. Se uma peça não vai ao sítio e encontra uma resistência ao ser posto no lugar, é porque algo não está bem”, diz António Alves. Essa leitura quase intuitiva do mecanismo, feita mais de sensibilidade do que de força, ajuda a perceber que a relojoaria não é apenas técnica, é também escuta, paciência e respeito pelo objeto. Cada intervenção exige diagnóstico minucioso, mão firme e uma compreensão profunda da arquitetura interna de um sistema onde tudo depende de tudo. Entregue a bata que nos permitiu sermos aprendizes de relojoeiro de marcas de luxo por umas horas, saímos do workshop da Marcolino com a certeza de que este ofício é uma exigente especialização do universo do luxo. A complexidade técnica e o tempo investido em cada intervenção explicam o valor elevado de certas reparações. No pulso, o relógio continua a marcar as horas. Mas pOr trás desse gesto quotidiano está um trabalho invisível que preserva precisão, herança e valor ao longo do tempo. E, na alta-relojoaria, essa dimensão ultrapassa a função prática: cada relógio projeta identidade, distinção e status. ® A Marcolino está, desde 1986, na posse da familia do CEO Paulo Neves (à esquerda). que tem como braço-direito ? COO e seu filho Migue Neves (à direita), que será o seu sucesso no cargo 1926 Fundação da relojoaria Marcolino por António Marcolino, figura de referência cuja persist?ncia e rigor afirmaram a marca no comércio da cidade do Porto. 1937 Inauguração da loja da Marcolino na Rua de Passos de Manuel, no coração da cidade do Porto, destacando-s a fachada com o relógio que se tornou referência da hora certa. 1962 A Marcolino conhece um novo proprietário, Adriano Magalhães, que manteve o nome da marca e que se especializou em relojoaria de qualidade superior. 1970 Aquisição da empresa por José Moura, reconhecido ourives, que faz a primeira grande renovação estética e funcional da Marcolino, tornando-a mais moderna, confortável e luxuosa. 1980 Com a aquisição da família Neves, a Marcolino renova o seu espaço e reforça o serviço pós-venda. 1991 A família Neves expande a Marcolino com a abertura de um novo espaço comercial e reposiciona a marca no segmento de topo, através da integração de marcas de alta-relojoaria, reforçando também o serviço de assistência técnica com um mestre relojoeiro especializado. 2011 A Marcolino adquire um terceiro espaço comercial na mesma rua, na esquina com a Rua de Santa Catarina, num edifício de art nouveau de valor patrimonial, reforçando o seu charme e sofisticação. 2014 O regresso do CEO Paulo Neves marca uma nova fase de renovação da Marcolino, com uma imagem mais sofisticada e o lançamento da nova flagship store, integrando a shop-in-shop da Rolex, marcas de alta-relojoaria suíça e joalharia nternacional. 2016 No ano do seu 90.o aniversário a Marcolino renova a fachada do edifício, acompanhando a reabilitação da zona histórica do Porto e reforçando a atratividade do espaço. 2021 A Marcolino volta a renovar a loja da Rua de Santa Catarina. 2026 A Marcolino celebra o seu centenário, com um programa de iniciativas que homenageia a sua história e a sua ligação ao Porto. CENTENáRIA MARCOLINO A Marcolino conta com duas lojas no coração do Porto. A flagship store Marcolino 1926, na Rua de Santo Catarina, destaca-se pelo seu imponente edifício de fachada arte nova e pela seleção exclusiva de marcas como Rolex, IWC,. Omega. Blancpain, Hermés, Longines, Montblanc, Messika, Tag Heuer, Tudor, Zenith entre outras. Já a Marcolino Link, uma concept store com um posicionamentd mais jovem e arrojado, integra marcas reconhecidas internacionalmente, incluindo as shop-in shop da Pandora e da Swatch. No mesmo espaço onde a marca nasceu há 100 anos, na Rua de Passos Manuel funciona também o serviço de assistência técnica, assegurado por mestres relojoeiros altamente especializados, que garantem a excelência na manutenção das peças. A personalização e o desenvolvimento de peças de joalharia de acordo com o desejo do cliente também se fazem aqui. Neste ano de centenário, a empresa adquiriu por 16 MEUR o edifício que tem diante de si e que é contíguo ao café Majestic. Esse edifício terá no rés do chão uma nova loja de relógios e apartamentos nos três pisos superiores e será requalificado com assinatura do arquiteto Siza Vieira. Paulo Marmé