SAÚDE TEM DE SE PREPARAR PARA OS PRÓXIMOS ANOS
2026-05-10 21:06:18

Pedia-lhe só um exercício. Tendo em conta a realidade do nosso país hoje e as respostas em saúde que também temos, como é que você vê o sistema de saúde em Portugal daqui a 10, 20 anos? Há duas ou três coisas importantes. Desde logo, é pensar que a pirâmide etária está a mudar completamente. Daqui a 10, 15 anos será completamente diferente. Por- tugal é um dos países mais envelhecidos do mundo e tem o maior índice de aceleração de envelhecimento da Europa, que é a relação entre as pessoas com mais de 65 e as com menos de 15. Estamos a acelerar muito o envelhecimento, porque é baixa natalidade e grande esperança de vida. Vamos ter, claramente, cada vez mais, a população muito necessitada de cuidados de saúde. Pelas doenças todas que aparecem com a idade e pela dependência dos nossos serviços de saúde. A saúde tem que se preparar, nos próximos 10, 15 anos, para uma mudança da população à qual vai ter que dar resposta. Hoje, nas nossas enfermarias, já temos uma média de idades superior a 80 anos. Portanto, todo o tipo de atividade médica, vai ter que, de alguma maneira, expandir-se e ser usado cada vez mais em pessoas com mais idade. Vai mudar um pouco o perfil da nossa atuação e vai mudar muito o perfil da população que vai estar nos cuidados de saúde e nos hospitais, nos centros de saúde. Depois, a inovação técnica, tecnológica, os novos medicamentos cada vez mais direcionados para o doente específico, vão tornar a medicina muito mais cirúrgica,muito mais precisa, mas também muito mais dispendiosa. A sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde vai estar em causa, claramente, e tem que haver fontes de financiamento que nos permitam acompanhar o progresso, porque o progresso é de facto enorme. Depois, o foco vai ter que ser na prevenção e na medicina personalizada, direcionada para cada doente. Não tenho dúvidas de que daqui a 10, 15 anos teremos uma análise do nosso perfil genético muito diferente do que temos hoje. E com isso poderemos eventualmente perceber qual será o risco de aquela pessoa vir a desenvolver esta ou aquela doença. Toda a sua trajetória de vida vai ter que ser, ob-viamente, direcionada para a prevenção. Julgo que isto já são mudanças muito significativas. O Serviço Nacional de Saúde é possível e sustentável nesse futuro que traça? Tem que se adaptar. Nunca poderá deixar de existir, pensando que há muitas pessoas que dependem dele. É uma exigência quase de caráter solidário e social. É muito importante que o mantenhamos como a pedra basilar do sistema de saúde em Portugal. Agora, tem que haver imaginação para os modelos de financiamento. Por exemplo, se não for para a prevenção e para o SNS e para aquilo que decorre da prevenção, para onde deverão ser canalizados os impostos do tabaco? Quer dizer, fumar é um hábito que queremos diminuir até a exaustão, principalmente porque é indutor de doença cardiovascular, oncológica, respiratórias a mais diversos níveis. Logo, os impostos que advém do consumo do tabaco deveriam ser usados na prevenção da doença. Vamos sofrer no futuro se não o fizermos, porque já se está a perceber a dificuldade de sustentabilidade de um SNS com a progressão que estamos a ter. Se não canalizamos, por exemplo, essas verbas para aí, onde as vamos bus- car? Temos uma cultura muito grande em Portugal de recurso à Urgência por tudo. Isto tem de ser dito. Somos o país da OCDE, cuja população mais recorre à Urgência [O SNS] tem que se adaptar. Nunca poderá deixar de existir, pensando que há muitas pessoas que dependem dele. É uma exigência quase de caráter solidário e social