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MEMÓRIAS DE ABRIL: DO BANCO À PRESIDÊNCIA DA CÂMARA DE SINES - FRANCISCO PACHECO

Alentejo Ilustrado Online

2026-05-09 21:08:07

Nem sei bem porquê, dei comigo a pensar no 25 de Abril de 1974 e na distância que já nos separa. Tinha então 26 anos - faria mais um em setembro -, estava casado, com um filho de sete meses, e trabalhava como prospector no Banco Totta & Açores. No ano anterior estivera na agência do Barreiro como caixa móvel, fazendo as férias de alguns camaradas bancários, e participara nas greves de julho de 1973 pela queda do sábado - então ainda se trabalhava nas manhãs de sábado - e na pré-campanha eleitoral da CDE para as eleições legislativas , com aspas porque as eleições de Marcelo Caetano tinham muita farsa e pouca ou nenhuma seriedade, e que ocorreriam em outubro desse mesmo ano. Diariamente percorria várias centenas de quilómetros nos concelhos de Santiago do Cacém e Odemira e não eram poucas as vezes que regressava a casa já com noite cerrada, tendo de ir entregar a mala dos documentos e do dinheiro a casa do gerente da agência. O banco era recente em Sines e a necessidade de criar uma boa carteira de clientes obrigava a um esforço suplementar nas horas de trabalho, sem remuneração extraordinária, porque eram voluntárias. A Revolução de Abril encontrou a vila de Sines num estado caótico. Aos seis mil habitantes, que seriam a sua população normal, acrescentaram-se mais 10 mil trabalhadores nacionais e estrangeiros de todos os ramos de atividade, para fazer face às obras de construção do grande empreendimento portuário, industrial e urbano, mais comumente conhecido por complexo industrial de Sines. Ao tempo estavam em construção o porto, a refinaria da Petrosul, do grupo CUF, a cidade nova de Santo André e várias redes de infraestruturas - águas, incluindo a barragem de Morgavel, saneamento, incluindo a grande estação de tratamento, energia, ferrovias e rodovias. Com os atrasos escandalosos na construção da nova cidade, toda aquela população instalara-se nos arredores da vila, nos estaleiros das empresas, no parque de campismo municipal e em todos os espaços que servissem de quartos para dormir, tais como anexos, sótãos e algumas zonas de construção clandestina. As consequências de tudo isto não podiam ser mais negativas para os residentes: preços das habitações inalcançáveis para rendimentos mais baixos e custo de vida em louca ascensão, pelo que os vencimentos, de forma dramática, teimavam em não durar 30 dias. Mas, como em tudo, a outra face da moeda também era verdadeira. Comerciantes com maiores receitas na hotelaria, restauração e similares, e pescadores com bons rendimentos na venda das suas capturas. Onde existe dinheiro, os proxenetas aparecem como abutres e, no caso da vila de Sines, quando vinha o fim do mês, várias prostitutas aquartelavam-se nos cafés e noutros locais onde atraíam as suas clientelas. A construção do complexo industrial estava a cargo de uma estrutura administrativa, o Gabinete da Área de Sines (GAS), que dependia diretamente do presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, e assumira as mais importantes funções municipais, designadamente o licenciamento de obras. À Câmara Municipal restava emitir licenças de caça e de cães e fora instalada noutro local, ficando o GAS com o edifício dos Paços do Concelho. A tudo isto acresciam duas situações que revoltavam todo o povo: a destruição da praia de Vasco da Gama, com a construção de uma estrada para transporte de pedra para o porto, e o roubo das terras aos pequenos proprietários rurais, expropriados por meia dúzia de tostões para instalação da refinaria da Petrosul. A primeira reação do povo de Sines, imediatamente a seguir ao 25 de Abril, foi a criação de uma Comissão de Redenção e a realização de uma manifestação na praça Tomás Ribeiro, no fim de semana seguinte ao dia da Revolução, onde muitas centenas de cidadãos aprovaram, por unanimidade e aclamação, um documento condenando todas as ilegalidades cometidas e exigindo o saneamento de várias figuras responsáveis do GAS. Nos primeiros dias de maio, Américo Leal regressa a Sines após 27 anos de luta clandestina nas fileiras do Partido Comunista. O povo foi esperá-lo à estação de comboios e transportou-o às costas até à praça Tomás Ribeiro, onde proferiu o seu primeiro discurso em liberdade e perante o povo da sua terra, após uma ausência de mais de um quarto de século. Américo Leal reuniu de imediato os seus antigos companheiros e criou uma espécie de comissão concelhia ad hoc . Depois reuniu os mais jovens e constituímos a comissão local do Movimento da Juventude Trabalhadora. Era urgente encontrar um local que funcionasse como sede do partido e surgiu a ideia da antiga sede do Centro Recreativo, que se encontrava fechada havia alguns anos. Recuperada a chave e regularizadas as rendas, convocámos uma assembleia geral para eleição dos corpos gerentes. Em meados de junho, o PCP inaugurava a sua sede provisória no sótão da coletividade, cedido pela direção em assembleia geral convocada para o efeito, onde durante a ditadura se haviam realizado reuniões clandestinas e se ouvia a Rádio Moscovo. Pelo centro de trabalho passavam diariamente dezenas de camaradas, amigos ou simplesmente curiosos em busca de informação e de materiais de propaganda política - livros, jornais e revistas - ou para se inscreverem como militantes. Desempenhei esse trabalho diariamente, acumulando com o controlo das finanças. Na agência do Banco Totta & Açores, os meus camaradas elegeram-me para o difícil papel de delegado sindical. Não demorou muito para que um grupo de cidadãos me viesse convidar para integrar a comissão pró-cooperativa de consumo, ao mesmo tempo que era nomeado para a comissão de recenseamento eleitoral. Após o 28 de setembro, a chamada manifestação da maioria silenciosa , convocada pelo general Spínola, cujo combate foi organizado e implementado a partir do centro de trabalho, começámos os preparativos da 1.ª Assembleia Popular do Povo de Sines, que teria lugar no cineteatro Vasco da Gama em janeiro de 1975. Nessa ocasião foram apresentados, para discussão aos presentes - mais de mil cidadãos sinienses - vários relatórios sobre os temas mais candentes da vida diária do povo: porto de pesca, agricultura e expropriações, custo de vida, habitação, turismo, saúde, formação profissional, desporto e tempos livres e competências municipais. Na sequência destes trabalhos, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves visitaria Sines e decidiria devolver à Câmara Municipal a maior parte das suas competências, ao mesmo tempo que obrigava o GAS a prestar informações regulares à população local. Os acontecimentos de 11 de março, com a tentativa de António de Spínola de inverter o curso da Revolução, foram derrotados e as eleições para a Assembleia Constituinte realizar-se-iam em 25 de abril de 1975. Os trabalhos da cooperativa de consumo estavam concretizados - estatutos aprovados, corpos sociais eleitos e largas centenas de sócios registados - faltando apenas encontrar um local para a sua sede. Nada melhor do que um antigo café comprado pelo Banco Totta & Açores para futuras instalações, que agora se afiguravam improváveis devido à nacionalização da banca na sequência dos acontecimentos de 11 de março. Nessa noite, após reunião dos sócios e colocada a questão, foi decidido por unanimidade ocupar esse espaço, devendo a direção encetar negociações com o banco para arrendamento do prédio. E lá fomos todos concretizar a decisão, forçando a entrada e tomando conta das instalações. O passo seguinte da coordenadora da Assembleia Popular foi a eleição das comissões de moradores em todos os bairros da vila e lugares do concelho. Marcadas para junho, os moradores de cada zona - cerca de 20 por local - elegeram os seus dirigentes, que passaram a ter a responsabilidade de tentar resolver os problemas, por mais difíceis que se apresentassem. Como se dizia na altura, nada do que acontece no bairro é estranho à sua comissão de moradores . Lema que viria a ser adotado para o concelho após as eleições autárquicas de dezembro de 1976. Mas algo inesperado surgiria nesse junho de 1975. Para que a campanha de tomate se pudesse concretizar em Alvalade Sado, era imperiosa a intervenção do Estado na Empresa de Concentrados de Alvalade (ECA), paralisada desde fevereiro desse ano por ocupação dos produtores e em risco de não laboração, com graves prejuízos para a região. Pretendia o Ministério da Agricultura encontrar urgentemente dois administradores, um para a produção e outro para a área administrativa e financeira. O PCP, indigitado para uma nomeação, não hesitou e indicou-me para esta última função. Porque era bancário, porque tinha experiência e porque conhecia bem a região e as suas gentes, onde trabalhava como prospector. Estive nessas funções durante um ano. A campanha de tomate de 1975 realizou-se com sucesso e, feito o trabalho preparatório para 1976, o Ministério da Agricultura, então chefiado por António Lopes Cardoso, determinou o meu regresso ao banco. Estávamos então em campanha eleitoral para a Presidência da República, que seria ganha pelo general Ramalho Eanes, após o que iniciámos as discussões para a elaboração das listas da Frente Eleitoral Povo Unido (FEPU) para as eleições autárquicas de dezembro de 1976. Foi então proposto e aprovado que eu seria o cabeça de lista à Câmara Municipal de Sines. Entretanto, em outubro, nascia o meu segundo filho, trazendo enorme alegria. Em dezembro realizaram-se as eleições autárquicas, que ganharia com maioria absoluta, tal como as cinco seguintes: 1979, 1982, 1985, 1989 e 1993, em que concorri com a APU e a CDU à presidência da Câmara de Sines. O primeiro objetivo foi retomar o edifício dos Paços do Concelho e, na primeira reunião com o GAS, informei que no dia 1 de junho a Câmara regressaria ao seu edifício, com ou sem o GAS lá presente. E assim foi. Depois era preciso recuperar a praia de Vasco da Gama e garantir a construção do porto de pesca que Marcelo Caetano prometera em 1971, aquando da sua visita a Sines, e que estava esquecido. E assim aconteceu. Seguiu-se a luta contra a poluição industrial, que conseguimos estancar. Depois, a construção das associações distritais de municípios de Beja e de Setúbal e da associação nacional, em Coimbra. Vieram depois os Congressos sobre o Alentejo e, é verdade, ainda falta cumprir a Constituição e regionalizar o Continente. Precisamos de uma região Alentejo eleita diretamente pelos alentejanos. Vão ver que isto muda. Luís Godinho, Jornalista