LIGA PORTUGUESA CONTRA O CANCRO - CONSULTA DE PSICO-ONCOLOGIA DA LIGA COMPLEMENTA RESPOSTA DO SNS
2026-05-09 21:01:36

Oncologia Cerca de 88% dos doentes que chegam a esta resposta da Liga Portuguesa Contra o Cancro apresenta índices elevados de distresse O sofrimento emocional é conside- rado o sexto sinal vital, a seguir à tem- peratura corporal, frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial e dor. No entanto, por norma, quando um doente vai a uma urgência ou a uma consulta, este é um fator ainda pouco valorizado. Com a indicação de que um número significativo dos doentes com cancro apresenta sintomas clinicamente significativos de perturbação psicológica, nomeadamente, perturbações de ansiedade, depressivas e de adaptação, o Núcleo Regional do Centro da Liga Portuguesa Contra o Cancro disponibiliza uma Consulta de Psico-Oncologia em que avalia, por exemplo, o nível de distresse ou sofrimento emocional. Como explicam a psicóloga Sónia Silva e a médica Natália Amaral, trata-se de uma resposta que veio colmatar «as lacunas» na disponibilização de apoio psicológico a doentes com cancro e aos seus familiares, que surgiu em 2009, com o apoio da AMGEN Foundation. «É um apoio que não substitui o apoio que é feito ao nível do SNS, mas é uma resposta complementar. E é uma resposta que se pretende, no fundo, ter quando há uma lacuna identificada em alguns serviços da oncologia que não têm os profissionais necessários para poder dar esta resposta especializada ao doente, ao sobrevivente», sustenta Sónia Silva. «Como médica, senti em todas as minhas ações, no meu dia a dia, esta necessidade do doente oncológico. A nível hospitalar, há hipótese do apoio psiquiátrico, mas o apoio psicológico é muito difícil», completa Natália Amaral. A resposta foi crescendo e, atualmente, esta ajuda está disponível em 58 locais, com 70 psicólogos a colaborar nestas unidades, a nível nacional. Como salienta Sónia Silva, «80% dos pedidos são para mulheres, sejam elas doentes ou acompanhantes», havendo já a possibilidade de ajudar os mais novos no Hospital Pediátrico de Coimbra, graças a um protocolo celebrado com a ULS de Coimbra. «Acho que é muito significativo olhar para uma instituição da sociedade civil, sem qualquer apoio do Estado e que faz 21 mil consultas de psicologia durante um ano, a nível nacional, que tem cerca de 3.700 pessoas que nos procuraram só no ano passado», adianta Sónia Silva, ressalvando que nem todas as pessoas diagnosticadas com cancro necessitam de apoio psicológico, mas «todas poderiam beneficiar». Para as equipas vocacionadas para este tipo de ajuda é prioritário avaliar, então, os níveis de sofrimento emocional, e, para tal, a Liga utiliza o chamado termómetro do distresse e o que se constata é que «cerca de 88% dos doentes» que chegam à consulta «estão acima do limiar». «Digamos que os outros 12 % não precisam propriamente de ajuda psicológica, não estão em sofrimento emocional significativo, mas beneficiam sempre de algum aconselhamento, de alguma orientação, de alguma prevenção», frisa, referindo também a importância de «prevenir os aspetos psicológicos». «Nós não temos só que ir ao psicólogo depois de adoecer, de estarmos deprimidos, de queremos desistir de um tratamento. Nós até deveríamos começar a ter este apoio logo no início, precisamente para tentar prevenir que isso aconteça, para tentar ajustar e adaptar o melhor possível às alterações que a doença vai implicar», alerta. Importância de envolver as famílias Sónia Silva acrescenta ainda que, ao analisar o distresse dos familiares acompanhados na consulta, os indicadores são ainda mais elevados, ultrapassando os 90%, o que confirma «a importância de envolver os familiares neste espaço de apoio». Aliás, para além do cuidado, a Liga Portuguesa Contra o Cancro pretende também sensibilizar para as necessidades emocionais das pessoas, um fator que está a dar frutos, até porque, exemplifica Sónia Silva, «mais de 120 serviços hospitalares» entraram em contacto com a Liga para utilizar o termómetro do distresse. «E é muito interessante perceber essa recetividade, abertura e interesse dos profissionais de saúde em estar mais atentos a estas necessidades. Claro que traz aqui desafios, porque se se identifica uma necessidade, tem que haver uma resposta e essa resposta julgo que também ainda é insuficiente na nossa saúde, mas a Liga acaba por ser essa resposta», conclui. “Os superpoderes da Júlia” ajudam a explicar o cancro aos mais pequenos E como explicar o cancro às crianças? Também nesse aspeto, a Liga Portuguesa Contra o Cancro dá uma ajuda com o livro “Os superpoderes da Júlia”, uma publicação que pretende apoiar os adultos a explicar aos mais pequenos o que é o cancro, qual o seu impacto no dia a dia da família e como a sua ajuda pode fazer a diferença. O livro conta a história de Júlia, «que adora brincar em família», até que descobre que o pai tem uma doença oncológica e que «ela tem superpoderes para o ajudar», sendo o amor o maior deles todos. Natália Amaral e Sónia Silva destacam importância do acompanhamento psicológico de doentes e familiares