EPIDEMIA SILENCIOSA: PERDA DE AUDIÇÃO AFETA MAIS DE MEIO MILHÃO DE PESSOAS
2026-05-09 21:09:19

Problema afeta cada vez mais jovens Foto: Getty Images Há uma crise a crescer em silêncio em Portugal que já afeta mais de meio milhão de pessoas. A perda de audição tornou-se um dos maiores desafios de saúde pública deste século, mas continua subestimada, subdiagnosticada e, muitas vezes, ignorada. Uso abusivo de auscultadores vai agravar problema. Os números podem ser ainda mais alarmantes. "Seguramente, é mais de meio milhão", avisa Nuno Trigueiros Cunha, presidente da especialidade de otorrinolaringologia da Ordem dos Médicos. "À medida que aumenta a população sénior, aumenta também a incidência". O impacto é profundo. "A audição é fundamental na comunicação. Quando começam a ouvir mal, as pessoas começam a isolar-se. É um dos fatores de risco mais significativos para as demências se não tratado a tempo", alerta o especialista. Vergonha e negação Apesar disso, milhares de portugueses adiam o diagnóstico durante anos. Vergonha, negação e um processo lento fazem com que muitos só procurem ajuda demasiado tarde. O problema começa cada vez mais cedo. Jovens (e não só) expostos a volumes elevados em auscultadores, concertos e discotecas estão a entrar nesta estatística. António Ricardo Miranda, presidente da associação OUVIR, não tem dúvidas: "existe ainda uma insuficiente sensibilização, particularmente no uso prolongado de auscultadores e na exposição a níveis elevados de som". E aponta o dedo à falta de ação: "a prevenção exige campanhas consistentes, áreas nas quais Portugal ainda tem margem significativa de melhoria". A falha é estrutural. Não existem programas de rastreio auditivo e o acesso a soluções continua limitado. Melissa Cravo, presidente da APtA, revela um dado preocupante: "as pessoas demoram cerca de sete anos a procurar ajuda". Ajuda do SNS Processo inicia-secom consulta O processo inicia-se com uma consulta de otorrinolaringologia no SNS. O especialista avalia o grau de perda auditiva e, caso seja necessário, emite um relatório médico. A partir deste momento, o utente pode dirigir-se a uma entidade credenciada, apresentar a documentação exigida e selecionar o modelo disponível dentro do programa comparticipado. Comparticipaçãolimitada e reduzida A comparticipação cobre 80% do valor da aquisição, mas só para utentes com baixos rendimentos, mediante prescrição médica emitida por um especialista do SNS. O caminho tortuoso para ter um aparelho Geralmente, a comparticipação é permitida para uma nova aquisição a cada cinco anos, ou num período de três anos para a ADSE/outros regimes. Os documentos necessários são receita médica, fatura e recibo original e, muitas vezes, três orçamentos de fornecedores diferentes. Modelos aprovadospelo Estado Existem diversos modelos no mercado, desde os mais discretos e quase invisíveis até aos mais tecnológicos com ligação a smartphones e sistemas de controlo remoto. Quando se fala em aparelhos auditivos comparticipados pelo SNS, refere-se àqueles modelos que cumprem requisitos específicos definidos pelo Estado, ou seja, aqueles que têm eficácia no tratamento auditivo. António José Gouveia